
Como discuti na coluna anterior e nesse vídeo, Casey Luskin, associado ao Discovery Institute, um grupo criacionista, foi acusado de manipular dados gráficos em um dos textos de uma série de artigos nos quais discutia diferenças genéticas entre humanos e chimpanzés, com base em um novo estudo publicado na Nature. O episódio, que gerou reações intensas até mesmo entre públicos geralmente simpáticos ao criacionismo, revelou não apenas uma distorção factual, mas também uma tentativa deliberada de enganar o leitor ao omitir informações cruciais.
Após ser confrontado por comentaristas e cientistas (Creation Myths, Gutsick Gibbon), Luskin publicou uma atualização com a figura completa e um texto justificando a edição anterior. Contudo, a chamada “desculpa” apresenta falhas graves, que expõem um padrão de desonestidade intelectual e abuso de confiança em sua interlocução com o público.
Contexto da manipulação
A polêmica teve início quando Luskin passou a comentar, de forma insistente, um artigo científico publicado em abril de 2025 que analisava a similaridade entre os genomas de humanos e chimpanzés. Em seus textos, Luskin argumentava que os autores do estudo haviam revelado, mas ao mesmo tempo supostamente escondido, que a diferença genética entre os dois genomas ultrapassa 14%. Essa alegação contrasta com a estimativa científica amplamente divulgada de que humanos e chimpanzés compartilham cerca de 98% a 99% de similaridade genética.
A escolha desse número maior não era neutra: Luskin o utilizava para lançar dúvidas (ainda que não explicitamente; mais sobre isso a seguir) sobre a ancestralidade comum entre humanos e chimpanzés, e para sugerir que a comunidade científica estaria agindo de má-fé ao esconder tais dados do público. Como bem apontado pelos críticos de Luskin, esse argumento se fundamentava em uma confusão (intencional ou não) entre diferentes metodologias de cálculo genético: uma baseada no alinhamento direto de sequências (responsável pela estimativa de 1% a 2% de divergência), e outra que considera lacunas e regiões não alinhadas (o que leva a valores superiores, por volta de 13%).
Embora a diferença entre essas metodologias seja amplamente reconhecida na literatura científica, Luskin tratou os dois números como contraditórios, e não como complementares, construindo assim uma falsa controvérsia.
A situação se agravou quando um leitor atento notou que Luskin havia editado uma figura de um dos artigos discutidos, removendo seletivamente dados que contradiziam sua narrativa. A figura original comparava a divergência genética entre humanos e outras espécies, mas também dentro das espécies (ou seja, gorila vs. gorila, humano vs. humano, etc). Os dados omitidos, as comparações intraespecíficas, revelavam que a divergência dentro dos gorilas (13,8%) era maior do que a divergência entre humanos e chimpanzés (13,3%). Essa constatação é decisiva, pois mostra que níveis elevados de divergência genética não são obstáculos à ancestralidade comum, minando a base do argumento de Luskin. Ou seja, a omissão não foi trivial, nem irrelevante: ela excluía exatamente a informação que desmontava a interpretação que ele vinha fomentando.
A “desculpa” pública
Diante da repercussão, incluindo críticas de usuários do fórum Peaceful Science, um espaço geralmente cordial e aberto ao diálogo com criacionistas, Luskin atualizou seu artigo, inserindo a versão completa da figura e incluindo uma nota explicativa. Nela, lê-se:
“Estou postando aqui o gráfico completo da Figura III.12 dos Dados Suplementares de Yoo et al. (2025) porque algumas pessoas alegam que omiti dados do gráfico de propósito, como se isso de alguma forma refutasse meu argumento. Não, isso é falso. A única razão pela qual publiquei apenas as comparações genômicas entre humanos e outros primatas (as oito curvas superiores) foi por uma questão de simplificação, já que essa era a única parte do gráfico relevante para o meu argumento; as diferenças genéticas intraespecíficas (as cinco curvas inferiores) são irrelevantes. Meu argumento não é que as diferenças genéticas entre humanos e primatas necessariamente refutam a evolução; é que os evolucionistas, que durante décadas alegaram que os humanos diferem geneticamente apenas 1% dos primatas, estavam errados. As oito curvas superiores demonstram isso de forma muito clara. Não havia, e não há, nenhum dado no gráfico que prejudique meu argumento, e sempre forneci o link para os Dados Suplementares, onde qualquer pessoa poderia ver o conjunto completo, se quisesse. Não há nada a esconder aqui. Na verdade, eu já havia tratado extensivamente das objeções relacionadas às diferenças genéticas intraespecíficas aqui, antes de os críticos recentes começarem a comentar”.
A justificativa apresentada, contudo, é repleta de contradições, distorções e omissões.
Luskin afirma que as críticas seriam falsas, pois os dados supostamente “não refutam seu argumento”. Entretanto, os dados omitidos refutam diretamente a ideia de que uma diferença genética de 13% seria um impedimento à ancestralidade comum. Afinal, ninguém duvida que todos os gorilas compartilham um ancestral comum, mesmo apresentando divergência genética superior àquela entre humanos e chimpanzés. Essa negação indica uma recusa em lidar com as implicações lógicas dos próprios dados que cita.
Luskin insiste que seu objetivo é mostrar que os “evolucionistas estavam errados” ao dizer que humanos e chimpanzés diferem apenas 1%. No entanto, esse argumento é falacioso, pois o 1% e os 14% são resultados de métodos distintos de análise genômica. O próprio artigo citado por Luskin reafirma a validade do número menor quando se considera apenas regiões alinhadas. Sua insistência em apresentar os números como mutuamente excludentes é intelectualmente desonesta.
Luskin tenta se defender afirmando que “sempre disponibilizou” os dados completos por meio de um link para o material suplementar do estudo original. Contudo, isso é exatamente o que ele havia criticado nos autores do artigo: colocar dados suplementares fora do corpo principal. Além disso, sua versão da figura foi explicitamente editada para remover parte do conteúdo, sem aviso ou nota de alteração, o que configura manipulação, não transparência. Enfim, é só hipocrisia: Luskin acusa os autores do artigo de uma prática que ele mesmo cometeu de forma mais grave e deliberada.
Outra justificativa apresentada por Luskin é que ele já teria respondido “extensivamente” às objeções relacionadas às variações genéticas intraespecíficas. Porém, como pontuado pelo biólogo Dan Cardinale, essa afirmação não é verdadeira; não com base no que está no conteúdo linkado por Luskin. Ele discutiu apenas variações dentro da espécie humana, ignorando completamente os dados de gorilas e chimpanzés, justamente os dados que havia omitido da figura. Curioso, não?
Um argumento curioso
Embora Luskin tenha escrito prodigiosamente sobre o novo artigo na Nature, segundo ele mesmo, a gente não deveria se preocupar muito com o porcentual de similaridade entre humanos e chimpanzés (ou qualquer outra espécie), já que isso não é de muita serventia. Em um de seus muitos artigos, Luskin escreveu:
“Desde o início desta conversa — em conformidade com o que sempre defendi em discussões anteriores — deixei claro que não acredito que o porcentual de similaridade genética entre humanos e primatas diga algo sobre se compartilhamos ou não um ancestral comum com os chimpanzés. Como escrevi em 2021: ‘a ‘identidade porcentual do genoma’ [isto é, a similaridade genômica porcentual entre humanos e chimpanzés] não oferece um argumento rigoroso a favor da ancestralidade comum e não responde a muitas questões muito interessantes dentro desse debate específico’”.
Claro, uma comparação isolada, não, mas quando tomamos conhecimento da hierarquia de diferenças/similaridades genéticas, expressas em porcentual, aí sim temos um forte argumento a favor da ancestralidade comum. Luskin parece não compreender isso.
O ponto central é que o argumento em favor da ancestralidade comum não depende da mera constatação de que humanos e chimpanzés compartilham, por exemplo, 98%-99% de similaridade genômica nas regiões alinhadas. O que importa é que esse nível de similaridade se encaixa perfeitamente dentro de uma hierarquia de similaridades genéticas entre múltiplos organismos, que espelha com precisão a árvore filogenética inferida a partir de outras linhas de evidência (como morfologia, embriologia e fósseis).
Por exemplo, humanos compartilham mais similaridade genética com chimpanzés do que com gorilas, mais com gorilas do que com orangotangos, e menos ainda com macacos do Velho Mundo. Olha só, exatamente o padrão que esperaríamos se todos esses grupos descendem de ancestrais comuns em uma série de divergências sucessivas ao longo do tempo. Esse padrão não é aleatório, e tampouco seria esperado se a semelhança genética fosse apenas um produto de função ou design comum, como frequentemente sugerem os críticos do evolucionismo.
A ideia de design comum pode ser consistente com essa hierarquia, mas só a ancestralidade comum requer que isso seja observado na natureza. E o que observamos? Para citar o Pirulla (a quem, aliás, você pode ajudar): exatamente o que esperaríamos encontrar se a evolução fosse verdade… porque ela é!
Além disso, essa hierarquia de similaridades se repete em diferentes partes do genoma; genes codificadores, DNA não funcional, inserções e deleções, pseudogenes, retrovírus endógenos, etc. A consistência desse padrão em múltiplas camadas do material genético é justamente o que dá força ao argumento da ancestralidade comum. Ao focar exclusivamente na fraqueza de uma única métrica isolada (porcentual de identidade genômica entre dois táxons), Luskin ignora o quadro completo e, com isso, perde de vista o que torna o argumento da ancestralidade comum cientificamente robusta: a coerência sistemática de padrões genéticos entre múltiplas espécies, que dificilmente poderia ser tão bem explicada por qualquer outra hipótese que não a da ancestralidade comum da vida.
João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente Doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade
