A distorcão do conceito de universidade

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15 jun 2026
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ciência distorcida

No fim de maio, na cerimônia de sanção da Lei que cria a Universidade Federal Indígena, a Unind, o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, afirmou que “não existe hierarquia entre os ditos saberes científicos e os saberes tradicionais, oriundos do chão da aldeia, dos povos de terreiro e das periferias da cidade”. A frase funciona como palavra de ordem, mas não se sustenta quando o assunto é estabelecer fatos sobre a natureza. Tradições, narrativas e práticas comunitárias podem ter valor cultural, simbólico, histórico e até prático. Mas esse valor não as coloca no mesmo plano da ciência como método de validação de afirmações factuais – diante de uma enfermidade grave, a diferença entre um hospital, exames laboratoriais, antibióticos e um ritual de pajelança torna vazio o ramerrão do “pós-modernismo epistêmico”.

A Lei que cria a Universidade Federal Indígena não diz qual  a necessidade acadêmica de uma nova categoria de universidade. A maior parte dos objetivos expressos – ensino superior, pesquisa, extensão, produção e divulgação de conhecimentos sobre povos indígenas – poderia ser abrigada normalmente nas universidades federais já existentes, com programas, faculdades e centros de pesquisa adequados.

O que a lei faz, portanto, não é resolver uma lacuna acadêmica, mas inventar uma universidade definida por identidade étnica. Isso fica evidente em dispositivos como o que reserva obrigatoriamente os cargos de reitor e vice-reitor a docentes indígenas, excluindo qualquer outro professor, por mais qualificado que seja. A excelência acadêmica é ignorada em troca da criação de mais uma barreira identitária, agora no topo da administração pública.

Um episódio recente, em outra esfera do Estado, mostra o risco de transformar categorias identitárias em critério para decisões públicas. No julgamento dos acusados pela morte de Henry Borel, a concessão de perdão judicial à mãe do menino provocou indignação não apenas pelo resultado, mas pela linguagem usada para justificá-lo. Entre os argumentos apresentados, a juíza afirmou que a ré havia sido alvo de um massacre público misógino e vítima de uma cultura patriarcal que exige da mulher a figura da mãe perfeita.

O problema não está em reconhecer que estereótipos de gênero e misoginia existem na sociedade, mas em convertê-los em fundamento para afastar a punição em um caso concreto de enorme gravidade. Quando slogans genéricos de militância passam a substituir critérios razoáveis, próprios de cada contexto, as decisões deixam de solucionar problemas e passam a servir quase que exclusivamente como instrumentos de pedagogia ideológica e sinalização de virtude.

Em julho de 2021, sete professores da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, publicaram na revista New Zealand Listener uma carta intitulada “Em defesa da ciência”. O texto criticava uma proposta ligada à reforma do NCEA, o National Certificate of Educational Achievement, principal certificado do ensino secundário neozelandês, que defendia dar à mātauranga Māori – o conhecimento tradicional Māori – paridade com outros corpos de conhecimento reconhecidos pelo sistema.

A carta defende que a ciência é universal, com contribuições de várias partes do mundo, e não uma construção, apenas, da Europa Ocidental. Reconhece a importância do conhecimento indígena, mas termina por dizer que este conhecimento fica muito distante do que é ciência. Após a divulgação da carta, houve uma intensa campanha de cancelamento dos “Sete da Listener”, como passaram a ser conhecidos os autores.

O aumento da frequência de campanhas de cancelamento e censura ao dissenso é motivadoprincipalmente por pessoas treinadas a ver os outros e a si mesmas como membros de grupos distintos, definidos por raça, gênero e outras características sociais, e a interpretar esses grupos como blocos de identidade coletiva permanentemente envolvidos em disputas de soma zero. Nesse ambiente, entra-se em um modo tribal em que as pessoas ficam cegas a quaisquer argumentos que desafiem a narrativa do grupo.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o reitor da USP, Aluísio Segurado, afirmou, diante das reivindicações estudantis durante a mais recente greve, que a pauta do movimento havia extrapolado a competência da universidade. O diagnóstico é correto, mas incompleto. Quando parte da comunidade acadêmica passa a tratar a justiça social como atividade-fim das universidades – ao lado do ensino, da pesquisa e da extensão –, a própria universidade já ultrapassou sua missão. A criação da Unind e as exigências dos grevistas são apenas sintomas desse mesmo deslocamento: a substituição gradual da missão intelectual da universidade por uma lógica de mobilização identitária, em que critérios acadêmicos cedem espaço a demandas políticas.

Marcelo Yamashita é professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro do Conselho Editorial da Revista Questão de Ciência

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