
Homens hoje têm, em média, menos testosterona do que tinham algumas décadas atrás. Essa afirmação aparece com frequência na literatura médica, em relatórios de saúde pública e, ocasionalmente, em manchetes sobre os sintomas de uma referida crise da masculinidade. Existe muito ruído cultural por trás desse assunto, e a questão mais simples de todas acaba ficando de lado: o que as evidências apontam?
À primeira vista, a ideia parece improvável. Vivemos mais, comemos melhor, temos acesso a cuidados médicos sem precedentes. A medicina é hoje capaz de medir, modular e até substituir hormônios com uma precisão impensável no século passado. Ainda assim, indicadores biológicos parecem ir na contramão disso.
Se a mudança existe, não é trivial. Testosterona não é apenas um marcador de saúde reprodutiva; participa de processos que vão do metabolismo à densidade óssea, do humor à energia física. Uma alteração sistemática em seus níveis médios não seria apenas um detalhe clínico.
Mas antes de qualquer interpretação, permanece o obstáculo fundamental: distinguir entre uma mudança real no corpo humano e uma ilusão produzida pelos próprios instrumentos que usamos para medi-lo.
O dilema das pesquisas
O debate em torno da testosterona existe porque medir esse hormônio ao longo do tempo está longe de ser uma tarefa simples. Diferentemente de indicadores mais estáveis, como altura ou peso, os níveis hormonais são notoriamente sensíveis ao contexto: variam ao longo do dia, respondem ao estresse, ao sono, à alimentação. Para complicar ainda mais, também variam conforme o modo como são medidos.
Nas últimas décadas, os métodos laboratoriais para dosagem de testosterona mudaram significativamente. Técnicas mais antigas, menos precisas, foram gradualmente substituídas por métodos mais refinados, mas não de maneira uniforme. Comparar um valor medido nos anos 1980 com outro obtido hoje pode ser, em certos casos, comparar coisas apenas superficialmente semelhantes. Some-se a isso as mudanças sofridas pelas populações estudadas: tornamo-nos todos mais sedentários, com maior exposição ambiental a produtos químicos sintéticos e mais diversos, em termos demográficos.
Diante desse cenário, algum ceticismo torna-se necessário. A hipótese de que a testosterona esteja “caindo” poderia ser, em grande parte, um artefato estatístico: o produto de medições inconsistentes aplicadas a populações não equivalentes.
Esse impasse motivou uma pesquisa, publicada agora em 2026, por cientistas italianos.
A testosterona está caindo?
Os autores reuniram o máximo possível de evidências publicadas e as analisaram como um único conjunto de dados. Isso se chama meta-regressão, uma técnica que permite observar tendências ao longo do tempo a partir de dados agregados de múltiplos estudos.
Compilaram mais de mil artigos, totalizando mais de um milhão de homens considerados saudáveis, distribuídos ao longo de várias décadas. Para tornar os dados comparáveis, os autores padronizaram unidades de medida, classificaram os diferentes métodos laboratoriais e, sobretudo, controlaram estatisticamente variáveis conhecidas por influenciar a testosterona — como idade, índice de massa corporal e tamanho das amostras.
Todo método tem limitações, mas é difícil ignorar o que emerge desses dados. Foram encontradas associações consistentes entre o passar do tempo e a diminuição dos níveis médios de testosterona. Além da testosterona, os autores observam que o hormônio luteinizante (LH), responsável por estimular sua produção nos testículos, também apresenta tendência de queda ao longo do tempo. Esse detalhe muda o enquadramento do problema. Se a testosterona estivesse diminuindo enquanto o LH permanecesse estável ou aumentasse, poderíamos suspeitar de uma falha localizada nos testículos. Mas quando ambos caem juntos, a hipótese mais plausível desloca-se para outro nível: o da regulação central, no cérebro.
Testículos ou cérebro?
A atenção do estudo se voltou para o sistema que regula a produção hormonal: o eixo hipotálamo–hipófise–gonadal. Trata-se de um circuito delicado, no qual o cérebro dita o ritmo e a intensidade da produção de testosterona.
A queda paralela de testosterona e LH sugere que esse sistema pode estar operando em um novo “ponto de ajuste”, o que poderia ser visto como falha ou adaptação, dependendo do contexto. É como se o organismo estivesse, por razões ainda pouco claras, regulando seus níveis hormonais para baixo.
Não deixa de ser elegante esse deslocamento da atenção dos testículos para o organismo. Mas a sugestão de que o organismo estaria, digamos, “pedindo” menos produção de testosterona exige explicações que vão além dos fatores tradicionalmente considerados.
Adaptação?
A partir daí, o campo de explicações possíveis se amplia. Substâncias químicas com potencial de desregulação endócrina, por exemplo, são frequentemente apontadas como candidatas plausíveis, dada sua presença difusa no ambiente moderno. Trata-se de compostos — como certos plastificantes, pesticidas e resíduos industriais — capazes de interferir, em graus variados, no funcionamento do sistema hormonal humano, mimetizando ou bloqueando sinais bioquímicos. Não atuam como toxinas clássicas, que produzem efeitos imediatos e visíveis, mas de maneira mais sutil e cumulativa, alterando equilíbrios ao longo do tempo. Sua ubiquidade — em embalagens, na água, no ar — torna difícil não apenas medir seus efeitos com precisão, mas até mesmo escapar delas.
Mudanças no estilo de vida — sono irregular, estresse crônico, sedentarismo — também entram na equação. São elementos quase banais da vida contemporânea, tão disseminados que tendem a passar despercebidos como variáveis biológicas. A privação de sono, por exemplo, já foi associada a reduções mensuráveis na testosterona, especialmente quando se torna crônica. O estresse, por sua vez, atua por meio do cortisol, um hormônio que, em níveis elevados e persistentes, pode suprimir a produção de testosterona ao interferir diretamente no eixo hipotálamo–hipófise–gonadal. Já o sedentarismo não apenas altera o metabolismo energético, mas também reduz estímulos fisiológicos que historicamente estiveram associados à regulação hormonal.
O problema é que esses fatores não operam isoladamente. Tendem a se sobrepor — noites mal dormidas, dias prolongados de trabalho cognitivo, pouca exposição ao esforço físico — compondo um pano de fundo fisiológico que, embora comum, pode ser biologicamente atípico em relação ao passado recente. Ainda assim, como no caso dos disruptores endócrinos, sua influência é difícil de quantificar em escala populacional, e, até o momento, insuficiente para explicar, por si só, a consistência do declínio observado.
Cada um desses fatores, isolados ou em combinação, pode, em tese, explicar a queda na testosterona.
Uma possibilidade mais sofisticada (e difícil de testar) é a de que estamos diante de um tipo de adaptação populacional. Não no sentido clássico da evolução genética, que opera em escalas de tempo muito mais longas, mas como uma resposta fisiológica coletiva a condições ambientais e sociais amplamente compartilhadas. Há precedentes, ainda que indiretos, de sistemas biológicos que se ajustam a mudanças de contexto em poucas gerações — como alterações na idade da puberdade ou em padrões metabólicos diante de abundância alimentar.
Mudanças sociais concretas ajudam a dar contorno a essa hipótese: a substituição progressiva do trabalho físico por atividades sedentárias, a compressão do tempo de descanso em rotinas hiperconectadas, a migração de interações presenciais para ambientes digitais. São transformações recentes na história humana — quase instantâneas, em termos evolutivos —, mas suficientemente abrangentes para exercer pressão contínua sobre sistemas fisiológicos moldados em outros contextos.
Ainda assim, a hipótese permanece no terreno do plausível, não do demonstrável. Não temos uma teoria bem estabelecida como explicação, mas temos o dado robusto de que a testosterona está caindo. Pesquisas futuras deverão mostrar o motivo.
Felipe Novaes é psicólogo e professor da PUC-Rio. Divulga o melhor da psicologia científica no Garagem Psi. Atua no cruzamento entre ciência, filosofia e cultura, onde dados e mitos se estranham com frequência. Interessa-se por psicologia evolucionista, história das ideias e pela tensão entre razão e pertencimento em tempos de algoritmo
