Evolução no tribunal: cem anos de polarização

Artigo
11 ago 2025
Autor
Imagem
chimapnzé pensativo

Há pouco mais de um século, de 10 a 21 de julho de 1925, a cidade de Dayton, Tennessee, serviu como palco para um confronto entre Ciência e Obscurantismo — ou Ateísmo e Religião, dependendo do seu ponto de vista — que alcançaria proporções míticas: o julgamento de um professor do ensino médio, John Scopes, acusado de violar a Lei Butler, uma norma estadual do Tennessee que determinava que:

“Será ilegal para qualquer professor em qualquer uma das universidades, escolas normais e todas as outras escolas públicas do Estado que sejam apoiadas, no todo ou em parte, por verbas das escolas públicas do Estado, ensinar qualquer teoria que negue a história da Criação Divina do homem, como ensinada na Bíblia, e ensinar, em vez disso, que o homem descende de uma ordem inferior de animais”.

Esta lei havia sido aprovada apenas alguns meses antes. Anteriormente, o Senado estadual havia considerado derrubar a proposta em um comitê, sem nem sequer dar-se ao trabalho de submetê-la à votação. Mas então apareceu Billy Sunday.

Billy Sunday foi um fenômeno de massa, um televangelista e pregador de mega-templos antes mesmo de haver TV e mega-templos. Sua pregação atraíra multidões e, segundo relatos da época, ele oferecia uma performance extremamente física, autodenominando-se “ginasta de Jesus”.

Esse ginasta também era fundamentalista. O historiador Edward J. Larson cita a seguinte declaração dele: “Quando a palavra de Deus diz uma coisa e a Academia diz outra, a Academia pode ir para o inferno”. Quando os legisladores do Tennessee notaram que a turnê antievolução de Sunday, na cidade de Memphis, havia atraído aproximadamente 200.000 eleitores em potencial, a Lei Butler foi rapidamente ressuscitada. Era uma lei nascida do espetáculo e do populismo religioso.

A peça de teatro de 1955 Inherit the Wind e suas várias adaptações para cinema e TV (incluindo a mais famosa, o filme de 1960 estrelado por Spencer Tracy, Gene Kelly e Fredric March, indicado a quatro Oscars) sugerem que Scopes (representado pelo personagem fictício Bertram Cates) foi meio que pego de surpresa pela lei, enquanto apenas fazia seu trabalho de tentar dar aos estudantes a melhor educação possível. Na peça e nos filmes, ele é encarcerado e condenado ao ostracismo por uma comunidade intolerante com raiva.

Na realidade, John T. Scopes nem era um professor de Biologia, mas um treinador de futebol americano que, às vezes, atuava como professor substituto.

Após a aprovação da Lei Butler, a ACLU, uma ONG de defesa das liberdades civis e direitos humanos, ofereceu-se para pagar a defesa de qualquer professor que ousasse desafiar a lei. Alguns cidadãos de Dayton viram nisso uma oportunidade de tornar a cidade famosa e atrair negócios (estima-se que 3.000 pessoas deslocaram-se até Dayton para o julgamento), e Scopes foi recrutado para a tarefa. Em sua autobiografia, ele diz que não se lembra de, em uma de suas aulas como substituto, realmente ter tratado do tema da evolução. E Scopes nunca foi preso. Como Larson diz, em seu livro Evolution: The Remarkable History of a Scientific Theory:

“O jovem professor não foi preso, nem condenado ao ostracismo. Muito pelo contrário; no mês anterior ao julgamento, Scopes foi celebrado em um jantar formal na cidade de Nova York; abraçado pelos presidentes das universidades de Harvard, Columbia e Stanford; recebido na Suprema Corte em Washington e ganhou uma bolsa de estudos para estudos de pós-graduação na Universidade de Chicago”.

A lei nasceu de um espetáculo, e o julgamento foi projetado desde o início como outro grande espetáculo (um dos capítulos do livro de Scopes é intitulado “O Circo Chega a Dayton”). No final, o professor foi considerado culpado e condenado a pagar uma multa de US$ 100 (aproximadamente US$ 2.000 hoje em dia, considerada a inflação). Em 1927, a sentença foi anulada, por uma tecnicalidade, na Suprema Corte do Tennessee. O Procurador-Geral do Estado decidiu não recorrer da decisão, efetivamente matando o caso e eliminando qualquer esperança de levar a Lei Butler à Suprema Corte em Washington, onde ela poderia vir a ser declarada inconstitucional. No fim das contas, a proibição de ensinar a evolução nas escolas públicas do Tennessee permaneceu em pé até 1967.

Muito já foi escrito sobre os dois principais adversários no julgamento, Clarence Darrow para a defesa e William Jennings Bryan para a acusação. Ambos eram titãs em seu tempo.

Darrow foi um famoso advogado e orador, especializado em “causas perdidas”, como a defesa de agitadores comunistas, sindicalistas e, no ano anterior ao caso Scopes, dos infames assassinos de Chicago Leopold e Loeb (ele os salvou da pena de morte). Darrow tinha uma profunda convicção de que a interferência da religião na política e na elaboração de leis era um mal social que precisava ser combatido, especialmente a interferência baseada em interpretações literais da Bíblia.

Bryan construíra para si uma carreira política brilhante, incluindo a quase-vitória na eleição presidencial americana de 1896. Seu programa era de populismo econômico, em defesa dos pequenos agricultores e trabalhadores pobres contra banqueiros, financistas e barões das estradas-de-ferro. No início do século 20, ele se reinventara como um populista religioso, fazendo campanha contra o darwinismo e defendendo o fundamentalismo bíblico.

Mas um terceiro titã intelectual também esteve envolvido: o jornalista H.L. Mencken, talvez o jornalista americano mais influente do século 20. Ele cobriu o julgamento para o jornal Baltimore Evening Sun, e seus artigos sobre o caso — coletados no livro Uma Orgia Religiosa no Tennessee — mostram um profundo horror (“pânico e pavor” são as palavras que vêm à mente) pela manipulação política do sentimento religioso.

"O cristianismo evangélico, como todos sabem, é fundamentado no ódio", escreveu ele. “O homem de Neandertal está se organizando nesses grotões desertos da terra, liderado por um fanático, desprovido de consciência e bom-senso”. Seu obituário de Bryan (que morreu cinco dias após a conclusão do julgamento) está no mesmo nível do ataque mordaz que, décadas depois, Hunter S. Thompson escreveu sobre o falecido Richard Nixon.

Se o veredicto de Mencken sobre os evangélicos soa um pouco duro demais, é importante notar que o homem era um elitista consumado, repleto de preconceitos e orgulhoso de cada um deles. Ele dividia muito claramente a Humanidade em uma pequena minoria de tipos “superiores”, capazes de levar a civilização adiante, e uma grande maioria “inferior”, capaz apenas de superstição grosseira e destruição desenfreada. Coincidentemente — e como todos os outros que já compartilharam (ou hoje compartilham) de pontos de vista semelhantes —, ele se via como parte da minoria esclarecida.

Hoje, ele seria cancelado em segundos, e adoraria. Mas, como escreveu o jornalista Art Winslow, Mencken era um homem complexo — um paradoxo irredutível. Em meio ao seu elitismo impiedoso, encontrava espaço para compaixão, e até mesmo para alguma fé nos poderes da educação: referindo-se ao julgamento de Scopes, comentou que “o verdadeiro prisioneiro” da Lei Butler era o povo do Tennessee.

Ele era bastante cínico em relação à democracia (“Se x é a população dos Estados Unidos e y é o grau de imbecilidade do americano médio, então a democracia é a teoria de que x × y é menor que y”; “Muitas vezes apontei como a política, sob a democracia, invariavelmente se traduz, do domínio das ideias lógicas, para o domínio dos meros sentimentos, geralmente medo puro e simples”), mas também muito desconfiado de autoridades de qualquer tipo, e um defensor das liberdades democráticas e dos direitos individuais (“Todo homem decente tem vergonha do governo sob o qual vive”; “Mas os policiais de Chattanooga, como seus irmãos em outros lugares, não permitem que as constituições fiquem no caminho do exercício de seu dever legal”).

Mencken tinha especial desprezo pela tendência da democracia de trair os próprios ideais: “Não preciso apontar o que acontece invariavelmente em Estados democráticos quando a segurança nacional está ameaçada. Todos os grandes tribunos da democracia, em tais ocasiões, se convertem, por um processo tão simples como respirar fundo, em déspotas de uma ferocidade quase fabulosa”.

Se a distância histórica pode nos ajudar a colocar o imenso esnobismo de Mencken no contexto de uma era passada, também revela como as sensibilidades elitistas não mudaram tanto. Não é difícil ver paralelos entre os “Neandertais” de Mencken e os “deploráveis” de Hillary Clinton. Seu libertariarismo antigovernamental é uma versão mais sofisticada do de Elon Musk.

Pode-se dizer que nenhum dos envolvidos no “Julgamento do Macaco” venceu: Bryan morreu como um homem ridicularizado, mais lembrado hoje pela caricatura cômica apresentada em Inherit the Wind do que por qualquer um dos pontos de destaque de sua biografia; e a Lei Butler ainda seguiu vigorando por décadas. Agora, como então, a polarização extrema traz consigo um nível elevado de empáfia e soberba moral que, no fim, tende a empurrar ambos os polos para a autodestruição.

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares) e "Que Bobagem!" (Editora Contexto). Este artigo foi publicado originalmente em inglês em https://carlosorsi.substack.com

Sua Questão

Envie suas dúvidas, sugestões, críticas, elogios e também perguntas para o "Questionador Questionado" no formulário abaixo:

Ao informar meus dados, eu concordo com a Política de Privacidade.
Digite o texto conforme a imagem

Atendimento à imprensa

Harmonic AG 

11 99256-7749  |  andre@harmonicag.com.br