E o registro fóssil marca mais um ponto para a evolução

Artigo
15 abr 2026
Ilustração de como embrião fossilizado teria sido em vida, criação de Sophie Vrard/PLoS ONE

 

Sou afortunado o suficiente para sempre ter trabalhado com fósseis muito bem preservados. Minha primeira experiência na paleontologia foi a descrição de um material pertencente a um pterossauro que viveu onde hoje é o Nordeste do Brasil, durante o começo do período Cretáceo. Quando resolvi deixar São Paulo para embarcar numa aventura a terras gaúchas em busca de um mestrado, fui recebido com um fóssil, encontrado em São Gabriel (RS), muito bem preservado, de um dicinodonte do período Permiano; o crânio está quase completamente preservado e o restante do esqueleto não está em mau estado.

O que é isso, uma autopromoção? Não deixa de ser, mas o que quero dizer é que estou mal-acostumado. O registro fóssil - os criacionistas e evolucionistas igualmente não nos deixam esquecer - não é um livro completo, com todas as páginas preservadas. E mesmo os fósseis preservados geralmente não estão muito completos. Apesar disso, o registro é bom o suficiente para permitir inferências sobre muitos aspectos da vida no passado, desde os elos de parentesco até detalhes morfológicos e comportamentais, bem como grandes padrões macroevolutivos.

Alguns grupos têm, sim, um registro fóssil muito bom. O grupo com que trabalho, os dicinodontes, é um exemplo. Os dicinodontes são animais herbívoros, parentes distantes dos mamíferos, que viveram em todo o mundo entre os períodos Permiano e Triássico. Um termo mais geral para esses animais que são da linhagem dos mamíferos, mas não são mamíferos propriamente ditos, é sinápsidos não mamíferos; pelo bem da concisão, vamos usar o termo sinápsidos, mas tenha em mente que mamíferos também se encaixam aí.

No continente africano, especialmente na Bacia do Karoo, seus fósseis são extremamente abundantes. Alguns gêneros estão muito bem representados. Há centenas de fósseis de Diictodon (um estudo analisou por volta de 500!) e uma profusão de Lystrosaurus (milhares de espécimes!), famoso por ser uma das poucas linhagens que sobreviveram à maior extinção em massa de todos os tempos, na virada do Permiano para o Triássico.

Ainda assim, nunca foi encontrada evidência convincente para resolver uma questão importante: esses animais punham ovos ou não? Mamíferos são amniotas, ou seja, seus ancestrais mais distantes punham ovos. Hoje, entre os mamíferos, apenas os monotremados (ornitorrinco e equidna) põem ovos, o que reforça que deixar de botar ovos é uma “invenção” relativamente recente na história dos mamíferos. Seria esperado, portanto, que animais antigos da linhagem dos mamíferos colocassem ovos.

Mas onde eles estão?

Isso é estranho. Alguns sinápsidos, como os já mencionados Lystrosaurus e Diictodon, eram extremamente abundantes. Além disso, já foram encontrados filhotes recém-nascidos desses grupos, as rochas da região preservam ovos muito bem (como mostram os ovos de dinossauros), e esses fósseis vêm sendo estudados há quase 200 anos. Mesmo com tudo isso, nenhum ovo desses animais apareceu até hoje, o que é difícil de explicar.

Por outro lado, quando olhamos para os répteis modernos, vemos que eles podem mudar relativamente fácil entre diferentes formas de reprodução: botar ovos, manter os ovos dentro do corpo ou até dar à luz filhotes vivos. Devemos considerar a possibilidade de que isso tenha acontecido também com os sinápsidos que não são mamíferos.

Resolver se os sinápsidos punham ovos ou não é fundamental, porque isso afeta diretamente como entendemos a própria origem dos mamíferos e de características-chave como a lactação. Hoje, a explicação mais aceita sugere que o leite não evoluiu inicialmente para alimentação, mas como secreções da pele usadas para hidratar os ovos, fornecer nutrientes, protegê-los contra fungos e infecções bacterianas, ou ainda para sinalização hormonal através da membrana do ovo, algo que só faz sentido se os ancestrais dos mamíferos realmente botassem ovos. Se descobrirmos que os sinápsidos não eram ovíparos (ou seja, não punham ovos), toda essa hipótese precisaria ser revista.

A descoberta e análise de três filhotes bastante imaturos de Lystrosaurus na África do Sul pode lançar alguma luz sobre o enigma. O estudo, The first non-mammalian synapsid embryo from the Triassic of South Africa (“O primeiro embrião de sinápsido não mamífero do Triássico da África do Sul”, em tradução livre), foi publicado em 9 de abril na revista PLoS One. São tão pequenos que o maior crânio não passa de 5 cm. São os menores fósseis de Lystrosaurus encontrados até agora!

Um dos espécimes era tão imaturo (provavelmente um embrião, como veremos), que as presas típicas desses animais nem sequer estavam formadas e a sínfise mandibular (a união dos dois ramos da mandíbula) não estava completamente fechada. Essa questão da sínfise é de particular importância. Em outros animais que têm bico (sim, os dicinodontes tinha um tipo de bico!), como tartarugas e aves, a sínfise mandibular sempre fecha in ovo, ou seja, antes da eclosão. Um filhote de Lystrosaurus com a sínfise ainda não totalmente ossificada, mantendo partes cartilaginosas, dificilmente conseguiria se alimentar de forma independente e sobreviver, pois suas mandíbulas não teriam resistência suficiente para lidar com alimentos mais duros. E não temos qualquer sugestão de que a lactação já tivesse evoluído nos ancestrais mais distantes dos mamíferos.

Outro aspecto relevante é que esse espécime está preservado em uma posição encolhida, comum em embriões de diversos animais. Está preservado em um nódulo com dimensões de 7,3 cm de comprimento por 5,5 cm de largura, consistente com o tamanho de um ovo hipotético de Lystrosaurus; uma das novidades do estudo é justamente estimar qual seria a massa desses ovos. O conjunto de evidências sugere que se trata, mesmo, de um embrião in ovo. O fato de não ter uma casca preservada não contradiz necessariamente a conclusão dos autores, pois ela poderia ter sido quimicamente dissolvida, removida durante a preparação do fóssil, ou poderia ser um ovo de “casca-mole”, cuja preservação é mais rara. (A imagem que ilustra este artigo é uma recriação artística de como o embrião teria se acomodado dentro de um ovo, apresentada no artigo publicado em PLoS One).

Depois de centenas de fósseis de Lystrosaurus coletados, temos agora a melhor evidência de que pelo menos alguns sinápsidos ancestrais, de fato, punham ovos.

Os dicinodontes e outros sinápsidos não mamíferos foram por muito tempo chamados de “répteis mamaliformes”, devido a uma combinação de características, algumas presentes em répteis e outras em mamíferos. Sempre foram vistos como fósseis cuja anatomia permite reduzir a lacuna morfológica entre mamíferos e répteis. Longe de ser apenas uma curiosidade, essa nova descoberta toca no ponto central da continuidade morfológica entre os seres vivos e extintos. Como o Pirulla costuma dizer, se a evolução é verdade, é justamente esse tipo de coisa que deveríamos encontrar. E encontramos!

João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade

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