Mario Bunge, 100 anos: um filósofo contra a pseudociência

Dossiê Questão
19 set 2019
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Retrato de Mario Bunge

Mario Augusto Bunge é um físico e filósofo argentino, nascido em 1919, conhecido pela defesa do cientificismo, do racionalismo e do humanismo, e por suas críticas à pseudociência, categoria em que inclui a medicina alternativa, microeconomia neoclássica, a parapsicologia e a psicanálise. Suas críticas também se direcionam ao que ele define em seu Dicionário de Filosofia como pseudofilosofias, como o existencialismo, a fenomenologia, a hermenêutica e o pós-modernismo. Bunge é autor de mais de 140 livros e 540 artigos científicos e filosóficos.

Seus trabalhos têm aparecido nas principais revistas internacionais de filosofia, filosofia da ciência, física teórica, química, neurociência, ciência cognitiva, matemática, psicologia e sociologia. Até alguns anos atrás, Bunge desempenhava a função de professor de Lógica e Metafísica na McGill University. Atualmente, ele tem trabalhado em casa, mesmo com quase 100 anos de idade, escrevendo artigos para revistas internacionais e livros, entre os quais um de filosofia científica e outro de pseudociência, sem data para lançamento.

Em sua última grande entrevista ao Servicio de Información y Noticias Científicas, Bunge diz: “Tenho muitos problemas para resolver, não tenho tempo de morrer.”

O que é Filosofia Científica?

O termo causa confusão desde a publicação de The Rise of Scientific Philosophy, publicado em 1951, do neopositivista Hans Reichenbach. Então, por vezes, é necessário apontar que a filosofia científica não é a mesma coisa que a filosofia da ciência, e nem que trate a filosofia como ciência. Também não é um programa de redução ao positivismo lógico (Carnap et al.), que admite a redução da ciência a uma forma de empirismo ingênuo; ao naturalismo vulgar (Michael Shermer e Steven Pinker), que postula que as ciências sociais devem usar o método científico das ciências naturais, ignorando suas particularidades para o estudo de cada objeto de investigação; ou mesmo a metafísica naturalista (James Ladyman), que considera que a ciência deve seguir o modelo das ciências físicas sem dar conta de propriedades emergentes, como propriedades biológicas, psicológicas ou sociais.

Ruína grega

Bunge argumenta que a filosofia científica é a filosofia que concorda com a maior parte do conhecimento científico, usa ferramentas exatas, como a lógica e a matemática, para proporcionar clareza e facilidade de sistematização, e proporciona à atividade científica uma base para discutir questões mais gerais sobre a realidade. De acordo com o astrofísico e filósofo científico Gustavo Esteban Romero, “muitas teorias da filosofia científica podem ser contrastadas e avaliadas usando evidência científica”.

A Filosofia Científica de Mario Bunge

De 1974 a 1989, Bunge trabalhou na produção de um Tratado de Filosofia Básica, em que apresenta uma filosofia totalmente compatível com a ciência, sendo abertamente racionalista, materialista e cientificista. O Tratado está dividido em 8 volumes, e cada volume contempla um tema diferente: I e II tratam de semântica filosófica, III e IV de ontologia, V, VI e VII de epistemologia e metodologia, e VIII trata de ética.

Em seu Tratado, Bunge buscou analisar conceitos e posições filosóficas contrastando com o fundo de conhecimento da ciência. Em todos os volumes, ele realiza um esforço intelectual para desenvolver suas ideias com clareza, objetividade e exatidão. Então, para o leitor pouco informado com lógica-matemática e, sobretudo, matemática, a leitura da obra acaba sendo pouco produtiva. Eis os princípios de sua filosofia científica, transcritos de sua obra Ser, Saber, Hacer, para o leitor comum:

1. Materialismo: Tudo o que realmente existe, dentro ou fora do sujeito, é material ou concreto. As propriedades não existem em si, mas são possuídas por objetos concretos e conceituais. Não há ideias autônomas: todas as ideias são processos cerebrais. Por exemplo, o número três não existe na natureza e nem na sociedade; só existe como é pensado por alguém.

2. Sistemismo: Tudo o que existe - seja concreto, conceitual ou semiótico - é como um sistema ou pacote de coisas, é como um componente de algum sistema.

3. Emergentismo: Os sistemas têm propriedades de que seus componentes carecem.

4. Dinamicismo: Tudo o que existe realmente muda. Apenas os objetos conceituais (por exemplo, matemáticos) são imutáveis, mas por convenção.

5. Realismo: O mundo exterior existe independentemente do observador e é cognoscível, pelo menos parcialmente e gradualmente.

6. Cientificismo:A melhor maneira de investigar como as coisas são, sejam naturais, sociais, artificiais ou conceituais, é a adoção do método científico. E a melhor maneira de avaliar os princípios filosóficos expostos consiste em verificar sua compatibilidade com a ciência e a tecnologia atual, seu valor heurístico na investigação científica ou técnica e seu valor na concepção de políticas que tendem a melhorar a qualidade de vida.

7. Racioempirismo: Combinação de componentes válidos do racionalismo e empirismo. Essa filosofia tem como objetivo ser clara, coerente e hipotético-dedutiva, ao mesmo tempo em que coloca suas hipóteses à prova dos fatos.

8. Exatidão: Buscar exatificar ideias intuitivas interessantes, ou seja, transformá-las em ideias que possuem uma precisão lógica ou matemática.

9. Agatonismo: Não há direitos sem deveres, nem deveres sem direitos. O mais alto princípio moral deveria ser "Aproveitar a vida e ajudar a viver". É uma combinação do egoísmo com altruísmo, do utilitarismo com deontologismo, e do cognitivismo com o emotivismo.

10. Holotecnodemocracia: Democracia integral (biológica, econômica, política e cultural) guiada pela moral agatonista e sócio-técnica.  O indicador biológico envolve a aplicação da ciência para a manutenção dos sistemas naturais, bem como um olhar atento à saúde da população; o econômico envolve a estabilidade econômica e o retorno à sociedade em termos de empregabilidade, etc.; o político envolve a manutenção da sociedade em termos estruturais e governamentais para preservar a saúde do sistema político-democrático; o cultural envolve o investimento, a valorização e o cultivo à promoção de conhecimento, bem como de sua aplicação e acesso para o bem comum. De acordo com Bunge, a estabilidade dos indicadores é crucial para o desenvolvimento integral da sociedade.

Esses princípios aparecem ao longo da história da filosofia, por exemplo: o materialismo em D’Alembert, persuadido por Diderot no fim de sua vida, e D’Holbach; o sistemismo em Copérnico, D’Holbach e qualquer outro que pense em termos de “sistema”; o emergentismo em G. H. Lewes, S. Alexander e C. Lloyd Morgan; o dinamicismo em Leibniz, Spinoza e Newton; o realismo em Albert Einstein; o cientificismo em Condorcet, Lalande e Peirce; o racioempirismo, em uma versão fenomenalista e antirrealista, aparece em Kant e nos positivistas lógicos, etc. Bunge é original ao apresentá-los de modo conjunto.

 

O Critério de Demarcação de Mario Bunge

Mario Bunge tem sido um crítico contumaz tanto do verificacionismo dos positivistas lógicos como do falseacionismo dos racionalistas críticos, como resposta para o problema da demarcação. Basicamente, o problema da demarcação surge da necessidade de estipular uma fronteira entre ciência e não-ciência, o que também inclui pseudociência.

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A tentativa de Carnap et al. com o verificacionismo postula que uma proposição tem sentido se, e somente se, puder ser verificada em alguma circunstância, enquanto o falseacionismo de Karl Popper aponta que uma teoria pode ser científica se, e somente se, existir alguma circunstância que permita sua refutação. Essas propostas, como corretamente apontou Bunge em Between Two Worlds: Memoirs of a Philosopher-Scientist, são demasiadamente simplistas e não satisfazem o problema da demarcação.

O verificacionismo é autorrefutável, pois a própria proposição traz consigo uma afirmação que não pode ser verificada a princípio, enquanto o falseacionismo de Popper está na contramão da própria investigação científica. Pense, por exemplo, no caso da parapsicologia, assumida como pseudociência pela comunidade científica, por causa da falta de evidências que apoiem a existência de fenômenos paranormais.

No critério de falseabilidade de Popper, o problema mais visível é o de que uma hipótese parapsicológica poderia ser científica, bastando apenas que o pesquisador que a formulasse satisfizesse a condição de possibilidade de refutação. Tal como no caso da astrologia, trata-se de uma pseudociência com teses falseáveis, contradizendo o critério de demarcação em discussão. Em termos de política científica, um pesquisador poderia facilmente arrecadar fundos para seu projeto “científico” argumentando, em consonância com os critérios popperianos, para uma banca simpatizante do mesmo critério.

Bunge aponta que, mais importante do que a refutação, é a compatibilidade com a maior parte do conhecimento do momento. Se os parapsicólogos tivessem levado em conta a incompatibilidade das hipóteses parapsicológicas com a física moderna, a parapsicologia não iria perdurar por mais de um século, principalmente nos laboratórios da Duke University, porque o princípio de conservação de energia das leis da termodinâmica chocam-se com a telecinese e telepatia.

Se os astrólogos pensassem com clareza, aceitariam que a astronomia mudou a concepção que temos da posição dos entes astronômicos da realidade em contraste com os mapas celestes imutáveis da astrologia. Eles também levariam em conta o que a biologia, a neurociência e a psicologia têm mais a dizer sobre o comportamento humano do que uma hipótese mística proposta a mais de 4.000 anos Antes da Era Comum (AEC). E, reproduzindo a crítica de Bunge contra a psicanálise, se os psicanalistas fossem intelectualmente honestos e levassem em consideração o fundo de conhecimento da ciência, eles admitiriam que o dualismo psiconeural (id,ego e superego) está na contramão da neurociência cognitiva.

Outro alvo da crítica de Bunge dentro da filosofia da ciência é a tese das Revoluções Científicas, proposta pelo físico e historiador da ciência Thomas Kuhn, que diz que as revoluções científicas são tão radicais e totais que arrasam todo o conhecimento anterior. Em seu famoso artigo Paradigmas y Revoluciones en Ciencia y Técnica, Bunge oferece contraexemplos:

“As duas relatividades de Einstein, longe de demolir a física clássica, constituem sua cúspide: Einstein continuou e desenvolveu o trabalho começado por Faraday e Maxwell, assim como por Poisson e Riemann. Mais ainda, a notícia do falecimento da mecânica clássica e outras teorias clássicas é exagerada, como diria Mark Twain: ainda se trabalha e se moderniza com elas – como qualquer um pode ver ao consultar o Journal of Rational Mechanics and Analysis– afinal de contas, as teorias clássicas permitem resolver muitos problemas em boa aproximação. E, em todo caso, até mesmo as revoluções mais drásticas são sempre parciais: só alteram alguns componentes do sistema total de conhecimento do momento. Por exemplo, a relatividade especial não tocou na matemática e nem na eletrodinâmica clássica; e a biologia molecular não alterou a química.” (Tradução minha)

Em sua autobiografia, Between Two Worlds: Memoirs of a Philosopher-Scientist, Bunge faz uma crítica à conclusão tirada, pelo filósofo irracionalista Paul Feyerabend, a partir da tese kuhniana: 

 “Nenhum historiador sério da ciência tem aceitado a tese de Kuhn e, menos ainda, a conclusão que extraiu Paul Feyerabend, renegado do popperismo: que o radicalmente novo é 'incomensurável' (incomparável) com o velho. Uma análise dos conceitos clássico e relativista de massa - o único exemplo que apresentaram Kuhn e Feyerabend - basta para falsear essa hipótese: de fato, ambos os conceitos se referem a entes dotados de massa, e essa referência comum torna possível a comparação dos valores teóricos com os experimentais, como mostrei em meu trabalho sobre a referência.” (Tradução minha)

Em In Defense of Realism and Scientism, artigo em que Bunge dedica a responder as críticas do filósofo e escritor norueguês Herman Tønnessen ao realismo e ao cientificismo, ele critica a problemática tese do anarquismo epistemológico de Feyerabend:

“Como consequência, não posso aceitar a aprovação implícita de Tønnessen à anti-metodologia de Feyerabend, o 'anarquismo epistemológico' – a versão mais recente do ceticismo radical. O «princípio» desta doutrina é que vale tudo. Isto não é realmente um princípio, mas uma licença para acreditar em, e fazer, qualquer coisa. Portanto, ela em nada ajuda na conduta da investigação e não é a resposta correta às metodologias estreitas e autoritárias (ou dogmáticas) como o positivismo clássico (e seu companheiro psicológico, o behaviorismo radical). É simplesmente uma marca de vazio intelectual e irresponsabilidade. É verdade que devemos ser céticos e estarmos prontos a mudar algumas de nossas crenças mais adoradas, caso queiramos nos chamar de cientistas ou filósofos. Mas a dúvida é um meio, não um fim. O objetivo da investigação científica (e humanista) é compreender o mundo com a ajuda de teorias que sobreviveram a uma série de testes, dentre eles os de observação ou experimentação.” (Tradução minha)

É verdade que as principais propostas para satisfazer o problema da demarcação e descrever o progresso científico têm sido bastante simplistas. Com base nesse contexto de insatisfação, Bunge propõe o seu critério de demarcação.

Em Demarcating Science from Pseudoscience, Bunge define um campo cognitivo com 8 características C = {G, F, D, B, P, K, O, M}:

 G: visão de mundo, ou fundamentação teórica de C;

F: base formal, ferramentas matemáticas ou lógicas empregáveis em C;

D: domínio ou universo de discurso de C: os objetos de que C trata;

B: base específica, conjunto de pressupostos de C, emprestados de outros campos cognitivos;

P: problemática, ou conjunto de problemas que C pode tratar;

K: fundo específico de conhecimento acumulado por C;

O: objetivos ou metas de C;

M: métodos utilizados por C.

 Para um campo cognitivo ser ciência, há 10 condições:

 1. cada uma das oito componentes acima de C é mutável, embora lentamente, ao longo do tempo, como resultado do próprio avanço da pesquisa;

2. a visão de mundo G contém

2.1. uma ontologia dos objetos;

2.2. uma epistemologia realista;

2.3. um espírito de livre pesquisa;

3. a base formal F é uma coleção atualizada de teorias matemáticas e lógicas;

4. o domínio D é composto exclusivamente de entidades reais;

5. o fundo específico de conhecimento B é uma coleção atualizada de dados, hipóteses e teorias bem confirmados, obtidos de outros campos cognitivos relevantes a C;

6. a problemática P consiste exclusivamente de problemas cognitivos relativos à natureza do domínio D;

7. o fundo de conhecimento K é uma coleção de teorias, hipóteses e dados atualizados e testáveis, compatíveis com aqueles em B e obtidos em C previamente;

8. os objetivos O incluem descobrir ou utilizar as leis em D, sistematizar hipóteses sobre D em teorias e refinar os métodos em M;

9. os métodos em M consistem exclusivamente de procedimentos de confiabilidade verificável;

10. C é uma componente de um campo cognitivo mais amplo.

 Qualquer campo de conhecimento que falhar em satisfazer todos as dez condições acima será designada uma pseudociência.

 De outra forma, uma pseudociência é um campo cognitivo PS = {G, F, D, B, P, K, O, M} tal que ao menos uma das seguintes condições é satisfeita:

1. as oito componentes acima de C mudam muito pouco ao longo do tempo e, se mudam, o fazem de forma limitada, como resultado de pressões externas, não de pesquisa científica;

2. a visão de mundo G inclui

2.1. uma ontologia dos objetos contendo entidades ou processos imateriais, tais como espíritos;

2.2. uma epistemologia que dá lugar a argumentos de autoridade ou modos de cognição acessíveis apenas para os 'iniciados';

2.3. um espírito de defesa do dogma, incluindo violência, se necessário;

3. a base formal F de PS é modesta; a lógica não é respeitada e a modelagem matemática é a exceção, em vez da regra;

4. o domínio D de PS contém entidades irreais ou não verificáveis, tais como influências astrais, energia vital, espíritos, superegos, destino, criação divina, memória coletiva, etc.

5. o fundo específico de conhecimento B de PS é muito pequeno ou nulo; uma pseudociência aprende pouco de outros campos de conhecimento e, por sua vez, contribui pouco para os outros campos;

6. a problemática P de PS inclui muito mais problemas práticos relativos à vida humana (incluindo 'como sentir-se melhor') do que problemas cognitivos (pseudociências, talvez, fossem melhor descritas como pseudotecnologias);

7. o fundo de conhecimento K de PS é praticamente estagnado e contém muitas hipóteses não testáveis ou falsas, em conflito com hipóteses científicas bem confirmadas, e não contém leis;

8. os objetivos O de PS são mais práticos do que cognitivos; em geral, não incluem a busca de leis previsões de fatos a partir de leis;

9. os métodos em M de PS não são nem verificáveis por procedimentos científicos nem são justificáveis por teorias bem confirmadas; em geral, crítica não é bem-vinda nas pseudociências;

10. não há outro campo cognitivo, exceto, talvez, outra pseudociência que partilhe com PS e esteja, assim, em posição de enriquecer ou controlar PS; isto é, cada pseudociência PS é praticamente isolada.

A Crítica de Mario Bunge às Pseudociências

Medicina Alternativa

 De acordo com Bunge, as medicinas alternativas lidam com produtos de natureza desconhecida, aplicados a pessoas que não foram alvo de estudos e com efeitos de tipo e intensidade desconhecidos. Ele também considera que as terapias são eficazes, em alguma medida, devido a dois fatores: o retorno espontâneo à saúde (vis medicatrix naturae) e o conjunto de efeitos placebo. Em síntese, Bunge considera que as terapias alternativas são infundadas e ineficazes.

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Microeconomia Neoclássica

 Bunge considera que, quando formulada em termos matemáticos e rigorosos, a teoria da abordagem neoclássica tem uma «brilhante aparência científica». No entanto, ela não estuda sistemas econômicos reais; ignora a história e todas as restrições macrossociais; não se preocupa com o meio ambiente ou as gerações futuras; não explica a formação dos preços ou de dinheiro; não explica a inflação ou a estagflação; não prevê com precisão expansões e contrações econômicas; e ignora forças como sindicatos, monopólios, empresas multinacionais, o Estado onipresente e a classe dominante.

Parapsicologia

A parapsicologia é uma pseudociência que nasceu sendo tratada como ciência, especialmente pela emergência do espiritualismo e a influência que isso provocou em cientistas. É verdade que muitos parapsicólogos foram enganados por charlatões que diziam ter poderes paranormais. Isso ficou evidente quando céticos ilusionistas, como Harry Houdini e James Randi, começaram a demonstrar como eram feitos os truques.

 A parapsicologia jamais produziu qualquer resultado positivo em favor dos fenômenos paranormais, como telepatia, precognição, clarividência e telecinese. Bunge tem argumentado que os parapsicólogos nunca buscaram leis e nem explicações físicas do paranormal; que os fenômenos paranormais são incompatíveis com alguns dos princípios básicos da ciência ou com alguns dos princípios filosóficos gerais que fundamentam a investigação científica; que, diferente de toda disciplina científica, a parapsicologia não é um componente do sistema das ciências; e que, no caso específico das supostas ondas psi, não há equações que elas satisfaçam ou não se podem desenvolver dispositivos com o objetivo de detectá-las.

Psicanálise

Mario Bunge tem argumentado que a psicanálise não produziu nada novo, tem se mantido à margem da psicologia científica e da neurociência cognitiva. Bunge também critica os próprios psicanalistas, porque recitam fábulas do século passado em vez de fazerem estudos experimentais. Em 110 anos de existência da psicanálise, os psicanalistas não montaram um único laboratório psicanalítico. De fato, estão mais preocupados em salvar os mitos psicanalíticos do que estudar o comportamento humano à luz da ciência, razão pela qual não existem publicações psicanalíticas nas principais revistas internacionais de ciência, como a Science e a Nature.

Embora os psicanalistas não estejam interessados em submeter as conjecturas psicanalíticas à prova, isso não significa que elas nunca foram testadas. Na verdade, muitas hipóteses psicanalíticas já foram testadas por psicólogos experimentais, psicólogos sociais e neurocientistas. Também é verdade que algumas hipóteses são difíceis de testar porque apresentam uma linguagem obscura e, portanto, carecem de sentido claro o suficiente para permitir a extração de consequências empíricas.

 Segue uma lista de conjecturas psicanalíticas que, de acordo com Bunge, foram empiricamente refutadas: descobriu-se que a agressividade é mais aprendida do que inata; que não há correlação entre o tipo de personalidade e o treinamento precoce do toalete; que a maioria dos sonhos não tem conteúdo sexual; que o complexo de Édipo é um mito: meninos não odeiam seus pais porque gostariam de ter relações sexuais com a mãe; que o orgasmo vaginal inexiste; que o prazer sexual acontece no cérebro, e não na genitália; e que a raiz dos conflitos não é o relacionamento pai-filho.

Em um artigo para a New Scientist, Bunge chegou a mencionar uma meta-análise de 2010, comumente citadas por defensores da psicanálise, que avalia estudos sobre a eficácia da terapia psicodinâmica. No artigo, ele destaca um fator importante para colocar em descrédito a meta-análise: a ausência de grupo de controle, nenhuma aplicação de testes duplo-cego. De fato, os estudos psicanalíticos que mostram algum suposto efeito positivo da terapia psicanalítica carecem de rigor metodológico.

Filosofia e Pseudofilosofia

Em seu Dicionário de Filosofia, traduzido para a língua portuguesa pela editora Perspectiva, Mario Bunge define a filosofia da seguinte forma:

“a. A disciplina que estuda os conceitos mais gerais (tais como os de ser, vir-a-ser, mente, conhecimento e norma) e as hipóteses mais gerais (tais como as de existência autônoma e a cognoscibilidade do mundo externo). Ramos básicos: lógica (compartilhada com a matemática), semântica (parcialmente compartilhada com a linguística e a matemática), ontologia e epistemologia. Ramos aplicados: metodologia, praxiologia, éticae todas as filosofias de. Ant., gnosofobia. b. A filosofia exata é a filosofia construída com a ajuda de ferramentas formais tais como a lógica, a teoria dos conjuntos e a álgebra abstrata. As vantagens da filosofia exata são a clareza e a facilidade de sistematização e de dedução. Em troca, estas características minimizam os riscos da interpretação textual tendenciosa e de debates intermináveis. Entretanto, a exatidão é despropositada sem a substância. Não vale a pena utilizar-se de uma pesada artilharia formal para lidar com miniproblemas. c. Filosofia científica é a filosofia que, além de ser exata, concorda com o grosso da ciência e da filosofia correntes.”

Em sua obra Evaluating Philosophies, Bunge afirma que uma boa filosofia é aquela que propicia algum avanço e inspira novos problemas, que podem ser encontrados a partir da absorção dos resultados da investigação científica e tecnológica. Em contrapartida, uma filosofia ruim (ou pseudofilosofia) é aquela que permanece estagnada, parada no tempo, e que desconsidera novos problemas e soluções provindas da investigação científica. Para o público comum, falar em pseudofilosofia pode parecer implicar alguma proposta em que a metodologia da filosofia deveria ser experimental, nos moldes positivistas ou falseacionistas, mas isso é um equívoco. Na verdade, Bunge não foi o primeiro a falar em pseudofilosofia. Em The Oxford Companion to Philosophy, o filósofo científico Nicholas Rescher busca definir a pseudofilosofia da seguinte forma:

“A pseudofilosofia consiste em elucubrações que se apresentam como filosóficas, mas que são ineptas, incompetentes, que carecem de seriedade intelectual e que refletem um compromisso insuficiente com a procura da verdade. Em particular, abrange discussões que usam os instrumentos racionais da reflexão filosófica com outros fins que não a investigação séria - como o favorecimento de interesses relacionados com o poder, a influência ideológica, a pompa literária ou algo desse gênero.”

Bunge, ainda em Evaluating Philosophies, explica como doutrinas filosóficas podem facilitar a busca da verdade ou mesmo obstruí-la, por exemplo: o realismo é propício à exploração da realidade, enquanto que o construtivismo-relativismo é hostil a ela. Para ele, uma filosofia também pode ser ambivalente: iluminista em alguns aspectos e obscurantista em outros.

 Bunge alerta que a estagnação do conhecimento filosófico pode transformar uma filosofia aparentemente progressista em conservadora, ao ponto de negar a novidade proporcionada pelo avanço da ciência e tecnologia, como aconteceu com o aristotelismo, o cartesianismo e o leibnizianismo. A sugestão oferecida para avaliar uma filosofia é a de avaliar seus frutos, por exemplo: em vez de tratar a fenomenologia e a filosofia da linguagem conforme o chamado princípio de caridade, seria melhor averiguar se ajudam ou obstaculizam o avanço do conhecimento.

Um dos alvos prediletos de Bunge, o existencialismo é apontado por ele como um exemplo de pseudofilosofia, uma "doutrina sombria", que não serve para pensar ou fazer outra coisa senão deprimir ou destruir. Ele também considera certos escritos de Heidegger como sendo «disparates», e critica suas opiniões que foram utilizadas pelo nazismo: sua concepção de homem como um ser angustiado e, portanto, paralisado diante do nada, e a sua afirmação de que a razão e a ciência são desprezíveis e que a única coisa que importa é a «existência nua». Bunge afirma que «a metafísica de Heidegger é uma mescla de afirmações carentes de sentido [...], jargões e falsidades» e que ele não propôs uma filosofia propriamente dita.

Para Bunge, a pseudofilosofia pode gerar pseudociência, porque sua matriz filosófica pode inspirar o pensamento mágico. Por exemplo: na matriz filosófica da ciência, encontra-se o cientificismo (o enfoque científico para tratar problemas do tipo cognoscível), o humanismo (a honestidade e a preocupação com outrem, sem almejar qualquer ganho pessoal), o materialismo (a concepção de que todos entes reais são materiais), o realismo (a realidade existe independente do sujeito) e o sistemismo (a concepção de que o todo é um sistema ou subsistema), enquanto que a matriz filosófica da pseudociência é claramente o contrário do da ciência.

Na pseudociência, o cientificismo é substituído pelo irracionalismo (descomprometimento com a lógica, a razão e a ciência, e comprometimento com filosofias irracionalistas, como o existencialismo, a fenomenologia, etc.); o humanismo pelo comercialismo (a preocupação com os lucros, com aquilo que é rentável); o materialismo pelo espiritualismo (a concepção de que existem coisas espirituais ou um mundo espiritual ou, ainda, de que tudo é espiritual); o realismo pelo subjetivismo (a noção de que todo sujeito percebe o mundo de sua forma e que a realidade é dependente do sujeito); o sistemismo pelo anti-sistemismo (a noção de que é tragável a compreensão de sistemas naturais, sociais ou artificiais em termos de individualidade).

Vida

Mario Bunge iniciou sua carreira como físico, doutorando-se em Ciências Físico-Matemáticas pela Universidade de La Plata, sob a orientação do físico Guido Beck - que tinha sido assistente de Werner Heisenberg e atuado como pesquisador visitante de Niels Bohr -, apresentando uma tese sobre a cinemática relativística do elétron. Seus estudos filosóficos começaram desde cedo, em parte, por conta de seu desconforto em aceitar a Interpretação de Copenhague da Mecânica Quântica, que envolve escolhas e estados subjetivos do pesquisador.

Em La Plata, na Argentina, Bunge estudou filosofia por conta própria em consonância com seus estudos científicos. Isso não o impediu de se tornar o primeiro filósofo da ciência da América do Sul com formação em ciência. Bunge lista em sua biografia alguns livros que foram importantes para despertar seu amor à filosofia, entre os quais incluem Os Problemas da Filosofia, de Bertrand Russell, Anti-Dühringe Dialética da Natureza, de Friedrich Engels, Materialismo e Empiriocriticismo, de Vladimir Lenin, Ética, de Baruch Spinoza, e Vocabulaire, de André Lalande. Ele sofreu também forte influência dos principais filósofos da ala radical do Iluminismo francês, como Thiry d'Holbach, Denis Diderot e Claude Helvétius, e afirma que perdeu alguns anos tentando decifrar os «absurdos» de Hegel, que ele afirma ser inimigo da clareza, do cientificismo (isto é, o princípio filosófico de que o «enfoque científico» é o melhor meio para tratar problemas cognoscíveis) e do materialismo.

Aos 19 anos, Bunge fundou a Universidade Obrera Argentina para educar a classe trabalhadora. Mas, apesar do sucesso, em 1943, o coronel Juan Domingo Perón, que mais tarde viria a ser presidente da Argentina e então ocupava o posto de secretário do Trabalho e Segurança Social, solicitou uma ordem para que a universidade fosse fechada. Juan Perón, que era simpatizante de Adolf Hitler e Benedito Mussolini, perseguiu críticos e opositores do governo. Durante o primeiro mandato de Perón na Presidência do país, Bunge foi preso, acusado de instigar uma greve ferroviária e, consequentemente, desafiar decreto de 1949, que proibia greves na Argentina, mesmo sem quaisquer provas para incriminá-lo.

Outra ruína grega

 

Em 1944, com a popularização do irracionalismo moderno, inclusive na esfera política, Bunge cria a revista Minerva para combater o irracionalismo. A revista circulou por toda América Latina e reuniu o trabalho de diversos cientistas e filósofos por quase dois anos. De acordo com Bunge, ele pagava 100 dólares por artigo aos editores da revista.

Em 1951, Bunge escreve o seu primeiro artigo em inglês, intitulado What is Chance?, em que propõe uma interpretação objetiva do cálculo de probabilidades, que explica a aleatoriedade observada em um certo nível de organização do mundo físico em termos epistêmicos, isto é, como fruto de processos determinísticos desconhecidos em um nível inferior de organização. O artigo atraiu a atenção de David Bohm, que o convidou para visitar o Instituto de Física da Universidade de São Paulo. Além disso, Bohm utilizou o artigo de Bunge como base para seu artigo Causality and Chance in Modern Physics.

Em 1956, Bunge é nomeado professor de física teórica na Universidade de Buenos Aires e Universidade de La Plata. Em 1957, ele ganha a cadeira de filosofia da ciência na Universidade de Buenos Aires e, um ano mais tarde, renuncia à cadeira de física para se dedicar exclusivamente à filosofia. Apesar disso, em 1960, na Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos da América, ele volta a ensinar física. Em 1982, Bunge foi agraciado com o Prêmio Príncipe de Astúrias de Comunicação e Humanidades. Em 1986, recebe o Prêmio Konex de Humanidades na disciplina Lógica y Teoría de la Ciencia. Em 2009, foi a vez de receber o Guggenheim Fellowship. Em 2014, ele foi agraciado com o prêmio Ludwig von Bertalanffy em Complexity Thinking. Em 2016, ele recebeu o seu segundo Prêmio Konex, mas, dessa vez, no campo de Lógica y Filosofía de la Ciencia. Atualmente, Bunge possui 24 doutorados Honoris Causa. É membro da prestigiada American Association for the Advancement of Science (AAAS), desde 1984, e da Royal Society of Canada, desde 1992.

Uma Bibliografia Científico-Filosófica

Mario Bunge é autor de diversos artigos e livros de ciência e filosofia, como La Edad del Universo (1955), Causalidad: El Principio de Causalidad en la Ciencia Moderna (1959), La ciencia, su Método y su Filosofía (1959), Ética y Ciencia (1960), Intuición y Ciencia (1962), El Mito de la Simplicidad (1963), La Investigación Científica, su Estrategia y su Filosofía (1967), Foundations of Physics (1967), Teoria e Realidade (1972),Filosofia da Física (1973), Semántica (1974), Tecnología y Filosofía (1976), Epistemologia: Um Curso de Atualização (1980), El Problema Mente-Cerebro (1980), Ciência e Desenvolvimento (1980), Materialismo y Ciencia (1981), Economía y Filosofía (1982), Lingüística y Filosofía (1982), Controversias en Física (1983), Intuición y Razón (1986), Filosofía de la Psicología (1987), Mente y Sociedad. Ensayos Irritantes (1989), Tratado de Filosofía Básica (1974-1989), Finding Philosophy in Social Science (1996), Foundations of Biophilosophy (1997), Social Science Under Debate: A Philosophical Perspective (1998), The Sociology-Philosophy Connection (1999), Crisis and Reconstruction in Philosophy (2000), Dicionário de Filosofia (2002), Emergence and Convergence ( 2004), Chasing Reality: The Strife Over Realism (2006), Political Philosophy: Fact, Fiction and Vision (2009), Matter and Mind (2010), Evaluating Philosophies (2012), Filosofía de la Tecnologia (2012), Filosofía Para Médicos (2012), Between Two Worlds: Memoirs of a Philosopher-Scientist (2016), Doing Science: In The Light Of Philosophy (2017) e The Scientific Stance: Using Evidence Based Arguments Across Fields (2018).

 

Conclusão

Mario Bunge é um defensor do espírito Iluminista, da renovação promovido pelos motores intelectuais da sociedade moderna: ciência e tecnologia. Embora suas críticas às pseudociências despertem o fervor religioso nos mais crédulos, Bunge mostra sua disposição para o debate intelectual. Ele também mostra estar aberto à revisão de seus posicionamentos filosóficos à luz da ciência, como mencionado no artigo Mario Bunge on Gravitational Waves and the Reality of Spacetime, em que o astrofísico e filósofo científico Gustavo Romero relata as últimas reflexões de Bunge sobre a confirmação da descoberta das ondas gravitacionais.

Bunge é o símbolo da renovação filosófica, representada em sua consigna de que devemos “filosofar cientificamente e encarar a ciência filosoficamente”. Por fim, transcrevo a resposta que Bunge me deu à entrevista que realizei com ele no Universo Racionalista, em que perguntei quais dicas ele daria para o estudante que deseja iniciar a sua carreira em filosofia:

“Recomendo-lhe que dê prioridade aos problemas, não aos autores; que, para tratar de problemas filosóficos, se informe sobre o que podem contribuir a matemática e as ciências da realidade; e que escreva ensaios e os discuta com companheiros de estudo e com amigos. O pensador solitário perde a capacidade de comunicar-se e acaba louco como Husserl, o inventor da fenomenologia ou egologia.”

 

Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira é fundador do Universo Racionalista, estudante de pós-graduação em Ethical Hacking e CyberSecurity do Centro de Inovação VincIT pela Faculdade Eficaz (2019) e de graduação em Tecnologia em Redes de Computadores (2018) pela Universidade de Franca. É membro do Instituto Ética, Racionalidade e Futuro da Humanidade e da Rede Brasileira de Astrobiologia. Tem experiência na área de Filosofia, disciplina que cursou por três anos, com ênfase em Filosofia Científica. Atualmente, escreve sobre Astrobiologia, Divulgação Científica e Filosofia Científica

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