Quando os criacionistas falam em "informação"

Artigo
11 mai 2026
Imagem
DNA em versão quadrinhos

 

Um dos argumentos favoritos do movimento do Design Inteligente (DI) – especialmente de figuras como Stephen Meyer, ligado ao Discovery Institute – parte da ideia  de que informação sempre vem, no fim das contas, de uma mente inteligente. A ideia parece intuitiva, fácil de entender, com uma implicação lógica aparentemente inevitável: sempre que encontramos informação, dizem eles, há um autor consciente responsável por ela. Agora, você já deve saber como completar o argumento no estilo DI. Se o DNA contém informação biológica, então essa informação foi, necessariamente, criada por uma inteligência.

O problema é que essa ideia está errada. Ela pode ser questionada do ponto de vista lógico, já que a sua premissa principal (informação requer inteligência) é questionável ou conceitualmente vaga. Afinal, como já discutimos aqui, é muito relevante saber exatamente o que um criacionista tem em mente quando usa a palavra “informação”. Além disso, o argumento não se sustenta por uma razão mais forte e importante: os resultados experimentais.

Ao contrário dos criacionistas, que preferem estalar a língua e confundir glossolalia com evidência, cientistas têm buscado enfrentar a questão empiricamente. Há alguns anos, pesquisadores começaram a testar diretamente o que acontece se pegarmos sequências aleatórias de moléculas biológicas e testarmos seus efeitos. Será que o acaso consegue gerar algo funcional?

O canal Creation Myths resolveu discutir essa questão e me inspirou a refletir novamente sobre o assunto.

 

Resultados experimentais

Em 2017, um estudo de Neme e colaboradores (publicado na Nature Ecology and Evolution) pôs sequências genéticas aleatórias dentro de bactérias E. coli. O resultado foi surpreendente para quem acredita que a funcionalidade depende necessariamente de planejamento prévio. Até 25% dessas sequências aumentaram a taxa de crescimento das bactérias. Algumas davam origem a moléculas de RNA funcionais; outra precisava ser traduzida em uma pequena proteína para produzir benefício biológico. A lição que fica? Sequências aleatórias produziram novas funções biológicas úteis.

Isso já seria suficiente para complicar bastante o slogan “informação só vem de inteligência”. Mas não para por aí.

Em 2018, outro estudo, conduzido por Yona e colaboradores (publicado na Nature Communications), substituiu promotores gênicos (regiões do DNA que regulam a ativação de genes) por sequências aleatórias. Muitas dessas sequências passaram a funcionar como promotores. E, após mutações adicionais, algumas tornaram-se ainda mais eficientes do que os promotores originais. Mais uma vez, novas funções regulatórias surgiram sem qualquer inteligência envolvida no processo, no sentido de que não havia nada guiando a “escrita” de sequências específicas.

Mais recentemente, em 2026, um novo trabalho (publicado na Science), mostrou algo talvez ainda mais impressionante. Gianni e colaboradores produziram bibliotecas de pequenas moléculas de RNA geradas aleatoriamente e procuraram, ali, moléculas capazes de agir como ribozimas, isto é, sequências de RNA com atividade enzimática; as enzimas, você deve lembrar, são responsáveis por dar maior eficiência e velocidade a processos bioquímicos. Encontraram uma molécula minúscula, com apenas 45 nucleotídeos, capaz de participar de processos de autorreplicação. A lição, mais uma vez, é que temos atividade funcional emergindo de sequências não planejadas.

Mudando de assunto...

A esta altura do campeonato, os criacionistas deveriam ceder e a resposta lógica diante dos fatos seria simples: a alegação original estava errada. Informação biológica funcional pode, sim, surgir sem uma inteligência guiando cada detalhe. Mas isso é ocorrência rara  no debate público. Como já discutimos aqui, criacionismo não é só uma questão de evidência; aliás, quase nunca é questão de evidência. Quando confrontado com o mundo real, normalmente o argumento muda de forma.

O típico contorno ou malabarismo de um defensor do DI é contra-argumentar da seguinte forma: “Mas os cientistas desenharam os experimentos”, ou “Isso jamais aconteceria na natureza”. Você pode até achar que é uma boa réplica, até mesmo uma réplica forte (não creio), mas não deixe escapar um detalhe importante: o argumento já não é mais o mesmo.

Essa é, afinal, uma tática criacionista muito comum. Em lógica argumentativa, é conhecida como moving the goalposts (“mover as traves do gol”). Isso ocorre quando alguém faz uma afirmação, ela é refutada ou contrariada pelas evidências, e então os critérios mudam discretamente para evitar a conclusão desconfortável. Quando experimentos demonstram o contrário do que os criacionistas esperam, o debate deixa de ser sobre a origem da informação e passa a ser sobre outras coisas. As traves foram movidas.

Perceba que a afirmação inicial era absoluta, sumarizada no quase mantra “informação sempre vem de inteligência”. Os experimentos mostram que novas sequências funcionais de informação genética podem surgir sem que alguém as determine previamente. Nenhum pesquisador definiu de antemão quais os RNAs funcionais que seriam encontrados. Nenhum cientista escolheu antecipadamente quais mutações produziriam promotores eficientes. As sequências úteis emergiram no contexto do processo experimental. Sim, um processo criado artificialmente, mas o relevante é que nada garantia que as sequências emergentes teriam funcionalidade. Eram, nesse sentido, aleatórias.

Quando o argumento muda para “isso não aconteceria na natureza”, abandona-se a tese original e entra-se em outra discussão completamente diferente: quais condições naturais permitiriam o surgimento e a evolução dessas moléculas? Isso já não é mais um debate sobre a origem da informação, mas sobre plausibilidade química, evolução molecular e abiogênese. Isso permite ao criacionista criar a sensação, em seus seguidores, de que não há resposta satisfatória. Afinal, não sabemos de tudo, e do que sabemos não sabemos todos os detalhes. Ao levar a discussão para tópicos mais nebulosos ou sem solução, o criacionista passa a falsa impressão de que não há resposta para a questão original, que era bastante específica: informação pode surgir sem a intervenção de um agente inteligente?

A descrição dessa estratégia traz uma lição importante sobre pseudociência em geral. Afinal, elas funcionam de forma parecida, como já discutimos aqui e aqui. Muitas alegações antievolucionistas ou outras pseudociências sobrevivem não porque resistem às evidências, mas porque mudam constantemente o alvo. Quando uma afirmação é refutada experimentalmente, recua para outra posição, em geral mais vaga e mais difícil de testar. O slogan permanece o mesmo; o conteúdo muda. Alguns, aliás, fingem que nunca disseram o que diziam. Como conseguem viver com isso é um mistério.

 

O problema da demarcação

Esse exemplo carrega, ainda, uma lição importante sobre o chamado problema da demarcação, isto é, como distinguir ciência de pseudociência ou do que não é ciência; nem tudo que não é científico é pseudocientífico. Muita gente conhece apenas superficialmente o debate e acredita que o critério proposto por Karl Popper resolve sozinho toda a questão. A ideia de Popper era relativamente simples e bastante poderosa: uma hipótese científica precisa correr o risco de estar errada. Em outras palavras, ela deve ser falseável. Deve existir a possibilidade conceitual de algum experimento, observação ou evidência vir a demonstrar que a hipótese é falsa. Se uma ideia é construída de tal forma que nenhum evento concebível jamais será capaz de provar que está errada, então não pertence ao campo da ciência.

Esse critério é importante porque separa teorias científicas de sistemas de crença que sempre encontram uma maneira de escapar da refutação. A teoria da gravidade pode estar errada; a evolução biológica pode estar errada; a relatividade pode estar errada. Todas fazem previsões concretas que podem, em princípio, falhar. Já afirmações vagas como “um agente sobrenatural invisível faz as coisas acontecerem de formas misteriosas” não permitem nenhum teste real.

Porém, ser falseável não basta. Ou seja, a falseabilidade é um critério necessário para definir o que é ciência, mas não é suficiente; ser falseável não garante que seja ciência. E o criacionismo mostra exatamente por quê.

A alegação “informação requer um agente inteligente para sua produção” é perfeitamente testável. Podemos investigar se processos naturais geram informação funcional. Podemos fazer experimentos. Podemos observar mutações, seleção natural e evolução molecular. E foi exatamente isso que aconteceu. A hipótese foi colocada à prova e os resultados a contradisseram.

Só que, em vez de abandonar ou revisar profundamente a ideia original, muitos defensores do DI simplesmente deslocam o argumento. A discussão muda de foco, surgem exceções improvisadas, novas exigências aparecem e os mesmos slogans continuam sendo repetidos. O problema deixa de ser apenas “a hipótese é testável?” e passa a ser “o que seus defensores fazem quando ela falha?”.

Foi justamente esse tipo de situação que levou Imre Lakatos a propor uma visão diferente sobre o problema da demarcação. Para Lakatos, teorias científicas não funcionam isoladamente, mas como programas de pesquisa inteiros, compostos por hipóteses centrais e ideias auxiliares. Alguns desses programas são progressivos, fazem previsões novas, geram descobertas inesperadas e se ajustam ao mundo produzindo conhecimento adicional. Outros são degenerativos, vivem apenas de remendos improvisados para proteger suas crenças centrais contra evidências contrárias.

Num programa degenerativo, as modificações não servem para explicar novos fenômenos, mas apenas para evitar admitir erro e reafirmar o seu núcleo. As hipóteses auxiliares funcionam quase como desculpas de emergência. Em vez de avançar, o programa gira em círculos. Existe descrição melhor do criacionismo e de outras pseudociências?

É isso que vemos com frequência no criacionismo moderno. Muitos de seus argumentos até podem ser formulados de maneira falseável. O problema é que, quando falham, não são abandonados. São reciclados, reformulados superficialmente e apresentados a novas audiências como se nada tivesse acontecido. E não produzem descobertas científicas relevantes, não abrem novas linhas de pesquisa frutíferas e não ampliam o entendimento da natureza. Sobrevivem principalmente pela retórica, não pela capacidade explicativa.

João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade

Sua Questão

Envie suas dúvidas, sugestões, críticas, elogios e também perguntas para o "Questionador Questionado" no formulário abaixo:

Ao informar meus dados, eu concordo com a Política de Privacidade.
Digite o texto conforme a imagem

Atendimento à imprensa

Harmonic AG 

11 99256-7749  |  andre@harmonicag.com.br