Semelhança genética reflete ancestralidade ou design comum?

Artigo
29 jul 2025
moléculas de DNA

O maior feito de Charles Darwin, com a publicação de A Origem das Espécies (1859), não foi convencer especialistas e público de que a seleção natural era o mecanismo principal pelo qual as espécies se modificaram, ou melhor, eram modificadas ao longo do tempo geológico; de fato, em seu tempo de vida ele não convenceu a maioria. Na verdade, o principal feito da obra de Darwin foi convencer as pessoas que as espécies mudaram, e que a melhor forma de explicar o padrão da biodiversidade da Terra era a ideia de ancestralidade comum das mais diversas formas de vida.

As semelhanças morfológicas, fisiológicas, comportamentais, genéticas, etc. fazem mais sentido se interpretadas como resultado de um longo processo de descendência com modificação do que à luz de uma hipótese de plano divino ou design comum. Esse é o entendimento majoritário da Academia, quase unânime. Mas os criacionistas insistem que as similaridades, especialmente as genéticas, são resultado de um design comum; a filogenia, ou seja, as relações genealógicas entre as espécies, seria apenas uma ilusão que emerge da similaridade inevitável, já que as espécies teriam sido criadas a partir de um mesmo projeto.

Mais uma vez, os criacionistas estão enganados. Há alguns pontos relevantes que põem em xeque essa interpretação criacionista, como o argumento proposto por Joshua Swamidass, médico e cientista, fundador do fórum Peaceful Science.

Swamidass explica que, quando se busca determinar a função de sequências genéticas cujo papel é, num primeiro momento, desconhecido, inferências baseadas em parentesco produzem resultados melhores do que inferências baseadas em similaridade. Ou seja: a hipótese de que a função das sequências genéticas pode ser deduzida supondo que elas derivam de um mesmo projeto traz resultados piores, na prática, do que a hipótese de que a função pode ser deduzida supondo um ancestral comum. Em suas palavras:

“Descobrimos que as predições baseadas em filogenia são duas vezes mais precisas do que aquelas baseadas apenas em similaridade. Isso constitui um teste bastante direto das duas hipóteses. Se as filogenias fossem apenas uma ilusão, não representassem uma história real, por que então elas preveem função melhor do que a própria similaridade? Eu diria que isso é uma evidência de que as filogenias são mais do que uma ilusão. Elas capturam algo sobre a função que é mais informativo do que a mera similaridade — mesmo sendo inferidas a partir da similaridade.

“Ou seja, a similaridade é usada para inferir a história filogenética, e essa história tem uma correlação maior com a função do que a similaridade em si”.

Isso indica que as filogenias capturam relações evolutivas reais que estruturam, de forma mais profunda e informativa, a distribuição funcional dos genes e proteínas. Assim, longe de serem redundantes ou enganadoras, as filogenias revelam padrões que a similaridade isolada não é capaz de explicar plenamente.

Há ainda outros pontos importantes. Primeiro, nem sempre dois organismos mais similares entre si do que em relação a um terceiro aparecem, nas análises filogenéticas, como parentes mais próximos entre si. Um aspecto importante a entender é que as análises filogenéticas não se baseiam apenas em similaridade entre organismos. A filogenia leva em conta a distribuição das características e procura reconstruir os caminhos evolutivos mais prováveis, considerando quais características são herdadas de ancestrais comuns. Assim, a prioridade não é simplesmente quem se parece com quem, mas sim quem compartilha uma história evolutiva comum.

Outro ponto importante, especialmente genético: nem tudo é funcional! Como já discuti em outras ocasiões (aqui e aqui), há diversos tipos de sequência nos genomas das espécies que não servem nenhuma função para o organismo. Ainda assim, quando essas características são analisadas, elas revelam relações de parentesco que são consistentes com o que obtemos ao analisar as regiões funcionais. Por qual motivo a parte não funcional do genoma refletiria as mesmas relações de parentesco? Sob a hipótese do design comum, não se pode explicar tal fato satisfatoriamente. Sob a hipótese da ancestralidade comum, a resposta é simples: mesmo regiões não funcionais do genoma são herdadas dos ancestrais comuns das espécies.

Essas sequências, por não estarem sujeitas a pressões seletivas fortes, tendem a acumular mutações de forma relativamente neutra ao longo do tempo. Assim, quanto mais distantes dois organismos estão em sua linha de descendência comum, mais diferenças essas regiões tendem a apresentar entre si, e vice-versa. Portanto, a similaridade, bem como mudanças específicas compartilhadas nessas regiões, reflete diretamente o grau de parentesco, como esperado em um cenário de descendência com modificação.

Essa coerência entre os padrões observados em regiões funcionais e não funcionais do genoma é um dos argumentos mais poderosos a favor da ancestralidade comum. Se os organismos tivessem sido projetados independentemente (ou mesmo de acordo com um plano funcional idealizado), não haveria razão para que sequências sem função contivessem tamanha estrutura filogenética. Esses dados são o tipo de ruído que a hipótese do design comum não consegue justificar, mas que faz perfeito sentido se as espécies compartilham uma história evolutiva.

Finalmente, nem mesmo para as partes funcionais o argumento do design comum se sustenta. Seja pelo que já foi apontado (similaridade não é exatamente o que se busca numa análise filogenética), mas também pelo fato de que o código genético é degenerado.

Em linguagem técnica, isso significa o mesmo aminoácido (parte de proteína) pode ser codificado por mais de uma sequência genética. Portanto, mudanças na sequência de DNA (mutações) podem ocorrer sem alterar o produto, ou seja, sem mudar o aminoácido incorporado à proteína. Essas são as chamadas mutações silenciosas.

Mutações silenciosas compartilhadas nada têm a ver com função, mas são consideradas quando se faz uma análise filogenética com base em genes. Ou seja, mesmo quando os dados utilizados são os genes, há assinaturas não funcionais que contribuem para revelar relações de parentesco.

O argumento do design comum não resiste ao escrutínio quando confrontado com a complexidade real dos dados biológicos. A hipótese da ancestralidade comum não apenas explica melhor as semelhanças funcionais entre os seres vivos. Ela também dá conta das semelhanças não funcionais e da própria lógica da análise filogenética, que não depende meramente de porcentagens de similaridade, mas de padrões específicos de herança compartilhada. As filogenias revelam relações genealógicas profundas que estruturam a biodiversidade em níveis que um projeto funcional idealizado jamais explicaria.

Se houvesse um design comum, esperaríamos uma convergência funcional, mas não necessariamente uma estrutura histórica coerente e previsível em sequências que não afetam a função. No entanto, é exatamente isso que observamos: os dados genéticos e morfológicos, inclusive os ruídos e “erros” que não teriam propósito algum num projeto inteligente, se encaixam harmoniosamente na narrativa de uma história evolutiva compartilhada. E essa harmonia, esse encaixe entre tantas linhas independentes de evidência, é justamente o que torna a ancestralidade comum uma teoria científica robusta, e o design comum, uma hipótese vazia.

Por fim, existe uma ironia nisso tudo. Os criacionistas não confiam nas análises filogenéticas que revelam as relações de parentesco entre os “tipos” criados (cães, gatos, morcegos, etc), mas acreditam que a partir de um ancestral comum (ou alguns) que deixaram a Arca de Noé após o dilúvio, cada tipo criado evoluiu sua diversidade biológica por processos naturais. E análises filogenéticas funcionam para recuperar a história evolutiva dentro desses tipos criados. Perceba, a lógica filogenética é a mesma, seja dentro dos “tipos criados” ou entre eles. Os criacionistas rejeitam as filogenias somente quando lhes é conveniente. 

João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente Doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade

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