O lado sombrio da autoria científica

Artigo
9 abr 2026
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mão escrevendo em caderno

Imagine que você é um pesquisador em início de carreira. Recebe a oportunidade de trabalhar com, digamos, pterossauros, algo que antes nem poderia imaginar. Feliz, aceita conduzir a pesquisa. Rascunha o manuscrito, analisa os fósseis, fotografa, conduz análises e prepara o manuscrito para publicação. Você apresenta a versão final do artigo para seu responsável, orientador ou orientadora. Está tudo certo. Após algumas vírgulas adicionadas, o/a chefe adiciona alguns autores ao trabalho. “Estranho, eles não fizeram nada; aliás, meu amigo que me ajudou nas fotografias não pôde ser incluído”, você reflete.

Suponhamos, ainda, que mesmo durante todo o processo de submissão, revisão e publicação (quando o artigo recebe sugestões e críticas que precisam ser analisadas e respondidas), nenhum dos autores adicionados tenha aparecido para contribuir com nada. Você começa a se questionar até se essa pessoa sabe que está coassinando o artigo. Seja como for, o trabalho é finalmente publicado.

Como você caracterizaria essa situação?

Trouxe esse caso hipotético apenas para fazer você pensar a respeito das práticas de publicação e autoria a que cientistas estão sujeitos. Pode parecer um exagero, mas acredite: coisas assim acontecem.

Em 2017, a National Academies of Sciences dos EUA publicou o documento Fostering Integrity in Research (“Promovendo a Integridade na Pesquisa”). Entre as práticas de autoria classificadas como altamente questionáveis e violadoras da integridade do empreendimento científico destacam-se: autoria de presente / honorária, autoria fantasma e autoria coercitiva.

Vamos compreender o que significa cada uma dessas práticas infames.

A autoria de presente ou honorária é quando listamos alguém como autor de uma publicação sem que, no entanto, essa pessoa tenha contribuído efetivamente com o trabalho. Por exemplo, incluir um orientador simplesmente porque ele é orientador, ou adicionar o nome de determinada pessoa apenas pelo prestígio que ela traz ao trabalho, não em razão de suas contribuições reais. Para quem não é do meio, pode parecer impressionante, mas um nome forte no artigo pode fazer o editor mostrar-se mais simpático diante das falhas e limites da proposta de publicação.

Particularmente trágica é a autoria fantasma. Ocorre quando alguém que de fato contribuiu significativamente para o trabalho não é listado como autor. A não inclusão pode ocorrer por diversas razões, como desentendimento entre potenciais coautores ou porque alguém superior na hierarquia acadêmica decidiu (erroneamente) que aquela pessoa não contribuiu o suficiente. Isso deixa os autores públicos em uma sinuca de bico: quem vai responder pela parte do artigo elaborada majoritariamente pelo autor fantasma, caso haja comentários ou críticas?

A autoria coercitiva também é bem fácil de entender. É quando alguém é pressionado a incluir outra pessoa como autor, mesmo sem contribuição relevante. Isso aconteceu no nosso exemplo hipotético, mas ocorre no dia a dia da pesquisa científica, como quando um supervisor exige a inclusão dele ou de alguém, quando o máximo que fizeram foi colocar vírgulas e pontos, isso no melhor dos cenários. Não que editoração não seja importante, mas podemos considerar isso uma contribuição intelectual do nível de autoria?

Diante disso, o que tem sido feito? Uma perspectiva recente, publicada na PNAS, traz sugestões. Segundo o time de autores, práticas de publicação éticas e benéficas devem ser construídas com base em três princípios: transparência, crédito e responsabilização. Não são princípios que atuam independentemente, mas estão relacionados entre si.

A transparência é apresentada como fundamento. Sem saber claramente quem fez o quê, torna-se impossível distribuir crédito de forma justa ou atribuir responsabilidade de maneira adequada. Por isso, os autores de uma publicação científica devem, desde o início, decidir quem vai conduzir o quê, como e até quando. Depois, isso será tornado público.

O princípio do crédito – que inclui atribuições de autoria – é tratado como a “moeda” central da vida acadêmica. Afinal, ficamos conhecidos entre nossos pares pelos méritos ou deméritos de nossas publicações. A publicação na PNAS insiste que ele precisa ser reinterpretado à luz da complexidade da ciência atual. Tradicionalmente, o crédito é distribuído de forma muitas vezes imprecisa ou inflacionada, seja por inclusão indevida de autores, seja pela exclusão de contribuintes relevantes. A proposta dos autores é que o crédito seja atribuído com base em contribuições reais e significativas, reconhecendo a diversidade de papéis envolvidos na pesquisa, incluindo atividades como curadoria de dados, desenvolvimento de software e engajamento com comunidades.

Claro, crédito e responsabilização são como as duas faces de uma mesma moeda. Quando você aceita se tornar autor de um artigo, isso implica não só reconhecimento, mas responsabilidade pela integridade daquela produção intelectual. Em alguns casos isso pode envolver “prestação de contas”, seja no sentido mais estrito, ou no mais geral de ter que prestar esclarecimentos sobre determinadas escolhas metodológicas, ou interpretação dos resultados. Nem todos os autores precisam ser responsáveis por todos os aspectos de um estudo. Frequentemente, isso é irrealista; afinal, cada pesquisador tem uma bagagem intelectual, e os métodos que um sabe utilizar não são necessariamente do conhecimento de todo o grupo. Mas é necessário que cada autor seja responsável por sua contribuição específica e que o grupo, como um todo, contenha pessoas capazes de responder pela integridade do conjunto.

A responsabilização oferece um critério poderoso para identificar práticas problemáticas: autores que recebem crédito sem poder ser responsabilizados (como em autoria honorária ou coercitiva) não deveriam ser incluídos; inversamente, indivíduos que contribuíram de forma relevante e poderiam ser responsabilizados não devem ser omitidos, como ocorre na autoria fantasma.

Evidentemente que uma mudança de cultura não vai ocorrer da noite para o dia. A consolidação dessa mudança, os autores do estudo apontam, exige uma transformação institucional mais ampla. Universidades, periódicos, editoras, agências de fomento e sociedades científicas precisam alinhar suas políticas, oferecer treinamento, criar mecanismos de resolução de conflitos e reformar sistemas de avaliação.

Meus colegas cientistas sabem, contudo, que nós somos, talvez, os agentes mais importantes nessa mudança. Em vez de esperar uma ação de “cima para baixo”, nós mesmos podemos reconhecer as práticas problemáticas, identificá-las e combatê-las. Na atual situação, convenhamos, somos perpetradores e vítimas ao mesmo tempo. É apenas uma questão de grau. Devemos, portanto, correr em busca do ideal: práticas de autoria que reflitam as contribuições reais dos pesquisadores. Ciência, cientistas e a sociedade se beneficiarão.

João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade

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