A ciência precisa de apoio, não de torcida

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19 mar 2026
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torcida "científica"

Antes de qualquer coisa, devo iniciar este texto dizendo que é legítimo que pesquisadores se entusiasmem e, algumas vezes, até se emocionem com seus trabalhos. O que me incomoda, muitas vezes, é a estrutura desse entusiasmo. É a forma como certas celebrações se organizam em torno de um resultado específico, como se o trabalho científico fosse uma competição com placar e time.

Há duas maneiras de direcionar o entusiasmo em relação à produção científica. Uma delas é na forma de apoio. A outra, torcida. Entender essa diferença pode ser a distinção mais importante entre quem efetivamente contribui para o avanço do conhecimento e quem, sem perceber, o sabota.

 

Duas palavras

No dicionário, "apoio" designa o ato de sustentar, de proporcionar suporte e de servir de base. Apoiar uma estrutura significa garantir que ela não caia. Isso inclui, necessariamente, identificar e corrigir os pontos frágeis. Um engenheiro precisa ser o primeiro a apontar os erros e vulnerabilidades de um projeto. Nesse sentido, esconder as falhas de concepção e execução de um projeto estrutural em nome do entusiasmo pela obra não é apoio, mas negligência.

"Torcida", por sua vez, carrega a ideia de parcialidade. Torcedores não avaliam racionalmente o jogo: estão ali desejando que um lado ganhe. Gritos, choros, bandeiras e, às vezes, violência — tudo isso se manifesta a serviço da vontade de que um resultado, escolhido de antemão, prevaleça.

Quando entramos no território científico, porém, estamos diante de um problema. Se alguém passa a se relacionar com ciência como se fosse uma torcida, vibrando com resultados favoráveis às suas crenças e ignorando ou atacando resultados contrários, identificando pesquisadores como "do seu time" ou do "time adversário", algo importante se perdeu. E o que se perde é justamente aquilo que torna a ciência útil.

 

O paradoxo

Existe algo contraintuitivo no que significa, de fato, apoiar a ciência. Em um sentido ingênuo, "apoiar a ciência" parece significar defender seus resultados, celebrar suas conquistas e replicar manchetes de estudos promissores. Em parte, isso é legítimo e necessário.  Mas o apoio genuíno à ciência começa, na verdade, pelo ceticismo. Não o ceticismo performático que questiona apenas o que incomoda, mas o ceticismo organizado que Robert Merton descreveu em 1942 como uma das normas estruturais da ciência: a exigência de que qualquer afirmação, independentemente de quem a faça e do quanto seja sedutora, esteja sujeita ao escrutínio sistemático da comunidade científica. Ao contrário do que possa parecer, o ceticismo organizado não é uma postura de desconfiança pessimista. É uma forma de respeito às afirmações científicas ao levá-las a sério o suficiente para testá-las. Isso significa, necessariamente, estar disposto a descobrir que talvez estejam erradas.

Existe aqui também uma armadilha linguística: "defender a ciência" e "defender um resultado científico específico" são coisas diferentes. Quem defende a ciência defende o método. Quem defende um resultado específico pode estar defendendo a ciência, mas pode igualmente estar defendendo uma identidade, uma crença prévia ou um grupo de pertencimento. O problema é que, olhando de fora, as duas posturas se parecem muito.

Isso tem uma consequência prática que deixa muita gente desconfortável: apoiar a ciência significa, muitas vezes, questionar ativamente achados que você gostaria que fossem verdadeiros. Significa olhar para o tamanho da amostra, para a presença ou ausência de randomização, para o controle de variáveis de confusão, para o financiamento do estudo etc., mesmo quando o resultado favorece aquilo em que você acredita. Na verdade, especialmente quando favorece aquilo em que você acredita, uma vez que é justamente nesses momentos que o viés de confirmação mais aparece.

 

O escrutínio

Há uma segunda dimensão do apoio genuíno que é ainda mais difícil de praticar: aceitar e valorizar o escrutínio sobre os próprios resultados. Na ciência, o escrutínio não deveria ser interpretado como ataque pessoal. Ao contrário, é o mecanismo pelo qual uma hipótese se transforma, progressivamente, em conhecimento. Um pesquisador que defende ferrenhamente seus dados, que trata a revisão por pares como uma arena de combate e interpreta cada questionamento metodológico como perseguição não está defendendo a ciência. Está defendendo a imagem que formou de si mesmo.

Isso é mais comum do que parece. A identidade profissional de um cientista pode estar tão entrelaçada a uma linha de pesquisa específica, na qual investiu décadas de trabalho, que questionar seus resultados equivale a questionar a própria pessoa. O viés do custo irrecuperável entra em ação: abandonar ou revisar uma hipótese representa admitir que anos de trabalho precisam ser reinterpretados. É doloroso, mas é também um preço que a ciência cobra.

O apoio ao escrutínio externo é, por isso, uma virtude científica tão fundamental quanto a competência metodológica, pois permite que erros sejam corrigidos antes que se transformem em uma prática de saúde, por exemplo. E, mais importante, é o que faz com que a ciência, ao contrário da pseudociência, tenha um mecanismo interno de correção.

 

Resultados negativos

Nenhuma discussão sobre apoio à ciência está completa sem enfrentar a questão dos "resultados negativos". Resultados negativos são preciosos. Eles mostram que determinado caminho não deve ser percorrido novamente da mesma forma, poupam recursos futuros, corrigem trajetórias e contribuem para o mapeamento honesto do que sabemos e do que ainda não sabemos sobre o mundo. Em um ecossistema científico saudável, um resultado negativo bem obtido deveria ser publicado com o mesmo interesse editorial que um resultado positivo, discutido com o mesmo entusiasmo nas redes sociais e citado com a mesma frequência nos artigos de revisão.

O que acontece na prática, infelizmente, é o oposto. O viés de publicação é uma tendência sistemática de revistas científicas, pesquisadores e meios de comunicação em privilegiar resultados positivos. Funciona como um filtro que distorce progressivamente a literatura científica. Quem toma decisões com base apenas nos estudos publicados está, sem saber, tomando decisões com base em uma amostra enviesada. O iceberg científico tem a maior parte de seus resultados submersa e uma fração desproporcional do que está submerso são os estudos que não encontraram aquilo que esperavam.

Periódicos de alto impacto tendem a rejeitar estudos sem achados "positivos". Além disso, o currículo acadêmico de um pesquisador é avaliado por publicações que produzem impacto, e resultados negativos raramente são citados. O incentivo estrutural alinha-se a narrativas coerentes e otimistas. O resultado disso é uma literatura científica que, em algumas áreas, pode superestimar efeitos e subestimar a frequência da ausência de efeito. A torcida tem responsabilidade direta nesse cenário. Quem só compartilha estudos com resultados positivos e quem ignora ou minimiza os resultados negativos alimenta o viés de publicação. A curadoria movida por esse tipo de entusiasmo é, em si, uma forma de distorção.

 

Torcida organizada

Torcidas organizadas, no esporte, existem em um espectro que vai da paixão coletiva até algo que, no extremo, descamba para a violência física. Quando a identidade de grupo está muito investida em um resultado, os mecanismos de proteção dessa identidade tornam-se cada vez mais agressivos.

Existe um equivalente científico para este fenômeno. Observe o que acontece quando um estudo questionando uma intervenção amplamente celebrada é publicado. Em minutos, surgem dois movimentos. O primeiro: torcedores do "time contrário" celebram o resultado com satisfação desproporcional, como se uma única publicação encerrasse o debate. O segundo: torcedores do "time favorável" mobilizam-se para desqualificar o estudo, o periódico, os autores e o financiamento, muitas vezes sem ter lido o artigo completo, ou sem a competência para avaliá-lo adequadamente.

Em ambos os casos, a identidade dos grupos está muito acima de qualquer preocupação metodológica. E aí, à exemplo das torcidas organizadas, surge um tipo de "violência epistêmica": ataques pessoais a pesquisadores, campanhas de descrédito, acusações de "venda para a indústria" etc. Além de intimidar pesquisadores individualmente, isso deteriora a cultura científica coletiva, criando um ambiente em que publicar resultados contraintuitivos acaba tendo um custo pessoal e profissional.

O problema se aprofunda quando esse comportamento de torcida é adotado por quem deveria ser árbitro. Pesquisadores que postam celebrações prematuras de resultados próprios, que usam suas redes para atacar adversários científicos ou que promovem seus achados como "definitivos" antes que processos de validação independente tenham ocorrido estão, conscientemente ou não, treinando o público a se relacionar com ciência como torcedor e não como apoiador.

O fenômeno agrava-se quando pessoas sem nenhum interesse técnico no tema se mobilizam para defendê-lo ou atacá-lo porque virou símbolo de pertencimento a um campo político ou ideológico. Nesses casos, os dados são irrelevantes: o que importa é qual lado vê o pesquisador como um dos “seus”. Quando a ciência vira amuleto tribal, qualquer resultado serve como prova e qualquer questionamento metodológico é lido como traição.

 

O que é defender a ciência?

Há uma dimensão do apoio genuíno à ciência que raramente aparece nas discussões públicas e que merece atenção: a luta pela consolidação das áreas de pesquisa. Apoiar uma área científica vai muito além de apenas aplaudir seus resultados mais recentes. É lutar pelas condições institucionais, financeiras e culturais que permitem que o trabalho científico de qualidade aconteça.

Isso inclui defender o financiamento à pesquisa básica, à formação de pesquisadores e à transparência e reprodutibilidade dos estudos. Inclui cobrar que os critérios de avaliação não sejam enviesados em favor de projetos com hipóteses "promissoras" em detrimento de projetos de verificação independente. E inclui defender que os pesquisadores tenham liberdade real para publicar resultados negativos sem consequências para suas carreiras.

E inclui, talvez mais do que qualquer outra coisa, defender a integridade metodológica, independentemente de para onde os resultados apontam. Um ensaio clínico bem conduzido que demonstra ausência de efeito é uma contribuição científica mais valiosa do que um estudo metodologicamente ruim que "confirma" aquilo que queríamos que fosse verdade. Quem apoia a ciência entende isso. Quem torce pela ciência, não.

 

Considerações finais

Há conforto considerável em apenas torcer. Você sabe de que lado está e o placar é sempre legível. O apoio não oferece isso: exige estar disposto a questionar o árbitro e, eventualmente, concluir que o seu time jogou mal, mesmo tendo aparentemente vencido.

O torcedor quer apenas que o seu time ganhe, enquanto o apoiador quer que o jogo seja honesto. São desejos diferentes, às vezes compatíveis, mas frequentemente em tensão. E quando estão em tensão, a ciência precisa de quem escolha o jogo honesto, mesmo que o placar não seja o que se esperava.

Apoio não é uma postura passiva. Exige questionar, avaliar, defender condições ideais de jogo e resistir à sedução do viés de confirmação. Exige ainda familiaridade suficiente com o método para reconhecer quando um estudo é bom e quando é apenas conveniente. Além de exigir disposição de dizer: "esse resultado que eu queria que fosse verdade não se sustenta" e tratar isso como notícia relevante, não como derrota pessoal.

Exige, enfim, entusiasmo pela ciência pelo que ela é e não pelo que você gostaria que ela fosse. A torcida faz barulho. É o apoio que faz ciência.

André Bacchi é professor adjunto de Farmacologia da Universidade Federal de Rondonópolis. É divulgador científico e autor dos livros "Desafios Toxicológicos: desvendando os casos de óbitos de celebridades" e "50 Casos Clínicos em Farmacologia" (Sanar), "Porque sim não é resposta!" (EdUFABC), "Tarot Cético: Cartomancia Racional" (Clube de Autores) e “Afinal, o que é Ciência?...e o que não é. (Editora Contexto)

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