Pós-graduação não deve ser período de servidão

Artigo
4 set 2025
Imagem
Liçao de Anatomia (Rembrandt)

 

Entre todas as engrenagens da produção científica, poucas são tão determinantes e, ao mesmo tempo, tão negligenciadas quanto a figura do orientador, que tem a missão de encaminhar e (como o nome diz) orientar o cientista em formação em seus primeiros trabalhos de pesquisa. Em tese, ele deveria ser o guia. O mestre. A ponte entre o conhecimento consolidado e a fronteira da pesquisa. Na prática, muitas vezes, ele é o chefe. O gestor. O dono do laboratório.

Em casos ainda mais graves, torna-se o carrasco: aquele que, em vez de formar, subjuga; em vez de inspirar, oprime; em vez de orientar, abusa. Esse triângulo, mestre, chefe ou carrasco, é uma das questões mais delicadas e silenciadas da pós-graduação brasileira. Não à toa. Tocar nesse tema é mexer em estruturas de poder que atravessam décadas de práticas institucionalizadas, naturalizadas e, muitas vezes, premiadas. Mas é urgente que se fale sobre isso. Porque o que está em jogo não é apenas a qualidade da formação acadêmica, mas a saúde mental, o bem-estar e até mesmo a permanência de milhares de profissionais na ciência.

No papel, a relação entre orientador e orientando é regulada por normas claras. O orientador deve acompanhar, supervisionar, orientar metodologicamente e eticamente os trabalhos de pesquisa. O estudante, por sua vez, deve desenvolver seu projeto com autonomia crescente, dentro de um ambiente de aprendizado. Na prática, porém, há um contrato invisível, raramente explicitado, mas fortemente sentido. É nesse contrato que se esconde a expectativa de disponibilidade total. De submissão. De silêncio. De gratidão incondicional, mesmo quando o respeito desaparece.

A assimetria de poder é brutal: o orientador decide prazos, aprova textos, chancela viagens, libera bolsas, indica nomes para bancas, escreve cartas de recomendação. E, em muitos programas, não há mecanismos eficazes para que o orientando questione, denuncie ou troque de orientação sem sofrer represálias.

Há orientadores exemplares. Mestres de verdade. Que ouvem, incentivam, corrigem com respeito, estimulam a autonomia, dividem autoria, abrem portas e preparam seus alunos. São esses que mantêm a academia respirando. Mas há os outros. E não são poucos. Que veem seus alunos como força de trabalho barata para alimentar sua própria produção acadêmica. Que usam orientandos como secretários, revisores, estagiários ou técnicos, sem reconhecimento. Que exigem presença aos fins de semana, feriados, férias. Que colocam seus nomes em artigos que nunca leram, e retiram os nomes de alunos que fizeram parte do trabalho. Que assediam, moralmente ou sexualmente, e seguem impunes. Esses são senhores feudais de reinos acadêmicos, protegidos por estruturas hierárquicas e pela cultura do silêncio.

O medo é uma constante no relato de pós-graduandos. Medo de desapontar. Medo de não conseguir defender a tese. Medo de perder a bolsa. Medo de ser boicotado. Medo de ser visto como “difícil”, “problemático”, “pouco comprometido”. E, acima de tudo, medo de denunciar. As ouvidorias e comissões de ética das universidades, quando existem, raramente estão preparadas ou dispostas para lidar com as complexidades dessas relações.

Muitas vezes, o orientador é uma figura influente, com décadas de carreira, posições de poder e alianças institucionais. O aluno é apenas mais um. Substituível. A cultura acadêmica transforma abusos em “exigência”, exploração em “rigor”, autoritarismo em “excelência”. E assim, ano após ano, os casos se repetem. E o sistema continua operando como se tudo estivesse bem.

O abuso acadêmico não deixa marcas físicas. Mas deixa cicatrizes emocionais. Crises de ansiedade, burnout, depressão, desistência de carreira, medo de se relacionar com novos colegas ou orientadores, sensação de inadequação crônica. Não são poucos os relatos de estudantes que abandonaram a pós-graduação por não suportarem mais o ambiente tóxico criado por um orientador. Outros continuam, mas com sequelas duradouras. Muitos perdem a paixão pela ciência. Outros perdem a fé nas instituições.

E tudo isso acontece dentro de instituições públicas, sustentadas por impostos, sob a promessa de formação de excelência. O paradoxo é cruel: universidades que produzem conhecimento sobre ética, direitos humanos e bem-estar, mas não conseguem proteger seus próprios alunos de relações abusivas.

A mudança precisa ser institucional. Estrutural. E começa por reconhecer que o problema existe. Algumas sugestões são:

Formação obrigatória para orientadores: nenhum pesquisador deveria orientar sem antes passar por capacitação pedagógica e ética. Ser um bom cientista não é garantia de ser um bom orientador.

Mecanismos reais de denúncia: é preciso garantir canais seguros, anônimos e eficazes para que estudantes possam relatar abusos. E, mais importante: garantir que esses relatos gerem consequências.

Avaliação 360º: A avaliação de orientadores deve incluir a opinião dos orientandos, de forma confidencial. Essa prática já é adotada em várias universidades no exterior, com resultados positivos.

Política de coorientações: estimular a presença de coorientadores pode diluir o poder centralizado em uma única figura e oferecer ao aluno mais pontos de apoio.

Flexibilização na troca de orientador: Mudar de orientação não deveria ser visto como falha. É parte natural do processo acadêmico. Mas, atualmente, em muitos programas, isso é tratado como quase impossível.

 

A relação entre orientador e orientando é um dos alicerces da ciência. Quando essa relação é saudável, forma não apenas bons profissionais, mas também cidadãos críticos, éticos, preparados para contribuir com o mundo. Quando é abusiva, destrói talentos, corrói instituições e mina a credibilidade da própria academia.

O orientador deve ser mestre, não dono. Parceiro, não carcereiro. Exemplo, não ameaça. A ciência que queremos precisa começar por dentro. E isso inclui, urgentemente, redefinir o papel e os limites do poder na pós-graduação.

Isac G. Rosset é professor do Departamento de Engenharias e Exatas da UFPR – Setor Palotina

Sua Questão

Envie suas dúvidas, sugestões, críticas, elogios e também perguntas para o "Questionador Questionado" no formulário abaixo:

Ao informar meus dados, eu concordo com a Política de Privacidade.
Digite o texto conforme a imagem

Atendimento à imprensa

Harmonic AG 

11 99256-7749  |  andre@harmonicag.com.br