Obsessão por produtividade ameaça inovação na ciência

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14 jul 2025
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Se há uma questão que assombra os corredores das universidades, dos laboratórios e das instituições de pesquisa em todo o mundo, ela não está nos gráficos, nem nos dados brutos, nem nos algoritmos de última geração. Mora no plano das decisões. Na alma da própria ciência. O dilema é antigo, incômodo, e talvez nunca tenha sido tão relevante: vale mais fazer pesquisas sólidas, previsíveis, que entregam resultados praticamente certos, ou arriscar-se nas fronteiras do desconhecido, onde qualquer avanço pode reescrever capítulos inteiros de um campo do saber? Esse é, possivelmente, um dos dilemas mais profundos da prática científica contemporânea. E não se resolve com equações ou estatísticas. Trata-se de uma tensão entre segurança e risco, eficiência e ousadia, entre acumular tijolos sólidos ou tentar abrir portas que nem sequer sabemos se existem.

Não se deve desmerecer a pesquisa incremental, a ciência da certeza. Muito do que sabemos sobre o mundo foi construído assim, meticulosamente, camada após camada. São estudos que replicam experimentos, que refinam técnicas, que validam modelos. É a ciência que, mesmo sem prometer revoluções, sustenta as bases do conhecimento. Ela é também a mais financiável. Agências de fomento, comitês de avaliação e revisores de periódicos sentem-se mais confortáveis diante de projetos que oferecem alta previsibilidade. Afinal, o dinheiro público (ou privado) precisa gerar resultados tangíveis, publicações sólidas e indicadores de produtividade. Um estudo que promete melhorar a acurácia de um método de diagnóstico em 5%, por exemplo, é visto como um investimento seguro. Mas há um (possível) risco embutido na segurança: a mediocridade. A ciência que se limita a polir o que já é conhecido pode se tornar uma máquina de produzir papers, gráficos bonitos e currículos robustos, mas de pouco impacto real sobre os grandes problemas ou as grandes perguntas.

No outro extremo está a ciência da incerteza. A que mira perguntas tão grandes, tão complexas ou tão desconhecidas que a probabilidade de fracasso é quase garantida. Mas, se der certo, muda tudo. É aqui que nascem os saltos paradigmáticos. A Teoria da Relatividade, a mecânica quântica, a estrutura do DNA, a descoberta dos ribozimas, a expansão acelerada do Universo, a inteligência artificial generativa. O problema? Essa ciência é cara, demorada e parece improdutiva aos olhos da burocracia. É difícil colocar no papel um cronograma de entregas semestrais quando se está tentando descobrir algo que talvez seja impossível. E há custo emocional. Trabalhar anos, às vezes décadas, em uma hipótese que pode simplesmente se provar falsa exige resiliência.

O sistema acadêmico atual, moldado por métricas, índices e rankings, não é amigo do risco. A pressão por publicações constantes, pelo fator de impacto, por produtividade linear, faz com que muitos pesquisadores escolham o caminho mais seguro. Projetos de alto risco, que podem falhar, tornam-se inviáveis. E isso tem consequências. A ciência, ao se proteger do fracasso, começa a se proteger também da possibilidade de transformação profunda. O medo do erro pode ser o maior obstáculo para o próximo grande acerto.

Mas não se trata de escolher um lado e abandonar o outro. A falsa dicotomia entre ciência incremental e ciência disruptiva precisa ser revista. A pesquisa sólida, bem fundamentada, que aperfeiçoa metodologias, valida modelos e confirma dados é absolutamente essencial. Mantém a casa de pé. Sem ela, qualquer tentativa de salto vira um mergulho no vazio, sem referências, sem direção. Mas toda comunidade científica saudável precisa cultivar e proteger espaços para a pesquisa de alto risco. E isso não pode ser tratado como luxo ou excentricidade de gênios isolados. É uma necessidade sistêmica. Algumas agências de fomento, como a DARPA nos Estados Unidos, entenderam isso há décadas. Financiam projetos com altíssimo risco e altíssimo potencial de impacto, conscientes de que a maioria fracassará. No Brasil e em muitos outros países, iniciativas assim ainda são raras.

O dilema toca em algo profundamente humano: nossa relação com o desconhecido. A ciência nasceu do desconforto com aquilo que não sabíamos. Mas, paradoxalmente, quando começamos a saber demais ou achamos que sabemos, tendemos a nos acomodar. Fazer ciência não deveria ser apenas confirmar o que já se espera. Deveria ser, antes de tudo, um exercício permanente: “E se houver outra explicação, outra estrutura, outro caminho?”. Essa pergunta é desconfortável. Pode custar carreiras, verbas, reputações. Mas também é o que acende a fagulha das grandes revoluções do pensamento humano.

Cada pesquisador, cada grupo, cada instituição faz, ou deveria fazer, esse balanço permanentemente. O mundo precisa tanto dos que apertam os parafusos da máquina quanto dos que ousam imaginar uma máquina completamente diferente. O perigo está, talvez, em esquecer que ambos são necessários. A ciência que só busca o seguro se fossiliza. A que só busca o novo se perde. O desafio é construir sistemas, culturas e financiamentos que permitam aos cientistas transitar entre esses dois objetivos. E, quem sabe, ao aceitar que a incerteza é parte do próprio método científico, possamos lembrar que as perguntas que mais valem a pena são, quase sempre, aquelas para as quais não temos nenhuma garantia de resposta.

 

Isac G. Rosset é professor do Departamento de Engenharias e Exatas da UFPR – Setor Palotina

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