
O debate começou a partir de uma crítica recorrente às práticas psicológicas fundamentadas em cosmovisões religiosas específicas. A Resolução CFP nº7/2023 veda ao psicólogo "utilizar o título de psicóloga ou psicólogo associado a vertentes religiosas" e "associar conceitos, métodos e técnicas da ciência psicológica a crenças religiosas".
Em um episódio específico, deparei-me com um psicólogo que pratica e promove esse tipo de abordagem e que fez o seguinte comentário:
"Vou contar para vocês um 'segredo' dos psicólogos: todos tem [sic] uma visão de homem subjacente à sua prática. Essa visão pode ser naturalista ou aberta ao transcendente sobrenatural, essa visão pode considerar o homem imagem de Deus ou fruto do acaso, essa visão pode considerar que o homem não tem sentido real de vida ou que existe sentido da vida, essa visão pode considerar que há perfeição (perfeição não é perfeccionismo) a ser buscada ou não... Não existe antropologia (visão de homem) neutra. Acorda".
Concordei com a premissa da ausência de neutralidade. E disse que não vejo bons profissionais de saúde defendendo uma visão neutra no sentido apontado. Mas reforcei que, não havendo neutralidade, reconhecer isso implicaria num segundo passo: nos esforçarmos para minimizar a influência desses valores pessoais na prática profissional (que é, aliás, a base do código de ética de cada profissão). E que deveríamos fazer isso não com a expectativa de tornar a prática em saúde “neutra”, mas como uma postura de humildade a respeito daquilo que validamos apenas por preferência ou capricho pessoal e que, portanto, não faz parte do cabedal de evidências que diz o que de fato pode beneficiar o paciente. A resposta que recebi é o tema deste texto:
"É que você simplesmente é metido a 'tudólogo' e vive mais dando pitaco na área alheia do que fala da própria área. Seu discurso é pessoal e você nem tem consciência disso".
O argumento está longe de ser sofisticado, mas é interessante e didático do ponto de vista retórico. Nele coexistem pelo menos três movimentos distintos, cada um com sua própria função e seus próprios problemas. Vale a pena analisar cada um deles, porque não aparecem apenas nessa conversa, mas praticamente em todo debate público sobre ciência nas redes.
Argumento racional?
Primeiramente, ser chamado de "metido a tudólogo" tem a função de encerrar a discussão mais rapidamente, atacando-se a identidade de quem questiona com mais afinco do que o questionamento.
O segundo movimento é um pouco mais sofisticado. Quando apresentei a ideia de que reconhecer a ausência de neutralidade na prática clínica implica em um compromisso ético em minimizar a influência de valores pessoais sobre o que é prescrito ao paciente, a resposta foi: "Tudo isso que você está dizendo é uma visão pessoal e existencial. A visão do que é benefício também".
Mas, se tudo parte de uma visão pessoal, incluindo o conceito de benefício, então ninguém tem base para criticar ninguém, e qualquer coisa, até danos graves ou morte, pode ser redefinida como “benefício”, já que tudo é gosto pessoal. Esse relativismo dissolve qualquer pretensão de critério externo. Por essa perspectiva, não existem erros em práticas de saúde, apenas "visões divergentes". Fim do debate.
Se a visão do que constitui “benefício ao paciente” é puramente pessoal e existencial, então também é “puramente pessoal” a visão de que qualquer intervenção em saúde, inclusive as psicoterápicas, são válidas em igual medida. Isso reduz a prática clínica à preferência pessoal de quem a exerce (e de quem busca o cuidado). Ninguém que trabalha seriamente com saúde (inclusive saúde mental) acredita de verdade nisso. A afirmação de que "a visão de benefício também é pessoal" é muito mais retórica do que prática.
Um profissional que de fato se importa com o paciente não adota uma intervenção pensando "isso é apenas minha visão pessoal de benefício, tão válida quanto qualquer outra". Ele faz o que faz porque acredita (às vezes, erroneamente) que aquela intervenção tem boa probabilidade de ajudar, num sentido claro e objetivo, o paciente. E essa probabilidade pode (e deve, sempre que possível) ser verificada. A estratégia empregada neste caso é intelectualmente desonesta, porque o mesmo interlocutor que alega que "a visão de benefício é pessoal" tem, ele mesmo, uma visão pessoal consolidada e nada relativista sobre o benefício da abordagem que escolheu.
O terceiro movimento é o mais familiar para quem trabalha com comunicação científica: o “apelo à jurisdição”. Há domínios de conhecimento, e cada um tem seus donos. Quem não “pertence ao domínio” não tem direito de opinião:
"Em farmácia não se estuda isso, ne [sic]? É que não precisa. Mas já que você quer se meter aqui, vou lhe passar um vídeo pra você ver antes de comentar novamente (é um exercício de humildade quando se vai se meter na área dos outros buscar aprender um pouco)".
Veja que interessante: alguém que não me conhece, não acompanhou minha trajetória acadêmica e não leu uma linha do que já publiquei decidiu que meu papel naquele momento era receber um vídeo de YouTube sobre antropologia como "exercício de humildade". Alguém que não é filósofo ou antropólogo, diga-se de passagem. A ironia seria suficiente para dispensar comentários, mas aqui vale o esforço analítico, já que o argumento sobre jurisdição do conhecimento é onipresente.
Esse tipo de argumento é invocado porque há, de fato, domínios técnicos específicos em que a falta de formação produz erros. O problema é quando essa versão é estendida além do razoável para proteger afirmações de qualquer escrutínio externo. E aqui o caso que estou relatando é instrutivo. A afirmação que fiz não foi sobre a validade científica de determinada abordagem da psicologia, o que exigiria familiaridade com a literatura específica da área. Foi sobre epistemologia e ética aplicada à prática clínica em saúde: se assumimos que valores pessoais influenciam essa prática, então o compromisso ético deve ser o de minimizar essa influência, distinguindo o que é preferência do que é evidência de benefício. Isso não é algo exclusivo da farmacologia ou da psicologia. É um raciocínio de ética profissional que permeia todas as profissões da área da saúde.
Não satisfeito, a resposta veio em forma de três perguntas retóricas: "1. Você se debruça sobre o estatuto epistemológico da psicologia? 2. Você entende de antropologia como visão de homem? 3. Você entende que a ética pressupõe valores e mesmo uma antropologia de base?"
Não me dei ao trabalho de respondê-las, uma vez que essas perguntas não foram feitas para iniciar um diálogo, mas para estabelecer que o interlocutor (no caso, eu) não cumpre os “pré-requisitos” para participar da discussão. A estrutura é a seguinte: qualquer resposta (sim ou não) confirma a premissa do questionador. Responder "não" a qualquer das três confirmaria a “incompetência” que ele quer demonstrar; responder "sim" convidaria a uma contrarresposta de que a compreensão que tenho é superficial (sem que nenhum critério de profundidade tenha sido estabelecido). Portanto, as perguntas não buscam honestamente uma resposta, mas sim uma confissão.
Se fossem perguntas de alguém genuinamente interessado, eu poderia responder, por exemplo: (1) Sim, tenho publicações na área de epistemologia aplicada à saúde, especificamente sobre as condições que distinguem ciência de pseudociência, sobre como valores ideológicos distorcem práticas e sobre por que o relativismo epistêmico, longe de ser uma postura emancipatória, abre espaço para o charlatanismo e opressão. (2) Reconheço que toda prática clínica implica pressupostos sobre o ser humano e é exatamente por isso que o compromisso ético é reduzir a influência desses pressupostos pessoais sobre o que se oferece ao paciente, em vez de amplificá-los ao ponto de integrar doutrinas religiosas específicas à prática profissional, o que parece ser a base da Resolução CFP nº7/2023. E (3) Sim, foi exatamente o que fiz ao concordar que não existe neutralidade e ao propor, por isso mesmo, o esforço de distinção entre o que cremos por convicção e o que se demonstra que traz benefício ao paciente.
A humildade
É interessante observar ainda os diversos usos da palavra "humildade" nesse tipo de conversa. Ela apareceu múltiplas vezes depois que a invoquei em minha primeira resposta. Por exemplo: "é um exercício de humildade quando se vai se meter na área dos outros buscar aprender um pouco", e depois: "Humildade é uma virtude moral, inclusive, que você citou, e recomendo que leia sobre ela para ver se se meter a 'tudólogo' é humildade de cientista".
Humildade é a disposição de reconhecer os limites do próprio conhecimento e atualizar crenças diante de evidências. Foi nesse sentido, inclusive, que a citei. Mas aqui ela ganha um novo significado, convocada para silenciar o interlocutor. "Seja humilde" significa, nesse contexto, "pare de questionar o que estou afirmando".
O paradoxo é que o interlocutor que prescreve humildade não demonstra a mesma humildade ao afirmar, com convicção, que determinada abordagem psicológica fundamentada em antropologia e religião representa uma base legítima para a prática clínica. Uma afirmação extraordinariamente ampla, filosófica e empiricamente complexa, apresentada sem ressalvas.
Humildade científica demanda justamente rigor com as afirmações que se faz. Um cientista que questiona a influência de preferências pessoais e religiosas na prática profissional e qual o real benefício ao paciente está apenas fazendo o seu trabalho. Não me parece humilde que um profissional reivindique jurisdição exclusiva sobre um campo de conhecimento e exija que os demais se calem por não pertencerem ao clube.
Polissemia do "tudólogo"
É verdade que a palavra "tudólogo" descreve, muitas vezes, o perfil do charlatão que se apresenta simultaneamente como especialista em nutrição, medicina funcional, espiritualidade quântica, finanças pessoais e autoconhecimento, sem qualquer formação verificável, mas com monetização ampla. É o influenciador de saúde que acumula seguidores não por competência, mas pela capacidade de apresentar certezas reconfortantes e que, quando questionado, invoca exatamente o tipo de argumento que discutimos aqui: "você não entende minha área". Esse perfil talvez mereça o rótulo.
Mas quando a palavra "tudólogo" migra da descrição de um fenômeno real para argumento retórico vazio, disparado contra qualquer interlocutor que ouse fazer perguntas fora do perímetro aprovado, o rótulo não descreve mais nada. Ou melhor, apenas sinaliza desconforto. Além disso, a palavra "tudólogo" parte da premissa de que o conhecimento legítimo é sempre (e exclusivamente) especializado, e que a intersecção entre domínios é suspeita.
O pensamento científico sobre práticas de saúde não só permite como exige capacidade de cruzar fronteiras disciplinares. Epidemiologia, filosofia da ciência, ética em saúde... e mesmo a psicologia e a farmacologia não existem em compartimentos isolados. Os maiores avanços em avaliação de evidências clínicas foram feitos por pessoas dispostas a levar ferramentas de uma área para outra.
Considerações finais
O "tudólogo" é um rótulo que protege campos de conhecimento da pressão mais útil que podem receber: a de quem olha com menos paixão e pergunta "mas por que vocês fazem assim? Isso funciona mesmo?". Perguntas para as quais a resposta não pode ser simplesmente "porque nós somos os da área e você não é".
Por fim, há um detalhe extra nessa troca de mensagens. Em determinado momento, depois de uma sequência de mensagens que incluiu o adjetivo "pitaqueiro", "parece achar que entende" e "você não sabe bem do que está falando", veio uma espécie de “pedido de desculpas”: "Realmente me desculpe pelo modo”. Não pelo conteúdo, note bem. Pelo modo com que se dirigiu a mim.
Mas este texto não é sobre grosseria. Grosseria nas redes sociais é algo banal demais para merecer uma crônica. A questão aqui é o aprendizado para quem comunica ciência sobre o padrão recorrente de substituir respostas ao argumento pela desqualificação de quem argumenta, pelo relativismo aplicado seletivamente ao adversário e pela autoridade disciplinar invocada para fechar portas.
Quando o rótulo "tudólogo" aparece em discussões legítimas, quase sempre é porque alguém percebeu que o argumento que encontrou é inconveniente demais para ser respondido. A pergunta que vale fazer não é se o interlocutor tem ou não jurisdição para questionar. É se o argumento é válido ou não. Essa segunda pergunta, curiosamente, não costuma ser respondida.
André Bacchi é professor adjunto de Farmacologia da Universidade Federal de Rondonópolis. É divulgador científico e autor dos livros "Desafios Toxicológicos: desvendando os casos de óbitos de celebridades" e "50 Casos Clínicos em Farmacologia" (Sanar), "Porque sim não é resposta!" (EdUFABC), "Tarot Cético: Cartomancia Racional" (Clube de Autores) e “Afinal, o que é Ciência?...e o que não é. (Editora Contexto)
