Um surpreendente debate produtivo com a "ciência" da criação

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22 ago 2025
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Gravura "Adão dando nome aos animais", atribuída a Jan Pietersz Saenredam (1604)

 

No debate entre ciência e criacionismo, não faltam embates carregados de retórica. De um lado, a biologia evolutiva fundamentada em evidências fósseis, genéticas e anatômicas; de outro, tentativas de sustentar uma leitura literal da Bíblia com roupagem científica, um campo conhecido como “ciência da criação”. Em geral, cientistas se dedicam a rebater alegações criacionistas a partir de dados da paleontologia ou da biologia molecular. Mas, em 2010, o paleontólogo americano Phil Senter resolveu adotar uma estratégia inusitada: usar os próprios métodos criacionistas para demonstrar a veracidade da evolução.

Essa virada metodológica desencadeou um diálogo, revisado por pares, nas páginas do Journal of Evolutionary Biology, nas quais Senter e o criacionista Todd Wood testaram até onde as ferramentas da chamada baraminologia (o ramo do criacionismo dedicado a classificar os seres em “tipos criados”, ou “baramins”) poderiam ser usadas para sustentar ou refutar a ideia de continuidade morfológica e evolutiva entre organismos. O resultado foi uma fascinante demonstração de como é possível, sim, dialogar com criacionistas de uma maneira educada, formal e, melhor que tudo, científica. Mas é preciso, sim, muita disposição.

A baraminologia parece necessária para os criacionistas que se aferram a uma leitura literal da Bíblia porque, nas versões em inglês do Gênesis, os versos que descrevem a criação dos seres vivos dizem que eles foram separados em “kinds” (“tipos”, ou “variedades”); daí, surge o imperativo de determinar que “tipos” Deus tinha em mente, e que seriam fixos e imutáveis. Em português, a palavra mais comumente usada no mesmo contexto, até em edições protestantes, é “espécies”. A palavra no hebraico original (“min”, ou “miyn”), obviamente não corresponde a nenhuma classificação taxonômica moderna.

No artigo que deu início ao diálogo, Senter (2010) partiu de uma provocação: se criacionistas afirmam que as lacunas entre fósseis são prova de que os grupos foram criados separadamente, por que não aplicar a mesma ferramenta que eles usam para medir essas lacunas e ver o que acontece? Os criacionistas são céticos das metodologias evolutivas, então talvez fosse melhor tentar convencê-los lançando mão de seus próprios estratagemas. Obviamente, nem sempre isso é possível.

A técnica escolhida foi o classic multidimensional scaling (CMDS). Não precisamos entrar em detalhes. Em linhas gerais, essa técnica converte uma matriz ou tabela de características anatômicas (como forma de ossos, presença de penas ou disposição de dentes) em um espaço tridimensional, onde cada espécie é representada por um ponto. Quanto mais próximos os pontos, mais semelhantes são os organismos. E se há uma distância média maior entre membros de um mesmo suposto tipo criado do que entre tipos criados, isso indica que os supostos tipos criados não são válidos. Uma hipótese de ancestralidade comum é melhor. Pelo menos foi assim que, inicialmente, Senter propôs o argumento.

Senter aplicou esse método a um conjunto de coelurossauros, um grupo de dinossauros terópodes que inclui formas carnívoras ágeis como Velociraptor e Deinonychus, além das aves primitivas do Jurássico e do Cretáceo, como Archaeopteryx e Confuciusornis. O resultado é pouco surpreendente para os evolucionistas: os pontos não formavam blocos isolados, mas um continuum morfológico. As aves se ligavam gradualmente a terópodes emplumados, como Microraptor, e estes, por sua vez, a outros dinossauros carnívoros.

Ou seja, se levados a sério pelos próprios padrões criacionistas, os resultados da aplicação da técnica mostravam que aves e dinossauros pertencem ao mesmo “baramin”, ou tipo criado. A ironia é deliciosa: uma ferramenta inventada para sustentar a ideia de tipos criados independentes demonstrava exatamente o contrário: a continuidade evolutiva que os criacionistas negam.

 

A resposta criacionista

Claro, a ousadia de Senter não poderia passar em branco. No ano seguinte, Todd C. Wood, criacionista e um dos principais defensores da baraminologia, publicou uma resposta também no Journal of Evolutionary Biology, buscando mostrar os pontos fracos da abordagem de Senter.

Wood argumentou que, embora o CMDS fosse útil para visualizar distâncias entre espécies, criacionistas não o usavam para decidir definitivamente se dois grupos pertenciam ao mesmo “tipo criado”. Ou seja, o argumento de Senter era, para todos os efeitos, inválido. Para avaliar a veracidade de uma hipótese de tipo criado, Wood informou que a ferramenta tradicional criacionista era outra: a correlação de táxons (taxon correlation, em inglês), que avalia a similaridade entre espécies comparando não apenas distâncias absolutas, mas também o padrão de variação de cada táxon em relação aos outros.

Aplicando essa técnica aos mesmos dados de Senter, Wood reconheceu algo incômodo para a posição criacionista: a análise ainda mostrava continuidade significativa entre aves mesozoicas e certos dinossauros terópodes. Porém, ao ampliar o número de espécies e caracteres, os resultados ficaram mais ambíguos. Em alguns recortes, aves e dinossauros pareciam formar conjuntos contínuos; em outros, apareciam descontinuidades que permitiriam, a um criacionista, afirmar que aves e dinossauros são baramins distintos.

Na prática, Wood mostrou que a “prova irrefutável” de Senter não era tão definitiva. O método poderia ser manipulado por escolhas diferentes de dados, e um criacionista sempre teria espaço para discordar. Além disso, Wood levantou uma questão filosófica: ao usar metodologias criacionistas em artigos científicos, não estariam os evolucionistas correndo o risco de legitimar ferramentas pseudocientíficas? Além disso, se a baraminologia demonstrar a evolução, os criacionistas podem simplesmente abandonar a ferramenta, não o criacionismo. Eles são bons nisso!

Existe ainda outro ponto importante do artigo de Senter (2010), que merece atenção agora. Em vez de usar apenas a matriz de fósseis conhecida em 2009, ele remontou versões anteriores do conjunto de dados, incluindo apenas os táxons descritos até décadas passadas, como se estivesse “voltando no tempo” para enxergar a evolução da paleontologia. A ideia era testar se novas descobertas preencheram as tão alardeadas lacunas morfológicas no registro fóssil.

Esse exercício histórico explicitou algo que os paleontólogos já sabiam, mas de uma forma quase pedagógica: as lacunas não são prova contra a evolução, mas apenas reflexos do estado provisório do registro fóssil. À medida que novas descobertas são feitas, os “vazios” se estreitam, e a árvore evolutiva se torna mais clara.

Mesmo Todd Wood, na sua réplica de 2011, reconheceu esse ponto. Embora tenha criticado a interpretação de Senter sobre a continuidade absoluta, comentou o seguinte: “De fato, como Senter (2010) demonstrou de forma convincente, as lacunas do registro fóssil entre coelurossauros não avianos e aves mesozoicas, evidentes no início do século 20, foram preenchidas por descobertas fósseis mais recentes”. Ou seja, ainda que discordasse do uso do CMDS para definir baramins, Wood não conseguiu negar que o avanço da paleontologia consistentemente preenche lacunas antes vistas como intransponíveis.

 

A tréplica

A discussão não parou aí. Ainda em 2011, Senter publicou um novo estudo, respondendo diretamente a Todd. Desta vez, não se restringiu às aves e seus parentes próximos. Acatando a sugestão de Wood sobre o uso da técnica de correlação de táxons, Senter analisou uma série de dados de dinossauros de diferentes grupos: terópodes, saurópodes, ornitísquios, ceratopsianos, anquilossauros e outros.

O resultado foi ainda mais contundente. As análises mostraram continuidade morfológica de praticamente todos os dinossauros. Em outras palavras, mesmo usando a métrica criacionista mais aceita, a maioria dos dinossauros deveria ser considerada parte de um mesmo conjunto com ancestralidade comum. Apenas alguns subgrupos apareciam separados por lacunas significativas. Ainda assim, dentro desses grupos, a continuidade interna era clara, indicando descendência comum de seus membros. E não se esqueça: novas descobertas podem, desde então, ter eliminado essas lacunas.

A resposta de Senter (2011) foi efetiva em dois sentidos. Primeiro, mostrava que a própria crítica de Wood podia ser contornada: ao usar a ferramenta criacionista “correta”, Senter reforçava ainda mais a conclusão de continuidade evolutiva. Segundo, ao incluir uma quantidade muito maior de táxons e caracteres, reduzia o espaço para alegações de que o resultado era um artefato de amostragem.

 

Mas e daí?

O diálogo entre os artigos de Senter e Wood ilustra bem os dilemas do confronto entre ciência e criacionismo. Por um lado, a criatividade de Senter mostrou que até os métodos inventados por criacionistas podem ser revertidos para evidenciar evolução. Isso é útil, sobretudo, para comunicação científica: um leitor leigo pode se impressionar ao descobrir que, mesmo pelas regras do jogo criacionista, aves descendem de (e são) dinossauros.

Já a réplica de Wood evidencia que nenhum método será suficiente para convencer quem já parte de um compromisso ideológico. A baraminologia não é apenas uma ferramenta estatística, mas um esforço explícito de confirmar crenças religiosas. Assim, quando os resultados não agradam, sempre há espaço para ajustes metodológicos ou para reinterpretar os dados. Ou, como disse antes, simplesmente descartar a metodologia como inválida (algo que alguns criacionistas já fazem, por sinal).

Ainda, a discussão demonstra que nem tudo no criacionismo é impossível de ser testado. Aliás, o criacionismo não é uma pseudociência porque não pode ser testado. Muitas hipóteses criacionistas são facilmente testáveis. E foram testadas, com resultados negativos. O criacionismo é uma pseudociência por insistir em desprezar essas evidências. Esse é o principal componente pseudocientífico do criacionismo moderno.

No fim das contas, talvez o principal saldo dessa “batalha” não seja convencer criacionistas, mas fortalecer a confiança do público na ciência. Demonstrar que a teoria evolutiva resiste não apenas às críticas que podem ser formuladas dentro da biologia convencional, mas também por ferramentas inventadas para negá-la, é uma maneira poderosa de mostrar sua robustez. E, ironicamente, é a própria “ciência da criação” que, ao ser posta à prova, acaba fornecendo mais munição para a evolução. Poderia ser melhor do que isso?

João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente Doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade

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