Vale mesmo a pena tentar adaptar doutoramento ao "mercado"?

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20 jan 2026
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livro, microscópio, capacete

 

No final de 2024, a agência federal Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), a agência de fomento à pesquisa do estado de São Paulo, Fapesp, e as universidades USP, Unesp, Unicamp, Unifesp, UFABC e UFSCar firmaram um protocolo de intenções para fomentar a formação de recursos humanos de alto nível e a pesquisa científica. O objetivo expresso é ampliar a atração de candidatos ao doutorado por meio de trajetórias formativas diferenciadas – voltadas à Academia ou ao mercado – com ênfase no doutorado direto, reduzindo a idade média de titulação. O modelo prevê que Capes e Fapesp atuem conjuntamente na concessão e no financiamento de bolsas; o acordo entre as agências foi assinado em julho de 2025, e o Programa de Aperfeiçoamento da Pós-Graduação (PAPG) entra em vigor em 2026, em caráter piloto, nos programas com conceito 6 e 7, os mais altos, na avaliação periódica da pós-graduação nacional conduzida pela Capes.

A adesão dos cursos de excelência é estimulada pela oferta de bolsas adicionais, um atrativo evidente, já que a sobrevivência da pesquisa universitária depende diretamente do financiamento de mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos. Nesse contexto, o aumento do número de vagas constitui um incentivo concreto à adesão ao programa. O PAPG, no entanto, embute armadilhas que podem comprometer a formação de pesquisadores de excelência, objetivo central da pós-graduação, além de revelar certa dose de arrogância, ao supor que docentes sem experiência fora da Academia possam desenhar trilhas formativas voltadas ao mercado.

Embora existam casos de egressos da pós-graduação bem-sucedidos no mundo corporativo, é improvável que trabalhar em empresas seja o objetivo principal de quem ingressa no mestrado ou no doutorado logo após a graduação. A maioria acaba indo para o mercado por falta de vagas nas universidades de pesquisa. Acelerar a formação de doutores pode, assim, ampliar o contingente de profissionais represados, que não tiveram acesso às posições para as quais se qualificaram, reforçando a percepção de que investir anos de vida na pesquisa talvez não valha a pena.

A médio prazo, a redução do tempo de doutoramento pode também deslocar as exigências das empresas, que deixarão de ver a graduação como suficiente, ao terem à disposição uma mão de obra mais qualificada e provavelmente disposta a aceitar os mesmos salários. Esse aumento do patamar para entrada no mercado tende a empurrar a pós-graduação, principalmente de áreas de pesquisa básica, para o papel de formação profissional aplicada. Com a flexibilização dos currículos, a formação de quadros para pesquisa deixa de ser o eixo norteador do sistema, abrindo espaço para a descaracterização progressiva da função primordial da pós-graduação.

É importante ressaltar que o currículo de um doutor bem formado, capaz de conduzir pesquisa de alta qualidade e de identificar e resolver problemas complexos, já seria suficiente para a inserção inicial em empresas. Não haveria, portanto, necessidade de adaptar currículos acadêmicos em nome de uma suposta adequação ao setor produtivo.

A existência de instituições que se desviam das funções para as quais foram criadas não é apenas uma suposição. Já ocorre no ensino técnico, em especial nos institutos federais e em escolas técnicas de excelência, que passaram a funcionar, na prática, como vias privilegiadas de acesso ao ensino superior, e não como formação terminal para o mercado. O resultado é a diluição de sua função original, sem que isso decorra de um debate explícito ou de evidências robustas sobre impactos e necessidades. A pós-graduação não deveria repetir esse caminho, deslocando-se de sua missão central para atender a expectativas difusas de empregabilidade, sob pena de comprometer aquilo que lhe confere sentido.

Se modificar a estrutura da pós-graduação para aumentar a empregabilidade já parece uma aposta arriscada, algumas universidades avançam ainda mais ao exigir explicitamente que os programas adotem políticas afirmativas. Embora os acordos das agências financiadoras e das instituições não contenham cláusulas de cunho identitário, a Unesp inclui, em uma portaria, a necessidade de compromisso com a adoção de um sistema de reserva de vagas para “pretos, pardos e indígenas como público obrigatório, pessoas com deficiência, pessoas trans, entre outros públicos de ações afirmativas”.

Políticas públicas que interferem no ingresso baseado na ampla concorrência precisam ser discutidas com base em evidências, sem o habitual discurso militante, no âmbito de toda a universidade. A pós-graduação, como espaço de formação e pesquisa, deveria se orientar exclusivamente pela excelência – a introdução de outros critérios no processo seletivo implica relativizar o parâmetro de qualidade. Além disso, se as políticas afirmativas na graduação já enfrentam o principal gargalo das desigualdades educacionais, herdadas do ensino fundamental e médio, é razoável entender a graduação como etapa de equalização de condições. A concessão de diplomas idênticos, que atestam equivalência profissional, deveria ser justificativa suficiente para que políticas de inclusão não se estendessem aos níveis acadêmicos superiores.

Ao atribuir, possivelmente de forma equivocada, os problemas da pós-graduação – evasão elevada, vagas ociosas e perda de prestígio – a uma suposta inadequação à modernidade, discurso que é repetido com frequência, a Academia passa a investir cada vez mais em políticas e ações alheias à sua missão. Nesse movimento, afasta-se do modelo humboldtiano de universidade de pesquisa, que por mais de dois séculos se mostrou bem-sucedido e foi justamente o que lhe deu prestígio e legitimidade social.

Marcelo Yamashita é professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro do Conselho Editorial da Revista Questão de Ciência

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