O sarampo voltou. Precisamos temê-lo

Artigo
18 ago 2019
Imagem medieval de homem ferido

Meados da década de 60, não existia vacina contra o sarampo e quase toda a criançada da minha rua pegou a doença. Menos eu. No segundo caso que teve, minha super-protetora mãe me proibiu de sair na rua para brincar, e quando as meninas do outro lado da rua caíram de cama, fui despachada para a casa da minha avó. Eu era louca para ter sarampo como todo mundo e ficar pintadinha...Quando voltei para casa, estavam todos recuperados, menos o irmão de 2 anos e pouco da Marina, que brincava de boneca comigo. Ele teve um sarampão, ficou no hospital com pneumonia e, quando voltou para casa, descobriu-se que tinha perdido a audição de um dos ouvidos. Fiquei apavorada. 

Meu tio Rudy, para me tranquilizar, inventou que era só não passar perto da Casa da Mãe do Sarampo, uma casa verde com grades brancas, na Vila Mariana, que eu não pegaria. Ali moravam a mãe do sarampo e seus três filhos, Sarampinho (rubéola), Sarampo e Sarampão. Eu nem chegava perto da tal casa (hoje, um barzinho movimentado) porque tinha um medo danado de sarampo.

“Eu também tinha, e ainda tenho”, me diz Guido Levi, médico infectologista e diretor da Sociedade Brasileira de imunizações (SBim), quando conto a história. “Sarampo não é uma doença benigna. Ela pode evoluir para bronquite, pneumonia, conjuntivite, causar surdez e até danos neurológicos no longo prazo. Eu sou do tempo em que 1/3 das enfermarias pediátricas eram ocupadas por crianças com sarampo, que morriam como passarinhos,” lembra. 

No sarampo, a febre vai aumentando por uns três dias, até aparecerem as manchas vermelhas que caracterizam a doença. “Naquela época, as mães acreditavam que era ‘sarampo recolhido’ e que ele precisava estourar. Para isso, punham um pano vermelho atrás da porta e davam chá de sabugueiro para a criança. Aí as manchas apareciam, não por causa do pano vermelho e do chá, mas porque era o dia mesmo de aparecerem”, conta. “Era a doença infecciosa que mais matava crianças no Brasil, só ficava atrás da diarreia.”

A vacina contra o sarampo foi introduzida no Brasil, de forma tímida, em meados dos anos 70, mas surtos ocorridos no Ceará no início dos anos 90 mobilizaram o governo a fazer uma campanha intensa pela vacinação. Ela foi tão bem-sucedida que, em 2000, o sarampo foi considerado erradicado no Brasil. “Já no final dos anos 90, nem mesmo os médicos sabiam mais diagnosticar sarampo, de tão raro de se ver. Lembro de uma vez em que um grupo de residentes me chamou para ver um caso que ninguém conseguia diagnosticar. Bati o olho na criança e disse: ‘É sarampo’. Ficaram todos espantados. Nunca tinham visto”, conta o especialista.  

Somos, eu e o Dr. Levi, do tempo em que todo mundo conhecia uma família em que alguém tinha tido poliomielite, sarampo, coqueluche. As vacinas fizeram essas doenças, assim como o tétano e a difteria, sumirem do nosso radar. Desapareceu também o medo. E a população relaxou com a vacinação, porque, afinal, ninguém mais tinha essas doenças. Só que não. A gente não vê, mas esses vírus e bactérias continuam circulando por aí.

Dos 967 casos de sarampo registrados até agora, somente neste ano, no Estado de São Paulo, 40% se concentram na faixa dos 15 aos 29 anos, que é também a população-alvo da campanha de vacinação que vai até 16 de agosto. Segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde, de 10 de junho e até a última semana, pouco mais de 900 mil pessoas foram vacinadas. A meta é atingir 4 milhões.

Interessante notar que essa faixa de idade combina pessoas que talvez não tenham sido vacinadas porque o sarampo já estava desaparecendo, e outras cujas famílias podem ter sido influenciadas pelas teses do ex-médico britânico Andrew Wakefield, que em 1995 publicou um estudo fraudulento, alegando que a tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) causava autismo e doença de Crohn, dando origem ao moderno movimento antivacina. 

Investigações provaram que sua pesquisa era uma fraude, que ele tinha fortes interesses econômicos – estava associado a um advogado que pretendia processar indústrias farmacêuticas em nome de pais de crianças autistas, e ele mesmo tinha planos de vender sua própria vacina, supostamente “sem riscos”. Wakefied perdeu o diploma, se mudou para Austin, no Texas, onde posa de mártir e faz fortuna dando palestras em que incentiva pais a não vacinar os filhos.

Por conta das mentiras que Wakefield propagou e da dúvida que semeou, cresceu o número de pessoas que hoje contraem doenças que estavam prestes a ser erradicadas, como foi o caso da varíola, eliminada da face da Terra em 1980. O sarampo estava prestes a seguir o mesmo destino, mas nos três primeiros meses deste ano a Organização Mundial da Saúde (OMS) registrou um aumento de 300% na incidência da doença, em comparação com os três primeiros meses do ano passado. 

O sarampo está presente, hoje, em 170 países, com 112.163 casos notificados somente de janeiro a março.

“Não existe um movimento antivacina articulado no Brasil, mas temos um número de franco-atiradores, pessoas que usam as redes sociais para disparar informações falsas e alarmistas, de que não existe surto, que tudo não passa de mentira para grandes farmacêuticas venderem vacinas perto do vencimento, que há um plano de Bill Gates para exterminar os pobres por meio das vacinas, que elas fazem mal, que podem matar e por aí afora”, afirma Levi. 

O cotidiano na clínica de vacinação coloca o médico, diariamente, diante do que ele qualifica como “pacientes hesitantes”. 

São pessoas que vão em busca de informações sobre vacinas, para si mesmas ou para os filhos, com aquele discurso do “sei que não é perigoso, mas ouvi dizer que...” ou “vim tomar a vacina, mas sei que pode fazer mal...” Do alto de sua experiência, Guido Levi garante que não é nada que uma boa conversa olho no olho, médico e paciente, não resolva. “Você tem de entender quais são as dúvidas, mostrar como as vacinas mudaram nossas vidas, falar das milhares de crianças que hoje estão vivas e saudáveis por causa das vacinas, mostrar que os medos não têm fundamento,” explica.

“Infelizmente, essas pessoas que propagam informações falsas usam uma linguagem simples e apelam para o medo da vacina e não da doença, enquanto os sites científicos e confiáveis ainda recorrem a uma linguagem complicada e pouco acessível à maioria das pessoas. Isso tem de mudar, se quisermos vencer essa batalha pela informação.”

Ruth Helena Bellinghini é jornalista, especializada em ciências e saúde e editora-assistente da Revista Questão de Ciência. Foi bolsista do Marine Biological Lab (Mass., EUA) na área de Embriologia e Knight Fellow (2002-2003) do Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde seguiu programas nas áreas de Genética,  Bioquímica e Câncer, entre outros

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