
Há uma queixa que escuto com regularidade, em variações que vão de um lamento filosófico ao sarcasmo de comentário de rede social: a de que a ciência "tira a magia das coisas". Essa objeção é bastante antiga. Richard Dawkins chegou a dedicar um livro inteiro a respondê-la. O poeta John Keats já a formulava no século 19, acusando Newton de ter destruído a poesia do arco-íris ao reduzi-lo a prismas e ângulos de refração. E, ainda assim, a queixa persiste, como se as pessoas que a fazem tivessem encontrado um problema que a ciência se recusa a reconhecer.
O que ela ignora, contudo, é que o “desencantamento” que a ciência promove é exatamente o que torna possível um deslumbramento de outra ordem, mais intenso e honesto. Para complicar o cenário, atualmente há um segundo desencantamento em jogo: aquele que o negacionismo e o conspiracionismo provocam, quando fazem alguém perder o deslumbramento pelas conquistas científicas, substituindo a admiração genuína por uma suspeita automática e genérica.
O primeiro desencanto
Max Weber usou o termo alemão Entzauberung, "retirada do encanto" ou "desmagificação", para descrever o processo pelo qual a modernidade substituiu explicações místicas e religiosas por racionalidade e ciência. O mundo tornava-se, progressivamente, um lugar que podia ser compreendido, calculado, previsto. Os deuses foram perdendo o domínio dos raios, das doenças e das colheitas. E, dessa forma, a “magia” foi cedendo espaço ao mecanicismo natural.
Weber via nesse processo algo ao mesmo tempo inevitável e melancólico. Inevitável porque é o que o método científico faz por definição: substitui explicações sobrenaturais por naturais. Melancólico porque, para muitos, o encanto perdia-se junto com as explicações sobrenaturais. Um mundo explicável de maneira mais racional parece, superficialmente, um mundo menos pleno de significado.
Mas a melancolia de Weber diante do Entzauberung pressupunha que a magia pré-científica era encantadora. Que havia algo de grandioso na ideia de que trovões eram expressão da cólera divina, de que doenças eram punições espirituais ou de que a Terra era o centro de um Universo criado especialmente para nós. Mas esse pressuposto não é necessariamente verdadeiro.
O que a ciência fez foi expandir o Universo de maneiras que nenhuma mitologia ousou imaginar. Ok, o Sol não pode não ser mais um deus conduzido em uma carruagem de fogo. Mas passou a ser uma estrela com 4,6 bilhões de anos, que funde por segundo 600 milhões de toneladas de hidrogênio em hélio, irradiando para o espaço uma energia que precisou de milhares de anos para percorrer o caminho do núcleo até a superfície antes de viajar oito minutos até os seus olhos. É impossível não reconhecer esta beleza.
O primeiro desencantamento, portanto, não nos roubou nada de valor. Apenas retirou o véu de magia ilusória para revelar a magnitude daquilo que é real. Admito que seja um processo que exige bem mais do observador: paciência, humildade e disposição para aprender. Mas é um processo que nos recompensa com uma percepção do mundo que nenhuma narrativa mitológica, por mais poeticamente elaborada que seja, consegue oferecer.
O mais irônico é que a realidade pode ser infinitamente mais interessante do que as diversas narrativas concorrentes. Nada supera o roteiro de um primata bípede, surgido numa rocha que orbita uma estrela mediana, capaz de calcular trajetórias balísticas, escapar da própria gravidade, atravessar o vazio, chegar a outro mundo e retornar. Seria mitológico se não fosse o mero detalhe de ser verdadeiro.
O que torna a conquista da Lua extraordinária, por exemplo, não é que seja mágica no sentido místico do termo. É a parte que nos mostra que é real. Que envolveu cálculos verificáveis, física e engenharia que uma pessoa com a formação adequada pode examinar e replicar. O espanto genuíno, neste caso, não exige a suspensão do entendimento. Ao contrário, requer que o entendimento seja suficiente para perceber o que de fato foi feito. Carl Sagan disse, em meados da década de 1990, que vivíamos em uma época em que quase tudo ao nosso redor dependia da ciência, mas quase ninguém a compreendia. Esta é uma observação que envelheceu tristemente, já que, a cada ano, torna-se mais verdadeira.
O primeiro desencantamento, portanto, nos desafia a trocar a magia da ilusão pelo espanto da realidade. É uma troca favorável para quem estiver disposto a fazê-la. O problema é que muitos não estão.
O segundo desencanto
Uma das perdas mais silenciosas causadas pelo negacionismo é que ele nos rouba o deslumbramento com a realidade. Voltando ao exemplo das expedições lunares: como deve ser triste olhar para uma das maiores conquistas da nossa espécie e ver apenas uma "encenação malfeita". Como deve ser triste ignorar séculos de física, engenharia, matemática e imaginação humana e substituir essa sensação genuína de espanto por uma suspeita genérica automática.
Esse é o segundo desencantamento: não aquele que a ciência provoca nas ilusões do mundo, mas o que o negacionismo e o conspiracionismo provocam na relação entre as pessoas e a ciência. E este, ao contrário do primeiro, não revela grandeza nenhuma. Apenas substitui a surpresa verdadeira por paranoia barata. O conspiracionismo troca nossas conquistas por uma versão infantil do Universo, na qual há apenas vilões onipotentes e plateias ingênuas. Exceto, é claro, pelos portadores da verdade "que ninguém sabe", mas que a descobriram "secretamente" em um grupo de WhatsApp. É um Universo dramático, sem dúvida. Mas intelectualmente miserável.
O que torna ainda mais trágico este segundo desencantamento é o fato de que o conspiracionista não é alguém que perdeu o interesse pelo mundo. É alguém que nutre interesse, exige explicações e sente, como a maioria de nós, a necessidade de compreender o que acontece ao seu redor. De certo modo, tem motivações semelhantes às de um cientista. O que difere é o destino desse impulso: em vez de ser dirigido para a investigação sistemática, para a verificação e para a revisão de hipóteses à luz de evidências, é capturado por narrativas que recompensam a suspeita sem exigir o trabalho da compreensão e sem desafiar crenças prévias. O mesmo deslumbramento que poderia se transformar em admiração pelo conhecimento é redirecionado para teorias que oferecem o prazer da "descoberta" sem o custo do aprendizado.
Arrisco afirmar que o negacionismo dá um passo além daquilo que Sagan descreveu: substitui o pouco entendimento que temos pela negação deliberada. E, ao fazer isso, nos rouba a capacidade mais humana de todas. A de nos maravilharmos com o que podemos fazer.
O conspiracionista que "questiona" as viagens à Lua, as vacinas, a curvatura da Terra, as mudanças climáticas etc. frequentemente se apresenta como alguém que "pensa por conta própria", um “pensador independente” que "não acredita em qualquer coisa". Nesse sentido, o conspiracionista se considera um grande questionador. O que não percebe é que questionar tudo, sem distinção, é uma postura tão preguiçosa quanto acreditar em tudo. O ceticismo científico é, antes de tudo, assimétrico. Ele calibra o grau de exigência de evidências à plausibilidade da afirmação e à quantidade de estudos de qualidade já acumulados sobre o tema. O verdadeiro cético reconhece que suas próprias posições podem estar erradas e estão sujeitas a revisão.
A estrutura real do que o conspiracionista faz é o oposto: substitui um conjunto de afirmações verificáveis e falíveis por um conjunto de afirmações impermeáveis à evidência.
O paradoxo
Chegamos, então, ao nó da questão. O primeiro desencantamento tem o custo de abandonar as magias falsas, podendo gerar uma espécie de “luto” pelas narrativas que tinham a virtude de serem simples, aconchegantes e carregadas de significado humano imediato. Esse luto, quando não devidamente processado, parece criar as condições para o segundo desencantamento. Pessoas que perderam a “magia” com o misticismo, sem se encantarem com a ciência que a substituiu, tornam-se vulneráveis a narrativas que prometem devolver esse encanto: a "magia quântica", o universo de "energias e vibrações", as conspirações que reintroduzem vilões e heróis num mundo que a ciência tornara, para elas, frio demais.
O conspiracionismo, nesse sentido, pode ser visto como uma tentativa rudimentar de reencantar o mundo por meio da reconexão com estruturas narrativas simplórias, heróis e vilões, segredos e revelações, algo que a racionalidade científica havia dissolvido. Representa, em última análise, um retrocesso, não “uma forma alternativa de enxergar o mundo”.
A realidade científica é um espetáculo grandioso, mas cobra um preço que o conspiracionismo não está disposto a pagar. Talvez essa seja a maior tragédia, não é mesmo? Trocar um Universo vasto, estranho e belo por uma narrativa rasa, desconfiada e extraordinariamente entediante.
Implicações na comunicação
Há uma implicação prática nessa análise que a comunicação científica tem demorado a absorver. Se o segundo desencantamento ocorre, em parte, porque o primeiro não foi bem-sucedido, isto é, porque as pessoas perderam as magias falsas sem encontrar o encanto verdadeiro, então a solução não pode ser apenas mais informação.
Comunicar apenas os resultados da ciência, as descobertas, os produtos aprovados, os Prêmios Nobel, sem comunicar a complexidade e a beleza do processo, é uma das raízes do problema. Afinal, a ciência foi a protagonista do luto do pensamento mágico. O problema é quando, a partir disso, nos limitamos a anunciar resultados sem mostrar o trabalho que os sustenta. Aos olhos de quem está de luto, isso soa exatamente como magia. E aí surge o equívoco: se a ciência que "removeu a magia do mundo" me entrega de volta algo que ainda parece mágico, então ela não é diferente daquilo que destruiu. Parece apenas um ilusionista tentando sabotar o show de outro.
A distinção que a ciência tem a oferecer é que seus resultados não são mágicos e sim conquistados, verificáveis e construídos sobre fracassos acumulados. Não devemos apagar a única coisa que diferencia a ciência de tudo aquilo que ela veio substituir. Nesse sentido, a comunicação científica que apenas celebra resultados, sem explicar o que custou chegar a eles, está involuntariamente preparando o terreno para o negacionismo. Não porque o negacionismo seja uma resposta racional a essa decepção, mas porque a decepção aumenta a vulnerabilidade às narrativas mais simples.
Considerações finais
O que precisamos, portanto, é de um duplo movimento. De um lado, abandonar a ideia de que a ciência é mágica, que seus resultados surgem por inspiração, que o consenso científico é infalível e que o progresso é linear e inevitável. De outro, resistir à ideia de que a explicação científica diminui a beleza do mundo e que a racionalidade é incompatível com o deslumbramento.
O deslumbramento científico exige aprendizado, disposição para conviver com incertezas e aceitar que algumas perguntas ainda não têm resposta. Mas é também um deslumbramento mais robusto. A maior perda que o negacionismo nos impõe é o roubo de uma forma de olhar para o mundo que combina rigor e maravilha e que não precisa escolher entre entender e impressionar-se.
Precisamos desencantar a ciência para não nos desencantarmos com ela.
André Bacchi é professor adjunto de Farmacologia da Universidade Federal de Rondonópolis. É divulgador científico e autor dos livros "Desafios Toxicológicos: desvendando os casos de óbitos de celebridades" e "50 Casos Clínicos em Farmacologia" (Sanar), "Porque sim não é resposta!" (EdUFABC), "Tarot Cético: Cartomancia Racional" (Clube de Autores) e “Afinal, o que é Ciência?...e o que não é. (Editora Contexto)
