Messias falsos, impostores e profetas

Apocalipse Now
27 mar 2021
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A história humana está repleta de homens (e algumas mulheres) que conseguiram encantar multidões e liderar movimentos, religiosos ou de grande importância política e social, a despeito do fato de serem, obviamente, impostores — alguns, até, preservaram seguidores fiéis mesmo após serem desmascarados em definitivo e, em determinadas ocasiões, traírem tudo o que haviam dito e prometido para as massas.

O caso mais notável provavelmente é o do rabino da cidade turca de Esmirna Sabbatai Zevi (1626-1676), que entre 1650 e 1660 começou a declarar-se o messias esperado pelo povo judeu.

Aquele era um tempo de grande angústia para os judeus da Europa Oriental. Cossacos haviam invadido a Polônia em 1648, e a população judaica do país vinha sendo massacrada, numa campanha de extermínio que pode ter causado, ao longo de dez anos, meio milhão de mortes; em 1661, a comunidade judaica de Vilna, na Lituânia, proibiu celebrações públicas, como festas de casamento, em luto.

Em meio ao desespero causado pelos massacres na Polônia, ideias apocalípticas encontraram terreno fértil; e o movimento de Zevi cresceu e se espalhou, chegando até mesmo a cidades como Londres e Amsterdã.

 

Apostasia

Em seu diário de 19 de fevereiro de 1666, o político inglês Samuel Pepys (1633-1703) anota que um judeu londrino estava oferecendo dar a qualquer um prêmios de dez libras, com a condição de receber de volta 100 libras caso, em dois anos, “uma certa pessoa de Esmirna” fosse reconhecida “por todos os príncipes do Oriente” como “Rei do Mundo” e “verdadeiro messias”. Escreve Pepys: “Alguém me fala de um amigo dele que recebeu dez moedas de ouro por causa disso, e diz que o judeu já gastou 1.100 libras dessa forma”.

Na verdade, enquanto as apostas no sucesso do novo messias eram feitas na capital britânica, Zevi encontrava-se preso. Havia sido capturado em Constantinopla em dezembro de 1665, por ordem do vizir do sultão Mehmed IV.

Alguns meses depois do registro de Pepys, em setembro de 1666, Zevi foi levado à presença do sultão — circulava, naqueles dias, a profecia de que o messias retiraria a coroa da cabeça do imperador turco e a colocaria na sua — e ouviu a seguinte oferta: ele poderia aceitar passar por um teste de divindade (servir de alvo para os arqueiros do rei: se todos errassem, estaria provada sua ligação com Deus), converter-se ao islamismo ou ser torturado até a morte. Num piscar de olhos, Sabbatai Zevi tornou-se Aziz Mehmed Effendi, devoto muçulmano.

Muitos de seus seguidores recusaram-se a abandoná-lo, alegando que sua conversão seria parte da jornada messiânica. Vários converteram-se junto com ele, vivendo publicamente como muçulmanos mas praticando um judaísmo sabbateano em particular.

 

Rei da França

Em seu livro “The False Messiahs”, Jack Gratus especula que Zevi poderia sofrer de transtorno bipolar, e que sua apostasia teria ocorrido numa das fases depressivas do ciclo. Historiadores tendem a atribuir boa parte do sucesso de Sabbatai Zevi às longas cartas apostólicas assinadas por seu principal seguidor, propagandista e profeta, Nathan de Gaza (1643–1680). “Que seus corações não fraquejem e nem temam, mas fortifiquem-se na Fé, porque tudo o que ele faz é miraculoso e um segredo que o entendimento humano é incapaz de compreender”, escreveu ele, após a conversão do messias ao islã.

Outro impostor que se beneficiou do apoio de um profeta — de um par de profetas, na verdade — foi Karl Wilhelm Naundorff (1785-1845), relojoeiro e inventor, réu condenado por fraude em sua terra natal, a Alemanha, mas que ao chegar a Paris, em 1833, sem saber quase nenhuma palavra de francês, reivindicou para si o trono da França e a identidade de Luís XVII, o “filho perdido” de Luís XVI e Maria Antonieta, os reis mortos pela Revolução.

O verdadeiro príncipe-herdeiro, Louis-Charles, havia morrido (ou sido assassinado) na prisão, em 1795, aos dez anos de idade; mas boatos sobre o suposto resgate ou fuga da criança abundavam e, com eles, pretendentes ao trono e profetas do retorno da linhagem interrompida pela guilhotina.

Após a queda de Napoleão, o conde de Provença havia assumido o trono como Luís XVIII. Com a derrubada do sucessor de Luís XVIII, Carlos X, na Revolução de Julho de 1830, em meio a um clima de intensa agitação social e incerteza política, profetas populares como o camponês Thomas Martin (abordado por um anjo, inicialmente, em 1816) passaram a pregar o retorno iminente do governante “legítimo”, Luís XVII. Martin tornou-se popular até mesmo entre membros da Família Real, e Naundorff conseguiu espalhar o boato de que o profeta o reconhecera como verdadeiro rei.

 

 

Hóstias de sangue

Martin morreu pouco depois de supostamente endossar a pretensão do relojoeiro, mas Naundorff logo encontrou outro patrocinador místico: Eugène Vintras (1807-1875), o “profeta de Tilly”, fundador de um ramo herético do catolicismo, a Ordem de Misericórdia. Vintras dizia receber visões de Maria, Jesus e do Arcanjo Miguel, advertindo-o da destruição iminente de Paris e da chegada de uma Nova Era. Mas a principal causa da fama de Vintras eram as hóstias que sangravam durante suas cerimônias.

Em sua “História da Magia”, Eliphas Levi (1810-1875), não exatamente o mais cético dos comentaristas, especula que o fervor místico de Vintras havia sido despertado por uma fraude, articulada deliberadamente pelo partido de Naundorff; seja como for, a partir de 1839 o relojoeiro alemão tinha um novo profeta: o reino de Louis XVII seria o marco inicial da Nova Era.

Exilado na Inglaterra em 1835, depois de tentar processar a princesa Maria Teresa, irmã do verdadeiro Luís XVII, Naundorff passou também a ter visões místicas e a escrever textos proféticos. Sua ascensão ao trono foi prevista para 1840. Quando o ano passou e o rei Luís Filipe I continuou no trono, muitos seguidores abandonaram Naundorff, mas não todos. Ao morrer, em 1845, seu atestado de óbito, emitido na Holanda, citava Luís XVI e Maria Antonieta como pai e mãe.

Vintras, por sua vez, seguiria popular (mesmo tendo sido preso em 1842 e formalmente condenado pelo Vaticano em 1842 e 1848). Em 1850, adotou os “nomes místicos” de Elias e Strataniel (“arauto de Deus”). Morreu em 1875, mas o vintraísmo sobreviveu ainda por muito tempo.

 

Duas crises

No primeiro volume de sua história da influência das ideias mágicas e do irracionalismo no mundo ocidental contemporâneo, “The Occult Underground”, James Webb (1946-1980) sugere que grandes impostores e falsos messias tendem a ganhar credibilidade em épocas de “crise de consciência” e de “crise de legitimidade”. A crise de consciência, segundo Webb, emerge no momento em que velhas certezas e a noção de limites que norteavam a sociedade e o indivíduo foram varridas do mapa, e novas ainda buscam firmar-se. Crises de consciência são estados de ansiedade e de vacuidade espiritual.

A crise de legitimidade, por sua vez, é a manifestação aguda da crise de consciência na esfera política: os velhos pretextos usados para justificar que algumas pessoas governem e outras não, que alguns mandem e outros obedeçam, já não “colam” mais; ninguém mais acredita neles, não de modo sincero.

Os dois casos descritos aqui, de Zevi e  Naundorff (seria possível relatar muitos mais) apontam o par de rotas de fuga imediata mais usados face a crises assim: a fuga para o passado, no caso francês — para uma era de monarcas legítimos, da velha dinastia, dos reis ungidos por Deus — e para o futuro, no caso dos judeus que compraram o mito do messias de Esmirna: um futuro brilhante, a Terra Prometida, enfim.

Webb tem uma visão pessimista dessas “fugas” que dependem crucialmente de um líder carismático e não podem existir sem ele: “o fato de uma figura (…) ser necessária é um indício da incapacidade do grupo de imaginar uma mudança para melhor, ou uma mudança qualquer (…) É possível argumentar que a necessidade de uma figura de proa evidencia uma incapacidade de pensamento abstrato”.

É quase consensual que o Brasil vive uma crise de legitimidade instaurada, pelo menos, desde 2013. A de consciência é ainda mais antiga. Mais da metade da população decidiu fugir para um certo passado imaginário (a Era de Ouro dos quartéis), arrastando consigo os demais; seguindo, como manda o figurino, uma figura de proa, um impostor óbvio, e seu profeta. A História ensina que situações assim terminam em vexame ou tragédia. Por aqui, conseguimos os dois.

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência e coautor do livro "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto)

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