Onde desnutrição, obesidade e crise climática se encontram

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30 out 2025
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guarda-sol na água

 

Hoje, no dia em que escrevo, 23 de outubro de 2025, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicou as tão aguardadas Reflexões sobre a Agenda 2030 — 10 Anos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, obra que apresenta a trajetória de construção de conhecimento e o histórico do trabalho de coordenação do instituto com outras instituições na produção de indicadores de monitoramento. O documento também traz reflexões sobre as dimensões de análise da Agenda, os desafios enfrentados e as lições aprendidas em alguns ODS selecionados.

A Agenda 2030 é um plano de ação elaborado pela ONU em 2015 com o intuito de erradicar a pobreza, criar um sistema alimentar sustentável, promover a paz, entre outros objetivos. Ao todo, a Agenda é composta por 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas associadas e interdependentes, como o ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável), o ODS 3 (Saúde e Bem-Estar para Todos, em Todas as Idades) e o ODS 13 (Ação Contra a Mudança Global do Clima).

Após uma década desde sua publicação e apesar de alguns avanços pontuais em determinados países e objetivos, o saldo geral é, no mínimo, desanimador.

Por exemplo, segundo matéria publicada pela Agência de Desenvolvimento Internacional das Nações Unidas (UNDP), intitulada A Decade Lost: No Peace, Justice or Inclusion Target on Track as 2030 Deadline Looms, nenhuma das 12 metas do ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes) está bem encaminhada. A última década foi marcada por um aumento expressivo nas mortes relacionadas a conflitos, no número de ataques contra jornalistas e defensores de direitos humanos e no crescimento da discriminação.

Em relação aos demais objetivos, o relatório “The Sustainable Development Goals Report 2025”, publicado recentemente pela ONU, revela que apenas 35% das metas dos ODS estão no caminho certo ou apresentando progresso moderado. Quase metade avança em ritmo muito lento e, de forma preocupante, 18% estão em retrocesso, sobretudo nos ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável), ODS 8 (Trabalho Decente e Crescimento Econômico) e ODS 14 (Vida na Água – Conservação e Uso Sustentável dos Mares e Oceanos).

Esses resultados dialogam diretamente com a sindemia global de nutrição que vivenciamos atualmente — a conexão entre desnutrição, obesidade e mudanças climáticas, três crises que se reforçam mutuamente.

 

Mas o que é uma sindemia?

O termo sindemia foi cunhado em 1990 pelo antropólogo médico Merrill Singer — que, infelizmente, faleceu em maio deste ano. Ele apareceu pela primeira vez no artigo Generations of Suffering: Experiences of a Treatment Program for Substance Abuse During Pregnancy, em que Singer e Charlene Snipes destacaram que nenhum dos termos existentes (pandemia, endemia, epidemia) era capaz de captar adequadamente a crise de saúde contemporânea vivida nos centros urbanos norte-americanos — neste caso, Hartford, em Connecticut.

Na época, a cidade enfrentava taxas desproporcionalmente altas de mortalidade infantil e baixo peso ao nascer, além de diabetes, hipertensão, cirrose, tuberculose, abuso de substâncias, HIV e DSTs: uma combinação de problemas inter-relacionados, mutuamente reforçados e fortemente influenciados por fatores político-econômicos e sociais.

Com base nisso, os autores propuseram o termo "sindemia" para chamar a atenção para a natureza sinérgica dos problemas de saúde e sociais enfrentados pelas populações pobres e desassistidas. Atualmente, o conceito de sindemia é aplicado a diferentes contextos.

Um deles é a sindemia conceitualizada pela Comissão do The Lancet em 2019, no artigo The Global Syndemic of Obesity, Undernutrition, and Climate Change: The Lancet Commission Report. Nesse relatório, os autores afirmam que obesidade, subnutrição e mudanças climáticas atuam sinergicamente e compartilham determinantes sociais comuns.

Esses três problemas são produtos diretos dos sistemas humanos — em especial, do sistema alimentar global — que produzem efeitos negativos sobre a equidade social, a saúde humana e o bem-estar ecológico.

A mudança climática afeta os sistemas alimentares por meio de eventos extremos, como os que atingiram o Rio Grande do Sul, e do aumento das temperaturas, que reduzem rendimentos agrícolas e elevam o preço das commodities. O encarecimento ou a escassez de alimentos também favorece a obesidade, ao levar populações vulneráveis a depender de produtos ultraprocessados, mais acessíveis e calóricos.

A produção de alimentos é um dos principais vetores da crise climática: toda a cadeia alimentar responde por até 29% das emissões globais de gases de efeito estufa. Carnes e laticínios geram emissões de metano muito superiores às alternativas vegetais, e o desperdício de alimentos adiciona mais de 3,3 bilhões de toneladas de CO₂ por ano — o que o colocaria como o terceiro maior emissor global, atrás apenas dos EUA e da China.

Obesidade e subnutrição também interagem. A desnutrição precoce é um importante preditor de obesidade futura.

 

Sistemas sustentáveis

Em 2 de outubro, a Comissão EAT-Lancet — grupo global e interdisciplinar de pesquisadores em nutrição, agricultura, políticas públicas e áreas afins — publicou o relatório “The EAT-Lancet Commission on Healthy, Sustainable, and Just Food Systems, que analisa as bases sociais de um sistema alimentar equitativo. O documento apresenta dados sobre justiça distributiva e detalha a dieta da saúde planetária (PHD), projetada para promover a saúde humana, proteger o planeta e preservar culturas regionais.

O relatório destaca que os sistemas alimentares atuais ameaçam a biosfera e o clima, fornecem dietas não saudáveis e apresentam acesso desigual a alimentos. Apesar de produzirem calorias suficientes e ajudarem a reduzir a subnutrição, as dietas globais são de baixa qualidade nutricional, com subconsumo de grãos integrais, frutas, legumes e nozes, além do consumo excessivo de carne vermelha, o que contribui para impactos climáticos e uso intensivo de terras.

A Comissão EAT-Lancet determinou que a agricultura e os sistemas alimentares atuais emitem 16-17,7 Gt de CO₂ equivalente por ano (1 Gt = 1 gigatonelada, ou 1 bilhão de toneladas), sendo necessária uma redução para menos de 5 Gt até 2050 para limitar o aquecimento global a 1,5-2 °C. Embora alguns gases sejam inerentes à agricultura, mudanças dietéticas, melhor manejo de resíduos, eficiência no uso de fertilizantes e práticas sustentáveis, como agroflorestas, podem remover cerca de 1,4 Gt de CO₂ por ano.

Para avaliar as potenciais consequências ambientais e socioeconômicas de uma transformação dos sistemas alimentares, foram avaliados dez modelos econômicos globais utilizados em avaliações de alto nível sobre mudanças climáticas, uso da terra e segurança alimentar.

O estudo assumiu três pressupostos para o cenário de 2050: adoção universal de dietas saudáveis por toda a população; aumento de 7% a 10% na produtividade agrícola global em relação a outras projeções; redução à metade da perda e do desperdício de alimentos em relação ao cenário BAU (Business As Usual, que parte da premissa de que nada será feito).

No cenário BAU, a produção agrícola global aumentaria 37% até 2050, com crescimento de 33% na pecuária e 37% em culturas agrícolas, especialmente na África Subsaariana (quase 100%), e menores aumentos na China (11%) e na Europa (18%). Nos cenários EAT-Lancet, a produção total permaneceria próxima à de 2020, com queda de aproximadamente 22% na pecuária e redução de culturas destinadas à alimentação animal. Ruminantes apresentariam redução de 55% na produção e 26% no número de animais; suínos cairiam até 48% e aves, 14%.

No cenário EAT-Lancet, para atingir a meta de emissões agrícolas de 5 Gt de CO₂ equivalentes por ano, todas as regiões precisariam reduzir suas emissões entre 20% e 32% até 2050. Contudo, há baixa concordância entre os modelos quanto à suficiência dessas reduções.

Os resultados do conjunto de modelos indicam que, no cenário EAT-Lancet, o uso total de terras agrícolas globais (lavouras e pastagens) poderia cair 7% em relação a 2020. A alteração no sistema alimentar impactaria os custos de produção e os gastos com alimentos. Um sistema alinhado com o cenário EAT-Lancet, por exemplo, exigiria menos recursos naturais, menor uso de mão de obra e de insumos químicos, resultando em uma redução moderada nos preços agrícolas médios ao produtor.

Além disso, custos de produção mais baixos poderiam aumentar a acessibilidade média dos alimentos, caso a redução fosse repassada aos consumidores. No entanto, esse achado não foi encontrado em todos os modelos, com alguns demonstrando que, na verdade, preços menores ao produtor também podem resultar em salários e rendas agrícolas mais baixos, impactando negativamente a acessibilidade alimentar.

São propostas oito soluções distribuídas entre diferentes domínios, cada uma com duas ou três ações-chave, reconhecendo que nenhuma, isoladamente, é suficiente para promover uma transformação ampla dos sistemas alimentares.

Para alcançar a dieta da saúde planetária (PHD), sugere-se atuação sobre preços, publicidade, disponibilidade de produtos não saudáveis, rótulos de advertência e tamanho de porções e embalagens. Outra solução é preservar e valorizar dietas tradicionais e saudáveis, geralmente alinhadas aos princípios da PHD.

Para produzir dentro dos limites planetários, recomenda-se a intensificação sustentável ecológica, com políticas voltadas a reduzir lacunas de produtividade e melhorar a eficiência no uso de recursos. Também é necessário corrigir desequilíbrios estruturais entre produtores e grandes corporações, por meio de legislação antitruste e de políticas que combatam a concentração de mercado.

Outra ação essencial é interromper a conversão de ecossistemas intactos para agricultura. Reduzir pela metade as perdas e desperdícios de alimentos também traz benefícios moderados às cinco fronteiras planetárias, com ganhos possíveis por melhorias em armazenamento, transporte e conscientização do consumidor.

Essas intervenções só adquirem potencial transformador quando implementadas de forma integrada e coerente, dentro de um plano de ação multissetorial, com monitoramento contínuo dos sistemas alimentares para ajustar políticas com base em novas evidências. Também é essencial formar coalizões amplas, envolvendo governos, sociedade civil, setor privado e movimentos cidadãos.

Finalmente, reforça-se que as coalizões precisam considerar três barreiras principais que podem impedir a transformação dos sistemas alimentares: (1) liderança política insuficiente; (2) interesses corporativos que se sobrepõem aos interesses públicos; e (3) demanda fraca e fragmentada por ação, ou seja, a percepção de falta de aceitação pública.

O relatório traz esperança de que ainda há margem para mudanças e que elas, se implementadas de maneira eficiente, em conjunto com alterações no contexto socioeconômico e político, podem evitar um cataclisma climático.

Dito isso, o que vemos na realidade é um progresso lento, guiado pela lógica de mercado, que, apesar de afirmar se importar com o meio ambiente e questões sociais, mantém o mesmo nível predatório de outrora. Infelizmente, enquanto não houver posicionamentos políticos firmes, que realmente defendam alterações nos sistemas alimentares, continuaremos a seguir a mesma cartilha vista no “Não olhe para cima”: o cientista avisa que vai dar ruim se nada for feito, nada é feito e, surpresa, dá ruim.

 

Mauro Proença é nutricionista

 

REFERÊNCIAS

IBGE. Reflexões sobre a Agenda 2030: 10 anos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. 2025. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=2102207;

UNDP. A Decade Lost: No Peace, Justice or Inclusion Target on Track as 2030 Deadline Looms. 2005. Disponível em: https://www.undp.org/press-releases/decade-lost-no-peace-justice-or-inclusion-target-track-2030-deadline-looms.

ONU. The Sustainable Development Goals Report 2025. Disponível em: https://unstats.un.org/sdgs/report/2025/.

SINGER, M. e SNIPES, C. Generations of suffering: experiences of a treatment program for substance abuse during pregnancy. J Health Care Poor Underserved. 1992 Summer;3(1):222-34; discussion 235-9. Disponível em:https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1327239/.

SWINBURN, B. et al. The Global Syndemic of Obesity, Undernutrition, and Climate Change: The Lancet Commission report. The Lancet. Volume 393, Issue 10173, p791-846, February 23, 2019. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(18)32822-8/fulltext.

ROCKSTROM, J. et al. The EAT–Lancet Commission on healthy, sustainable, and just food systems. The Lancet, Volume 406, Issue 10512, p1625 - 1700, October 11, 2025. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(25)01201-2/fulltext.

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