O resort das hipóteses lamentáveis

Apocalipse Now
16 nov 2019
Autor
cadeiras de praia

 

Como editor da Revista Questão de Ciência, volta e meia me deparo com um fenômeno retórico-filosófico-psicológico que acabei apelidando de Síndrome da Porta Entreaberta. Ele se manifesta, por exemplo, quando um cientista convidado a colaborar conosco encontra dificuldade em explicar por que uma certa alegação – digamos, de que preces feitas hoje são capazes afetar o sucesso de cirurgias realizadas ontem – é uma arrematada asneira. 

O cientista sabe que a alegação é estapafúrdia; num bar, entre amigos, ele (ou ela) é perfeitamente capaz de afirmar isso, sem reservas – e ainda esmurrar a mesa, para dar ênfase. Mas quando chega a hora de escrever a respeito para uma publicação de alcance popular, muitas vezes o texto acaba soando ou dogmático (é asneira porque é asneira, pronto), ou frouxo: repleto de todavias, contudos e considerandos. 

A causa do desconforto reside no fato de que as ciências em geral adotam processos de inferência – caminhos para tirar conclusões – que são variações da chamada indução enumerativa, a ideia de que exemplos acumulados no passado são guias razoáveis para prever acontecimentos futuros (se todas as coisas que joguei para cima até hoje caíram, então a próxima também deve cair). 

O problema é que a indução enumerativa não produz necessidade lógica: nenhuma lista de exemplos garante que o futuro vai se comportar como o passado da mesma forma que, digamos, o Teorema de Pitágoras garante que qualquer triângulo retângulo plano que poderemos algum dia encontrar, conceber, desenhar ou sonhar, daqui até a morte térmica do Universo, manterá sempre a mesma relação entre os quadrados dos catetos e o da hipotenusa.

A ciência, portanto, sempre deixa uma porta entreaberta. E, muitas vezes, a lacuna argumentativa que se abre entre esse dado essencial do trabalho científico e a constatação, prática e objetiva, de que algumas coisas são certezas e outras, impossíveis, pode parecer intransponível. Essa Síndrome da Porta Entreaberta é muito explorada por promotores de projetos irrealizáveis e teorias mortas: afinal, quem pode garantir, de fato, que a ideia deles é mesmo impraticável? 

A situação se complica um pouco mais quando levamos em conta a chamada tese Duhem-Quine da filosofia da ciência: a constatação de que nenhuma hipótese é realmente testada em isolamento, e em princípio qualquer teoria, por mais maluca que seja, pode ser defendida ad eternum, bastando para isso modificar os chamados pressupostos de fundo. 

Por exemplo, quando um astrônomo olha por um telescópio para averiguar se a colisão prevista de um cometa com um planeta de fato ocorreu, ele está pressupondo que o telescópio está em boas condições, que as leis da óptica que regem o caminho percorrido pelos raios de luz entre lentes e espelhos seguem válidas, que as regras da mecânica celeste que usou para computar a trajetória dos astros funcionam mesmo; e que suas contas estão certas.

Se a colisão prevista não for observada é possível, em princípio, atribuir o fato não a um erro do astrônomo que fez os cálculos, mas a um defeito do equipamento, uma violação das Leis de Newton (ou de Einstein), a um comportamento aberrante da luz. A lição aqui é que hipóteses científicas existem em feixes, ou redes. Num nível abstrato, cada experimento ou observação testa não apenas a hipótese que, para um observador externo, está obviamente em jogo, mas a rede toda. Com isso, o vão da porta entreaberta fica ainda maior: parece que nunca existe razão suficiente para descartar uma ideia, seja a Terra plana, a prece que volta no tempo ou a validade da homeopatia. Sempre é possível transferir o ônus do fracasso para as pressuposições de fundo.

Parafraseando o filósofo James Ladyman, no entanto, quando a análise abstrata de um problema leva a resultados que, do ponto de vista do mundo real, concreto, são absurdos, é uma boa ideia rever a análise.

O ponto saliente, neste caso, é de que as hipóteses que compõem as redes ou feixes de enunciados da ciência não são todas iguais. Existe uma hierarquia. Falando em termos de redes, alguns nodos (Relatividade, Evolução, Óptica, Conservação da Energia, etc.) ocupam posições centrais e são altamente conectados, recebendo apoio de outros nodos também muito bem conectados: mexer neles requer perícia cirúrgica e traz o risco de causar instabilidades quase globais. 

Outros nodos, como a crença do pesquisador sobre o estado de manutenção do equipamento, ou o pressuposto de que o experimento foi planejado e conduzido de forma competente, são bem periféricos. Em princípio, nenhum nodo é sagrado ou intocável, mas a posição de cada um, na estrutura geral, sugere fortemente quais têm maior probabilidade de requerer ajuste, em caso de anomalia. Reconfigurações extraordinárias requerem evidências extraordinárias.

Na prática, é assim que algumas ideias sobre o funcionamento do mundo real acabam sendo consideradas “certezas” e outras, “impossíveis”, para todos os fins práticos, e até mesmo por cientistas (na mesa do bar, ao menos). Claro que, como a inferência científica tem por base a indução, os termos “certo” e “impossível”, neste contexto, têm menos força do que seu sentido estrito, lógico-matemático, sugere. Mas força menor não significa força desprezível.

Além de servir como sistema de suporte de vida para ideias ruins, a Síndrome da Porta Entreaberta também oferece um lugar de carinho e conforto para negacionistas em geral. Pois, se não dá pra ter 100% de certeza de que algo é impossível, também não dá para ter 100% de certeza de que algo é real. 

Essa margem estrutural de dúvida, que acompanha toda afirmação científica, é uma espécie de resort à beira-mar onde negações como a do aquecimento global, da segurança das vacinas, dos males do tabagismo, da segurança dos transgênicos, etc., são mimadas e alimentadas por staffs atenciosos. 

Quem estabelece residência nessa praia esquece (ou omite) que, embora toda dúvida seja possível, nem toda dúvida é razoável. Mais uma vez, o grau de plausibilidade depende da força da evidência e da estrutura da rede.

Habitar a margem também requer abstrair o fato de que há momentos em que ação se faz necessária, mesmo se com informação, talvez, incompleta. Não é porque existe a possibilidade filosófica de que a lei da conservação da energia pode falhar a qualquer momento que engenheiros estão livres para ignorá-la ao criar seus projetos. Se verdades provisórias e informação limitada são tudo o que temos, é com base nelas que temos de agir no mundo, se quisermos que essa ação seja responsável. Diversos autores que se debruçam sobre a questão do uso político da desinformação científica já notaram que o objetivo do negacionismo geralmente não é oferecer um curso de ação específico mas, o contrário, barrar ações, gerar imobilismo e manter o status quo. 

Existem portas entreabertas e existem portas escancaradas. Existem aquelas que, no máximo, têm um leve problema de vedação. Confundir umas e outras, seja em nome da cautela intelectual ou de interesses ideológicos ou político-econômicos, é um desserviço à compreensão pública da ciência e à sociedade.

 

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência

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