
“Eu nem queimei o filme do Darwin, né?... Mas é, seleção natural, pô, seleção natural não resolve nada, né? Para dizer que o homem veio do macaco, pô. Seleção natural é o cara que bate melhor ganha o campeonato. Acabou. Vai resolver o quê? A sobrevivência do mais apto. OK. Agora, como é que esse mais apto... desenvolve espécies novas?”
Essa é a transcrição dos primeiros 25 segundos de um corte de entrevista no Flow Podcast. Estamos falando aqui de uma audiência literalmente de milhões. Embora eu seja muito cético a respeito de o quanto podemos fazer sobre o criacionismo, teorias de conspiração, ou fake news no geral, alguns autores defendem que é melhor responder do que não responder, pelo menos no âmbito dos debates na internet. Já comentei brevemente em vídeo os erros crassos apresentados no Flow em questão, mas agora trago mais alguns detalhes na coluna de hoje.
O convidado, Daniel Lopez, é bem conhecido do público de podcasts por suas ideias estapafúrdias e teorias da conspiração. Portanto, foi sem surpresa que recebi muitas de suas falas. Vamos a algumas. Segundo o Daniel, Darwin “nem falava sobre isso [especiação], porque... a galera estuda Darwin achando que já existia a ideia de genética, né? De gene recessivo, gene dominante, não tinha isso”.
Bom, certamente não havia na época de Darwin uma concepção de genética como a que temos hoje. Porém, Darwin discute, e muito, a questão da hereditariedade, pois sabia que, sem herança, as variações filtradas pelo seu mecanismo preferencial — a seleção natural — acabariam perdidas, ou diluídas. Darwin não só estava preocupado com a questão da hereditariedade, como ele mesmo propôs uma hipótese sobre o seu funcionamento, a hipótese da pângenese, de que já falamos brevemente aqui.
Outro ponto importante: Darwin discutiu sim “A Origem das Espécies”, isto é, a formação de novas espécies. Hoje, temos um termo para isso — especiação. Darwin oscilou ao longo da vida sobre como o processo de formação de novas espécies ocorria (se o isolamento geográfico era importante ou não), mas certamente não ignorou o tema. Seja em sua obra mais famosa, ou em suas cartas. Em carta (1878), Darwin até chega perto de cunhar o termo “especiação”:
“Quando publiquei a 6ª edição da 'Origem', pensei bastante sobre o assunto a que o senhor se refere, e a opinião ali expressa foi minha convicção deliberada. — Cheguei o mais longe que pude, talvez longe demais, em concordar com Wagner [sobre o papel do isolamento geográfico]. Desde então, não vi motivo para mudar de ideia, mas devo acrescentar que toda a minha atenção foi absorvida por outros assuntos. — Há duas classes diferentes de casos, ao que me parece, a saber: aqueles em que uma espécie se modifica lentamente na mesma região (dos quais não duvido que existam inúmeros exemplos) e aqueles casos em que uma espécie se divide em duas, três ou mais novas espécies, e nestes últimos casos, eu pensaria que uma separação quase perfeita ajudaria muito em sua 'especificação' — para cunhar uma nova palavra”.
O convidado do Flow ainda traz a questão da evolução da complexidade. E demonstra, mais uma vez, não conhecer a literatura que pretende discutir. Segundo ele, Darwin teria dito que “a questão do olho, do surgimento do olho nos animais, não me deixa dormir, porque o olho ele já surge muito desenvolvido”, e que “o olho atrapalha a minha teoria, porque como é que surge isso já [sic] prontão?". Vamos dar uma olhada numa carta (1860) de Darwin a Asa Gray, um de seus aliados e religioso.
“É curioso que me lembre bem da época em que pensar no olho me dava calafrios, mas já superei essa fase da queixa, e agora pequenos detalhes insignificantes de estrutura costumam me deixar muito desconfortável. A visão de uma pena na cauda de um pavão, sempre que a vejo, me dá nojo!”
Darwin, de fato, havia superado essa fase, pois em seu livro de 1859 já propõe um cenário detalhado e plausível sobre a evolução do olho dos vertebrados, citando formas “transicionais” ainda existentes na Natureza. Basta ler a seção “órgãos de extrema perfeição e complicação”, do capítulo VI do livro. E quanto à cauda do pavão, o contexto é o seguinte: Darwin estava expressando sua frustração com o fato de a cauda grande, colorida e aparentemente desajeitada do pavão macho representar um desafio significativo à sua teoria da seleção natural, pois parecia ser uma desvantagem e não uma adaptação para a sobrevivência. Para resolver esse enigma, Darwin desenvolveu sua teoria da seleção sexual, que ele discutiria de forma mais detalhada em sua obra A Origem do Homem e a Seleção em Relação ao Sexo (1871).
O convidado do Flow ainda incorre em vários erros sobre evolução e ciência no geral (“na minha opinião, [o Darwinismo] nem deveria ser teoria, deveria ainda estar no ramo da hipótese”, disse ele), inclusive caindo vítima daquela visão errônea das ciências históricas como algo inerentemente inferior às ciências experimentais, algo que já discuti em outra coluna.
Obviamente, o convidado não poderia encerrar o assunto sem uma teoria da conspiração. Segundo ele, “como os historiadores precisavam muito descredibilizar o Cristianismo”, reside aí o motivo da existência ou aceitação da teoria da evolução. Aliás, num momento anterior da conversa, ele já havia alegado que Darwin tinha feito um discurso mais ateísta em seu livro “A Origem do Homem”.
Isso demonstra, mais uma vez, desconhecimento das fontes citadas. Nessa obra, Darwin gasta muito mais páginas discutindo seleção sexual do que a origem do homem. E não faz qualquer campanha ateísta. Além disso, o próprio Darwin negou que tenha sido ateu, mesmo nos momentos de maior provação (e passou por algumas, como a morte de Anne Darwin, sua filha). Em carta datada de 7 de maio de 1879, escreveu:
“Em minhas flutuações mais extremas, nunca fui ateu no sentido de negar a existência de um Deus. — Penso que, de modo geral (e cada vez mais à medida que envelheço), mas nem sempre, um agnóstico seria a descrição mais correta do meu estado de espírito”.
Classificar Darwin como alguém preocupado com o movimento ateísta é “biografia freestyle”, pois certamente sua vida e obra não apoiam tais conclusões. Muitos dos apoiadores e amigos de Darwin eram religiosos, e Darwin jamais fez questão de engajar em questões ateístas. Também vale lembrar que a esposa de Darwin, Emma, era extremamente religiosa, e Darwin jamais teria qualquer interesse em atacar as convicções religiosas dela.
Finalmente, a correspondência pessoal de Darwin revela “seu próprio envolvimento ativo com os assuntos da igreja, seu papel em instituições de caridade locais, sua supervisão das finanças da igreja e da escola e sua preocupação geral com o status da igreja na comunidade.”
Darwin não tinha, nem a maioria dos biólogos evolutivos modernos têm, a intenção de destruir o Cristianismo. Agora, a atitude de alguns cristãos em distorcer o que é dito, ou demonizar alguns temas, pode sim agir contra a fé.
João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade
(A imagem que ilustra este artigo é uma pintura do HMS Beagle, navio que levou Charles Darwin em sua famosa viagem ao redor do mundo, de autoria de Owen Stanley)
