Dengue, BCG e as estranhas correlações da COVID-19

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19 out 2020
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pastafarianismo

 

A disseminação da COVID-19 pelo mundo afetou de forma heterogênea e assíncrona diferentes países e populações. Enquanto alguns locais viram o número de casos e mortes explodir ainda no início da pandemia, com hospitais lotados e cenas de caos nos sistemas de saúde e funerários, como Itália, Espanha ou Nova York, outros demoraram mais para serem atingidos, como a Índia, ou parecem terem sido poupados dos piores cenários, como a África em geral. Certas nações permaneceram meses com altas taxas de contaminação e óbitos, como o Brasil, enquanto outras experimentam surtos relativamente tardios, como a Argentina, ou após meses de aparente controle do novo coronavírus, como França e Reno Unido.

As razões por trás destes fenômenos podem ser muitas. A posição central nas rotas internacionais de turistas e viajantes de negócios, por exemplo, provavelmente colaborou para que o SARS-CoV-2 chegasse rapidamente à Europa e partes dos EUA e logo se espalhasse por lá, ao mesmo tempo que a precocidade e o rigor na adoção de medidas de contenção possivelmente ajudou a atrasar sua propagação em outras regiões, com seu relaxamento precipitado levando à recente disparada nos casos.

Mas alguns mistérios permanecem sem uma explicação mais evidente. Por que, apesar das previsões trágicas, a África aparentemente não enfrenta um surto descontrolado e mortal de COVID-19? Por que, mesmo estando próximos ao epicentro original da pandemia na China, muitos países asiáticos não observaram uma explosão inicial de casos? Por que, mesmo ignorando ou não cumprindo adequadamente medidas básicas de prevenção, como uso correto de máscaras e distanciamento social, os piores cenários não se concretizaram em diversas localidades do Brasil?

Em busca de possíveis respostas para estas perguntas, alguns cientistas se voltaram para dados populacionais e sanitários. Para além de características demográficas como pirâmides etárias supostamente mais favoráveis, com populações mais jovens, ou falhas nos registros, como subnotificações e baixos índices de testagem, o cruzamento destes dados revelou duas correlações surpreendentes em estudos preliminares divulgados em meados de setembro.

No primeiro deles, um grupo de pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Nova York liderado por Gonzalo H. Otazu mostrou que países de renda média e alta onde a vacina contra a tuberculose com o Bacilo Calmette-Guérin (BCG) ainda faz parte de políticas nacionais de imunização em geral apresentam uma taxa de mortalidade menor pela doença do que nações onde ela não é mais adotada como política de saúde pública. Já no segundo, outro grupo encabeçado pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis detectou uma coincidência geográfica entre locais vítimas de surtos recentes de dengue tanto no Brasil quanto no exterior com uma menor incidência, disseminação e mortes por COVID-19.

 

Correlação e causa

Embora sugestivos, os resultados destes estudos, ainda em preprint e sem revisão por pares, não querem dizer que a vacinação com BCG ou uma infecção prévia por dengue sirvam de proteção contra a COVID-19. Em ciência há um enorme abismo entre correlação e causalidade, como bem demonstrou o ativista americano Bobby Henderson, em 2005, numa comparação que se tornou notória.

Então, numa carta aberta de protesto ao Conselho Escolar do Kansas, que determinou o ensino do chamado “design inteligente” – uma forma de criacionismo pseudocientífico – lado a lado à Teoria da Evolução de Darwin no currículo educacional do estado, Henderson defendeu que tais aulas deveriam incluir as visões de sua recém-criada religião do Pastafarianismo. Segundo esta paródia religiosa, o Universo foi criado pelo grande Monstro do Espaguete Voador, que usa como vestes uma fantasia de pirata. Como prova de seu poder, o ativista destacou um gráfico demonstrando que o aquecimento global e o aumento no número de eventos climáticos extremos, como furacões, desde o século 10 apresentam uma relação direta com a queda na atividade da pirataria em alto mar a partir de então.

De lá para cá, piadas do tipo se espalharam pela internet, com sites e até livros inteiros dedicados a produzir e compilar correlações espúrias como o consumo de margarina nos EUA e o aumento nas taxas de divórcio no estado americano do Maine, ou os investimentos em ciência, tecnologia e exploração espacial e os suicídios por enforcamento no país. Todos estes exemplos que fazem parte de trabalho realizado pelo ex-estudante de criminologia da Universidade de Harvard Tyler Vigen a partir do início dos anos 2010, com o intuito justamente de destacar os perigos e a facilidade de usar dados e estatísticas para confundir aparentes relações com causas.

Geradoras de hipóteses

Isso não quer dizer, no entanto, que toda correlação é falha. Assim como acontece com as metanálises e revisões de literatura científica no princípio conhecido pela sigla inglesa GIGO (Garbage In, Garbage Out, literalmente “lixo entra, lixo sai”, isto é, se os estudos de base são ruins, a metanálise ou a revisão, por mais cuidadosas que sejam, também serão ruins), sua qualidade depende da validade das informações e do tratamento dado a elas, ou seja, não basta que os dados sejam verdadeiros e confiáveis, sua análise e interpretação devem ser criteriosas.

Bem feitas, as correlações são poderosas geradoras de hipóteses, a serem confirmadas por estudos subsequentes que busquem seus mecanismos causais, e a História da ciência está cheia de coincidências assim que se traduziram em grandes descobertas. Seguindo o exemplo da sobreposição de mapas e territórios geográficos utilizada para associar a vacina BCG e a incidência de dengue com a COVID-19, podemos citar o caso da teoria das placas tectônicas.

No início do século 20, o meteorologista alemão Alfred Wegener chamou a atenção para o fato de que os litorais dos grandes continentes da Terra se encaixavam como num imenso quebra-cabeça, lançando a ideia de que originalmente estavam unidos em uma imensa massa de terra, a qual denominou Urkontinent (“continente primevo” em alemão) e se separaram lentamente em um processo chamado “deriva continental”. Sua proposta foi inicialmente recebida com críticas e ceticismo, mas posteriormente estudos de paleomagnetismo, geologia do leito marinho e a descoberta de enormes cordilheiras submarinas nos mapas do relevo oceânico produzidos por Marie Tharp e Bruce Heezen nos anos 1950 trouxeram mais sinais e seus mecanismos causais, demonstrando que ele estava fundamentalmente certo.

 

Da coincidência à evidência

Na biologia e medicina, no entanto, a busca por evidências segue por um caminho bem diferente. Dos estudos populacionais é preciso partir para a verificação empírica via ensaios controlados. No caso da correlação entre dengue e COVID-19 revelada por Nicolelis e equipe, esta investigação é mais complexa e difícil, se não impossível, de ser realizada de forma ética diretamente - ninguém vai inocular propositalmente pessoas com uma doença potencialmente fatal para ver se ela protege de outra. Restam então os caminhos de aprofundar os inquéritos epidemiológicos, fazer experimentos in vitro e in vivo em laboratório à procura de possíveis mecanismos causais ou mesmo testar se as relativamente recentes vacinas aprovadas para dengue também poderiam fornecer algum tipo de proteção contra o SARS-CoV-2, por exemplo.

Já com relação à possibilidade de a vacina BCG – bem conhecida, segura e tolerada - de algum modo proteger contra a COVID-19, o caminho está aberto para ensaios clínicos que sigam o chamado padrão ouro para este tipo de investigação, isto é, controlados com placebo (em que um grupo de participantes recebe a vacina e outro uma solução inócua), duplo cegos (em que nem os participantes nem os pesquisadores sabem quem faz parte de cada grupo ao longo do experimento) e randomizados (em que os participantes são designados para cada grupo de forma aleatória e homogênea).

Assim, vários grupos de cientistas ao redor do mundo já seguem esta seara, com mais de duas dezenas de estudos relacionados à utilização da BCG na prevenção da infecção ou agravamento da COVID-19 registrados na base de dados americana de ensaios clínicos ClinicalTrials.gov. E a estes se junta agora pesquisa coordenada por Fernanda Mello, professora de Tisiologia e Pneumologia do Instituto de Doenças do Tórax da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Em estudo lançado no início deste mês, Fernanda e equipe vão recrutar mil profissionais de saúde que receberão a BCG ou um placebo para ver se os efetivamente vacinados apresentam uma menor taxa de infecção ou agravamento da COVID-19. O ensaio, envolvendo o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da UFRJ, o Hospital Pedro Ernesto, da UERJ, e Hospital Municipal Dr. Francisco Moran em Barueri, São Paulo, tem previsão para durar um ano, mas a ideia é fazer avaliações preliminares ao longo do caminho.

“A literatura nos embasa na hipótese do potencial efeito protetor da vacina BCG para a COVID-19, visto sua habilidade de estimular a imunidade inata, e com isso tornar o sistema imune mais apto para desafios, como as infecções virais”, explicou Fernanda por e-mail à Revista Questão de Ciência. “Será um ensaio clínico randomizado, cego, com a aplicação da vacina BCG ou de placebo (solução salina). Vamos incluir mil participantes em todos os centros do estudo, acompanhá-los ao longo de 12 meses com avaliações clínicas e laboratoriais periódicas, e análises parciais ou interinas serão conduzidas no decorrer do acompanhamento”.

Desta forma, a equipe de Fernanda e os demais grupos de pesquisadores pelo mundo deverão revelar se a BCG de fato pode ajudar na batalha contra a pandemia de COVID-19 ou se tudo não passa de uma coincidência, como a falta de piratas aquecer o planeta.

Cesar Baima é jornalista e editor-assistente da Revista Questão de Ciência

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