Excelência é o caminho para resgatar a universidade

Artigo
15 set 2025
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estudante universitária

 

Quando redijo este artigo, o livro mais vendido no momento pela Amazon é Café com Deus Pai 2024: Porções Diárias de Paz, de Júnior Rostirola – o mesmo título que liderou as vendas em 2024. Trata-se de um conjunto de mensagens curtas de caráter motivacional-religioso, que se encaixa sem dificuldade na categoria de autoajuda.

Esse tipo de obra encontra público fiel por uma série de razões. Textos motivacionais geram alto engajamento porque oferecem esperança em meio a cenários de incerteza e colocam o leitor como protagonista de uma narrativa positiva. Trazem explicações simples e assertivas para acontecimentos que pareceriam mero acaso, além de suavizar ou até expiar culpas pessoais. Outro ponto é a promessa de respostas diretas em um mundo complexo. A autoajuda apresenta fórmulas simples, em contraste com a dificuldade das análises críticas ou científicas.

Textos recentes desta revista receberam grande engajamento por se aproximarem dessa literatura afetiva que virou moda em certas esferas acadêmicas. Nesses textos de afeto e acolhimento, o docente ou gestor, figura que pertence à estrutura de poder, adota uma linguagem carregada de sentimentalismo para se mostrar sensível às dores dos mais vulneráveis. O recurso cria uma narrativa envolvente e performática, mas que soa como encenação moral, onde tudo cabe dentro da indignação e do testemunho anedótico.

Para quem lê os artigos e está fora do cotidiano acadêmico, pode parecer que temas como saúde mental e assédio não são discutidos ou sequer levados a sério nas universidades. Unesp, USP e Unicamp lançaram ações específicas de combate ao assédio, enquanto universidades federais, como de Lavras (UFLA) e a de Pernambuco (UFPE), criaram programas voltados para a saúde mental. Recentemente, a Unesp até mesmo sugeriu que servidores fossem dispensados para uma palestra motivacional com guru indiano, intitulada: “Saúde Mental e Bem-Estar no Trabalho: silêncio, respiração e propósito”.

Esses são apenas pouquíssimos exemplos, entre inúmeros outros que podem ser encontrados com uma rápida busca: praticamente toda universidade pública mantém algum programa voltado ao acolhimento de estudantes e servidores. Esses programas estão longe de serem perfeitos, mas dizer que há silêncio em torno da saúde mental e do assédio não apenas é equivocado, como ignora o fato de que, hoje, praticamente só se fala disso na Academia.

O que se discute cada vez menos, a ponto de aproximar-se de um tabu, é a excelência acadêmica. Esse pilar que deveria ser tratado como essencial em qualquer universidade de pesquisa vem sendo substituído por uma lógica em que a correção de erros e o rigor formativo deixaram de ser entendidos como etapas essenciais do aprendizado, passando a ser tratados como obstáculos a serem eliminados em nome da inclusão e do acolhimento.

Na direção oposta das políticas atuais da maioria das instituições, a University of Austin (UATX), criada há apenas quatro anos, vem com uma proposta audaciosa que pretende recolocar a excelência acadêmica no centro de sua missão. Seus dirigentes defendem que as universidades não podem se limitar a discursos de acolhimento ou a políticas que priorizam exclusivamente a igualdade de resultados, sob pena de perderem a capacidade de formar indivíduos preparados para lidar com o dissenso, com a competição e com desafios intelectuais mais complexos.

No discurso de boas-vindas aos novos estudantes deste ano, o reitor da UATX, Carlos Carvalho, adotou um tom que destoa das falas protocolares habituais na maioria das instituições. Citando Alexis de Tocqueville, historiador e político francês, Carvalho afirmou (em tradução livre): “uma busca dominante por igualdade sufoca justamente as pessoas cujo talento, coragem e visão incomuns poderiam impulsionar todos os outros para o alto [...] Em nome da igualdade de todas as coisas, acabamos iguais apenas na mediocridade”.

A fala pode soar exagerada, mas aponta para um caminho possível às universidades contemporâneas. Trata-se de um modelo que dialoga com o rigor do projeto humboldtiano de universidade de pesquisa, concebido no século 19 e que apresentou evidências de êxito por mais de dois séculos.

Já o modelo atualmente em vigor no Brasil, marcado por uma ênfase crescente em políticas e ações que acabam por afastar as instituições de sua missão central, tem pouco mais de uma década. É uma aposta arriscada que já apresenta sinais de alerta: taxas elevadas de evasão, vagas ociosas e perda de prestígio junto à sociedade.

Marcelo Yamashita é professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro do Conselho Editorial da Revista Questão de Ciência

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