Usando óvnis como cortina de fumaça

Artigo
21 jun 2025
Imagem
Monstro alienígena de filme B

Se eu dissesse que o governo mente para você, sua resposta muito provavelmente seria: “E isso é novidade?”. Mas e se eu disser que o governo reconhece que mentiu para você, e que lhe enganou por décadas, você acreditaria? Pois foi mais ou menos isso que aconteceu recentemente nos Estados Unidos da América. Uma matéria no The Wall Street Journal, publicada em 6 de junho, revela que uma campanha de desinformação do Pentágono, atrelada a trotes, alimentou a ufomania nos EUA (e no mundo, portanto).

Os mais fiéis amantes da ufologia, é claro, não se deixaram abalar. Para quem vive embebido em conspiração, qualquer evidência que não dê apoio às suas crenças, ou que as invalide em grande medida, é transformada em evidência a favor da conspiração, ou automaticamente considerada inválida ou falsa. Como diz o Pirulla: [a ciência] só está certa se concorda comigo; se não concorda, não pode estar certa.

(E por falar no Pirulla, ele já deixou a UTI, mas continua seu longo processo de reabilitação. Você pode ajudar. Visite a Vaquinha do Pirulla. Considere também maratonar seus vídeos, para manter o canal ativo. Obrigado!)

Voltando à matéria do Wall Street Journal, ela foi assinada por Joel Schectman e Aruna Viswanatha. Até agora só a primeira parte foi publicada, mas nas próximas semanas a parte 2 deve sair. O capítulo inicial já revela que parte significativa da mitologia sobre óvnis nos Estados Unidos foi alimentada, ao longo de décadas, por operações deliberadas de desinformação do próprio governo americano. Investigação recente, iniciada por exigência do Congresso e conduzida por uma pequena equipe do Departamento de Defesa, descobriu que vários dos rumores sobre tecnologias alienígenas e acobertamentos oficiais não apenas eram falsos, mas haviam sido, em certos casos, fabricados pelos militares para encobrir programas secretos de defesa.

Um dos exemplos mais emblemáticos ocorreu nos anos 1980, nas proximidades da famosa Área 51. Um coronel da Força Aérea visitou um bar local e entregou ao dono fotos adulteradas de supostos discos voadores, que foram penduradas nas paredes e alimentaram o folclore local sobre testes com tecnologia alienígena. Na verdade, tudo não passava de uma manobra de desinformação: as fotos tinham o objetivo de desviar a atenção da população local dos testes reais com aeronaves furtivas, como o F-117 Nighthawk. O voo inaugural desse caça-bombardeiro furtivo ocorreu em 1981, mas a existência da aeronave só foi tornada pública em 1988, segundo a Lockheed, desenvolvedora da tecnologia.

No contexto da Guerra Fria, era preferível que as pessoas acreditassem que os avistamentos estranhos eram espaçonaves alienígenas do que tecnologia militares secretas.

O artigo relata que práticas semelhantes remontam à década de 1950. Algumas vezes, militares espalharam documentos falsos para proteger operações confidenciais; em outras, simplesmente permitiram que os rumores sobre óvnis se espalhassem, pois isso dificultava a espionagem estrangeira.

A reportagem também descreve o trabalho de Sean Kirkpatrick, cientista que assumiu em 2022 a chefia do Escritório de Resolução de Anomalias em Todos os Domínios (AARO), criado para investigar fenômenos aéreos não identificados. Sua equipe teve duas missões: avaliar relatos recentes (a maioria explicada por balões, drones ou satélites Starlink) e investigar alegações históricas de programas secretos envolvendo tecnologia alienígena. Durante essa segunda tarefa, descobriram uma “verdade” incômoda dentro do próprio Pentágono.

Um caso notório envolvia um suposto programa chamado “Yankee Blue”. Oficiais recém-incorporados a programas ultrassecretos eram apresentados a um briefing com documentos e imagens de uma suposta espaçonave antigravitacional, cuja tecnologia estaria sendo estudada. Muitos acreditaram por décadas que aquilo era real, até que os investigadores descobriram que tudo fazia parte de um ritual interno, semelhante a um trote, que se repetiu por gerações dentro da Força Aérea.

O Departamento de Defesa ordenou o fim imediato da prática em 2023, mas o estrago já estava feito: centenas de militares, sob acordos de sigilo, carregaram por décadas a crença de que tiveram acesso a segredos alienígenas.

Outro caso investigado foi o de Robert Salas, ex-capitão da Força Aérea que em 1967 testemunhou um estranho objeto laranja pairando sobre uma base de mísseis nucleares em Montana, evento seguido da desativação simultânea de dez ogivas. Salas acreditava ter presenciado uma intervenção alienígena. A investigação atual revelou que ele foi, na verdade, vítima de testes secretos com geradores de pulsos eletromagnéticos, criados para simular os efeitos de um ataque nuclear soviético sobre os sistemas de lançamento americanos.

O equipamento, colocado a cerca de 18 metros de altura, emitia rajadas de energia que podiam parecer relâmpagos ou luzes intensas, exatamente o óvni que os soldados viram. Contudo, por razões de segurança nacional, os envolvidos jamais foram informados sobre os testes. Salas e outros envolvidos foram instruídos a jamais comentar o ocorrido.

É curioso como entusiastas da ufologia reagem a esse tipo de revelação. Muitos dizem “a gente já sabia”, e argumentam que isso nada mais é do que uma tentativa de “turvar a água”, uma forma de diminuir toda a atenção que a ufomania tem recebido. Nada mais é, dizem eles, que uma tentativa de fazer o público pensar que tudo não passa de tecnologia secreta, enquanto na verdade o governo está escondendo extraterrestres na Área 51 ou sei lá mais onde. “O governo agora está dizendo a verdade com a intenção de mentir, sabe?”, é como soa para mim. Isso soa exatamente como “conspiranóia”, como diria Ubirajara Franco Rodrigues (hoje muito crítico da ufologia, mas que se tornou famoso por suas investigações sobre “O Caso Varginha”).

Enquanto é logicamente verdade que as revelações feitas não tornam qualquer óvni imediatamente tecnologia militar secreta (embora nem tão secreta assim), um investigador honesto, realmente interessado em entender o que está por trás desses avistamentos ao longo das décadas, deveria reconhecer a necessidade de ser mais pé no chão: de fato, o governo mente sobre suas tecnologias, e muitos “ETs” por aí podem ser só tecnologia humana desconhecida. Isso enfraquece ainda mais as já fraquíssimas evidências de que haveria vida extraterrestre visitando o nosso planeta.

Sim, a verdade está lá fora (eu não perderia chance de fazer essa referência). Mas o que fazer quando as pessoas não querem ir lá fora, ou quando mesmo arrastadas para o mundo exterior, preferem fechar os olhos? Não há muito a fazer; elas querem acreditar.

João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente Doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade

Sua Questão

Envie suas dúvidas, sugestões, críticas, elogios e também perguntas para o "Questionador Questionado" no formulário abaixo:

Ao informar meus dados, eu concordo com a Política de Privacidade.
Digite o texto conforme a imagem

Atendimento à imprensa

Harmonic AG 

11 99256-7749  |  andre@harmonicag.com.br