Monitores de atividade física fazem bem?

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21 jul 2025
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monitor de atividade física

Em outro artigo, discuti como surgiu o mito dos 10.000 passos diários para uma boa saúde e apresentei as evidências disponíveis até o momento sobre a quantidade “ideal” de passos necessários para reduzir o risco de morte por todas as causas e por doenças cardiovasculares — aproximadamente 8.800 e 7.200 passos por dia, respectivamente. Na ocasião, prometi destrinchar os estudos sobre o uso de aplicativos e monitores de atividade física. O dia finalmente chegou.

Antes de começarmos, porém, é necessário contextualizar o que são os monitores de exercício físico e os aplicativos de saúde.

Monitores de exercício físico são dispositivos vestíveis que registram dados como distância percorrida, calorias gastas, batimentos cardíacos e qualidade do sono. Já os aplicativos de saúde têm definições mais amplas.

O estudo The Definitions of Health Apps and Medical Apps From the Perspective of Public Health and Law: Qualitative Analysis of an Interdisciplinary Literature Overview, publicado no JMIR mHealth and uHealth — um periódico com revisão por pares voltado para aplicações em saúde e biomedicina em dispositivos móveis e vestíveis, entre outros -, descreve esses apps como softwares instalados em dispositivos móveis que processam dados relacionados à saúde, promovem hábitos saudáveis e previnem doenças.

Há também os aplicativos médicos, um subgrupo voltado à prevenção secundária (diagnóstico precoce) e terciária (reabilitação e manejo de doenças crônicas). Embora compartilhem funcionalidades com os apps de saúde, são direcionados principalmente a profissionais de saúde, pacientes e cuidadores.

Análises de mercado indicam que, até o fim da década, o setor compreendido por ambas as modalidades deve acumular centenas de milhões de usuários e gerar receita de várias dezenas de bilhões de dólares.

 

Aplicativos de saúde

Publicado em 2021 no periódico JMIR Publications, o artigo "Effectiveness of Mobile Apps to Promote Health and Manage Disease: Systematic Review and Meta-analysis of Randomized Controlled Trials" é uma revisão sistemática com metanálise que teve como objetivo resumir as evidências sobre os efeitos dos aplicativos de saúde em diversos desfechos, além de explorar o impacto de variáveis capazes de gerar diferenças estatisticamente significativas nesses resultados — como o número de funcionalidades de um mesmo app, por exemplo.

Dos 8.230 artigos identificados, 172 foram incluídos. A maioria dos estudos foi conduzida em países de alta renda (94,3%), especialmente nos EUA (46,6%). As amostras variaram de seis a 14.228 participantes, totalizando 53.331. A maioria dos estudos envolveu adultos (83,1%) com condições como doenças crônicas (31,9%), transtornos mentais (27,9%) e sobrepeso ou obesidade (26,2%).

Em 58,1% dos estudos, o grupo controle não recebeu nenhuma intervenção, e 83,1% tiveram seguimento de até seis meses. A maioria utilizou aplicativos autônomos (61,6%), enquanto os demais integraram o app a estratégias mais amplas — 22 deles (12,8%) combinaram com intervenções presenciais.

Quanto ao risco de viés, a maioria apresentou risco alto ou incerto nos domínios de performance e detecção. O viés de performance — presente em 123 estudos — ocorre quando participantes e pesquisadores sabem quem recebe a intervenção, o que pode afetar o cuidado ou a coleta de dados. Já o viés de detecção, observado em 132 estudos, refere-se à maior chance de diagnóstico, devido ao monitoramento intensificado.

Constatou-se — com base em 156 estudos envolvendo 21.422 participantes — que o uso de aplicativos voltados à mudança de comportamento conferiu uma vantagem leve em comparação ao cuidado padrão nas intervenções de saúde. Ao analisar as funcionalidades mais presentes nos aplicativos associados a efeitos positivos, destacaram-se: comunicação interativa, lembretes, gamificação e registro em diário. Mas nenhuma dessas funcionalidades apresentou efeito estatisticamente significativo nos desfechos avaliados.

Os autores concluem que os aplicativos exercem um efeito positivo, embora fraco, sobre os desfechos de saúde, e podem servir como recurso complementar útil em intervenções voltadas à mudança comportamental. No entanto, para pesquisas futuras, sugere-se que os aplicativos de saúde (mHealth) adotem diretrizes padronizadas de relato e descrevam suas intervenções e funcionalidades com detalhes suficientes para que os resultados sejam reproduzíveis. Além disso, os períodos de acompanhamento devem ser apropriados à doença ou condição em questão e, provavelmente, mais longos do que os observados nesta revisão, na qual a maioria dos estudos relatou seguimento inferior a seis meses.

Dentre as limitações observadas, é preciso reconhecer que, embora tenha-se tentado focar em intervenções que utilizassem apenas aplicativos, alguns estudos incluíram outras terapias ou intervenções, o que pode ter influenciado os resultados obtidos. Ademais, não foi investigada a adesão dos participantes ao uso dos aplicativos. Por fim, verificou-se falta de clareza na descrição das funcionalidades dos aplicativos.

Com um tom um pouco mais otimista, temos pesquisa publicada em 2021 no BioMed Research International, intitulada Effectiveness of Smartphone-Based Physical Activity Interventions on Individuals’ Health Outcomes: A Systematic Review. Como o nome sugere, os pesquisadores conduziram uma revisão sistemática para avaliar a efetividade de programas de atividade física mediados por aplicativos móveis em três categorias de desfechos de saúde: (1) físicos/fisiológicos; (2) relacionados ao peso; e (3) psicossociais.

A busca na literatura identificou 114 artigos, dos quais 20 atenderam aos critérios de elegibilidade: ensaio clínico randomizado e controlado, uso de aplicativo de smartphone e mensuração de desfechos por acelerômetro. Conduzidos entre 2013 e 2019, os estudos incluíram 2.746 participantes, com idades entre 12 e 70 anos, abrangendo grupos como pessoas com diabetes tipo 2, gestantes sedentárias e adultos com sobrepeso.

Dezenove estudos analisaram desfechos físicos e fisiológicos (por exemplo, número de passos, comportamento sedentário, atividade física e pressão arterial), com intervenções que variaram de duas semanas a 12 meses. Cinco estudos avaliaram desfechos relacionados ao peso (peso corporal e circunferência da cintura), com duração entre 12 e 24 semanas. Quatro estudos examinaram variáveis psicossociais, como motivação para a prática de atividade física.

O levantamento não encontrou evidências suficientes para confirmar que intervenções com aplicativos melhorem de forma consistente os desfechos fisiológicos, comportamentais ou psicossociais. A despeito disso, os autores da revisão sugerem que intervenções com aplicativos móveis podem auxiliar certos desfechos de saúde em contextos específicos.

Apesar do tom um pouco mais otimista, acredito que as limitações ressaltadas na própria revisão diminuem a força dos resultados. Por exemplo, o tamanho amostral de alguns estudos foi pequeno; e a aderência dos participantes ao uso dos aplicativos não foi analisada em nenhum momento.

Infelizmente, ainda não temos uma resposta concreta sobre a eficácia dos aplicativos de saúde. Pelo que as evidências indicam, caso haja um efeito real, ele é pequeno e diz respeito apenas a alguns aspectos, como aumento da quantidade de passos.

 

Equipamentos

Acredito que o estudo mais contundente sobre os efeitos dos equipamentos de monitoramento em diferentes desfechos de saúde foi publicado em The Lancet Digital Health em 2022, sob o título “Effectiveness of wearable activity trackers to increase physical activity and improve health: a systematic review of systematic reviews and meta-analyses”. Trata-se de uma revisão guarda-chuva (uma síntese de revisões sistemáticas) e metanálise para examinar a efetividade de rastreadores de movimento no aumento da atividade física e nos impactos dessa atividade.

Com base nos resultados encontrados, os autores concluem que há evidências consistentes de que intervenções com rastreadores de atividade física são eficazes para aumentar os níveis de atividade física e promover uma perda de peso modesta em diversas populações, abrangendo diferentes faixas etárias.

Os pesquisadores afirmam ainda que há evidências suficientes para recomendar o uso desses dispositivos, ao menos como ferramenta complementar em programas voltados à promoção da atividade física.

Como esperado, a revisão guarda-chuva apresentou algumas limitações importantes. A maioria dos estudos foi classificada como de confiança baixa ou criticamente baixa.

Além disso, embora tenham sido encontradas fortes evidências da eficácia dos rastreadores em aumentar a atividade física, poucas revisões sistemáticas e metanálises avaliaram a eficácia dos rastreadores isoladamente.Por exemplo, um trabalho de 2019 que avaliou separadamente 16 estudos com intervenções multifacetadas e sete com uso exclusivo de rastreadores de atividade verificou que as intervenções multifacetadas apresentaram efeitos cerca de 50% maiores do que aquelas que utilizaram apenas os rastreadores.

Curiosamente, parte dos achados me surpreendeu. Minha expectativa era de que os efeitos sobre os desfechos psicossociais, especialmente qualidade de vida e sintomas depressivos, seriam mais robustos, e não apenas "tendência positiva", como apontado na revisão.

Intrigado com esse resultado, decidi investigar mais a fundo a literatura e me deparei com uma hipótese que até então não havia considerado: será que esses dispositivos podem, em certos casos, gerar efeitos negativos? Em especial, entre pessoas com transtornos alimentares?

Um estudo publicado em 2022, intitulado “Perceived influence of wearable fitness trackers on eating disorder symptoms in a clinical transdiagnostic binge eating and restrictive eating sample”, buscou compreender o impacto dos monitores de atividade física nos sintomas de transtornos alimentares e no engajamento em atividade física em uma população com esses transtornos.

A área dos transtornos alimentares (EDs, sigla em inglês) geralmente evita utilizar dispositivos vestíveis para mensurar a atividade física. Primeiro, porque esses equipamentos não capturam a “vontade” de iniciar ou continuar se exercitando — um componente cognitivo clinicamente mais relevante do que a frequência ou duração do exercício para identificar o exercício desadaptativo.

Diferente do exercício adaptativo, que não é motivado por fatores compensatórios, o exercício desadaptativo é uma forma compensatória para lidar com episódios de compulsão alimentar ou para evitar consequências negativas, como o ganho de peso.

Também existe uma preocupação de pesquisadores e profissionais de saúde com os possíveis efeitos adversos que os rastreadores de atividade física podem ter no desenvolvimento e manutenção dos sintomas dos transtornos alimentares.

O estudo conduzido teve um número pequeno de participantes – apenas 30 – e sofreu com diversas limitações, algumas causadas pelo fato de o trabalho ter sido realizado durante a pandemia de COVID-19.

Os resultados foram inconclusivos: Para alguns, foi observado que os rastreadores podem desencadear sintomas, enquanto para outros, podem ser úteis para promover atividade física adaptativa, reduzir o exercício mal-adaptativo e diminuir episódios de compulsão e restrição alimentar.

Diante das evidências atuais, é possível afirmar que rastreadores de atividade física têm efeito pequeno a moderado — dependendo do desfecho — para aumentar a atividade física e reduzir o comportamento sedentário, facilitando o engajamento em exercícios e, consequentemente, auxiliando na perda de peso.

Embora os dados mais recentes sejam preliminares e não indiquem, de forma alguma, uma relação causal — ou seja, que esses dispositivos causem transtornos alimentares —, algumas pessoas com transtornos alimentares podem se sentir “motivadas” a iniciar um comportamento compensatório relacionado à atividade física. Para elas, o ideal é consultar um psiquiatra e/ou psicólogo para avaliar se o uso desses dispositivos é benéfico ou prejudicial.

Para os demais, acredito que essas tecnologias — aplicativos ou monitores — oferecem um incentivo adicional e facilitam a prática de atividades físicas, desde as mais intensas até as leves, como caminhadas.

Mauro Proença é nutricionista 

 

REFERÊNCIAS

MAAß, L. et al. The Definitions of Health Apps and Medical Apps From the Perspective of Public Health and Law: Qualitative Analysis of an Interdisciplinary Literature Overview". JMIR Mhealth Uhealth. 2022 Oct 31;10(10):e37980. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9664324/.

IRIBARREN, S. et al. Effectiveness of Mobile Apps to Promote Health and Manage Disease: Systematic Review and Meta-analysis of Randomized Controlled Trials. JMIR Mhealth Uhealth. 2021 Jan 11;9(1):e21563. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33427672/.

EMBERSON, M. et al. Effectiveness of Smartphone-Based Physical Activity Interventions on Individuals Health Outcomes: A Systematic Review. Biomed Res Int. 2021 Aug 6:2021:6296896. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34409104/.

FERGUSON, T. et al. Effectiveness of wearable activity trackers to increase physical activity and improve health: a systematic review of systematic reviews and meta-analyses. Lancet Digit Health. 2022 Aug;4(8):e615-e626. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35868813/.

WONS, O. et al. Perceived influence of wearable fitness trackers on eating disorder symptons in a clinical transdiagnostic binge eating and restrictive eating sample. Eat Weight Disord. 2022, Dec; 27(8):3367-3377. Disponíve em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36006603/.

 

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