Meio século de memes

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Em 1976, Richard Dawkins publicou O Gene Egoísta. O livro ficou famoso por popularizar a visão centrada no gene da evolução, mas o último capítulo da edição original (dois capítulos adicionais aparecem em edições subsequentes) continha uma ideia que acabaria ganhando vida própria. Ali, quase como um apêndice especulativo, Dawkins propôs a existência de um novo tipo de replicador: os memes.

Memes? 50 anos atrás? Sim, foi Dawkins quem criou a palavra. 

Cinquenta anos depois, o termo está por toda parte. No entanto, há uma ironia curiosa nisso. Quando a maioria das pessoas fala em memes, pensa em imagens engraçadas compartilhadas nas redes sociais. Para Dawkins, porém, um meme era algo muito mais amplo: qualquer unidade de informação cultural capaz de ser copiada de uma mente para outra.

A ideia foi recebida com entusiasmo por alguns, rejeitada por outros e transformada por muitos. Mas, independentemente do destino da memética como programa científico, a noção de meme continua sendo uma das tentativas mais provocativas de aplicar a lógica darwiniana ao mundo da cultura.

O outro replicador

A tese central de O Gene Egoísta é que a evolução ocorre porque existem entidades capazes de fazer cópias de si mesmas (com o auxílio de alguns produtos intermediários; proteínas, por exemplo). Os genes são os replicadores biológicos por excelência. Eles persistem ao longo das gerações porque produzem cópias que, embora imperfeitas, preservam informação. A visão centrada no gene, defendida de forma tão brilhante por Dawkins, se baseia na ideia de que a evolução é melhor entendida como uma guerra entre genes pela representação máxima em gerações futuras.

Dawkins observou, porém, que os seres humanos, bem como outros seres vivos, não vivem apenas em um mundo biológico estrito. Vivemos também em um universo cultural. Ideias, crenças, técnicas, músicas, modas e costumes parecem exibir algo semelhante à evolução. Surgem, mudam, espalham-se e desaparecem.

(Sempre gosto de enfatizar que cultura também é biologia, já que é uma manifestação de uma entidade biológica. Evidentemente, não estou dizendo que a cultura, ou mesmo o comportamento de forma geral, é determinado pela constituição genética. Mas esse é assunto para outra hora.)

A pergunta inevitável para Dawkins era a seguinte: se a evolução depende de replicadores, qual seria o replicador da cultura? Sua resposta foi o meme.

A palavra foi criada a partir do termo grego “mimeme”, que significa algo como “aquilo que é imitado”. Dawkins procurava um nome que evocasse a ideia de imitação, mas que também soasse parecido com “gene”. Por isso encurtou “mimeme” para meme. A escolha foi bastante feliz. Curta, sonora e fácil de lembrar, a palavra tem algumas das características que o próprio Dawkins atribuía aos memes bem-sucedidos. Dawkins certamente não imaginava que o termo acabaria se tornando um dos memes mais bem-sucedidos de todos os tempos.

O que é um meme?

Segundo Dawkins, memes são unidades de transmissão cultural. Uma melodia pode ser um meme. Uma boa piada pode ser um meme. Até mesmo uma teoria científica pode ser um meme. Uma receita culinária, uma moda, um slogan político, uma superstição ou uma crença religiosa, também. O importante não é o conteúdo da ideia, mas sua capacidade de ser copiada. Assim como genes passam de corpo para corpo através da reprodução, memes passam de cérebro para cérebro através da comunicação.

Quando um cientista ensina uma teoria aos seus alunos, um meme está sendo, de certa forma, transmitido. Quando uma criança aprende uma cantiga popular, outro meme está sendo copiado. Quando alguém adota uma moda ou uma gíria porque viu outras pessoas fazendo o mesmo, estamos observando um processo memético em ação. Nesse sentido, a cultura inteira pode ser vista como um gigantesco ecossistema de replicadores competindo pela atenção humana. A internet atual é um bom exemplo disso.

Entre os exemplos apresentados por Dawkins, um dos mais famosos é sua breve análise da ideia de Deus. Ele não estava discutindo se Deus existe ou não, pois essa é uma questão completamente diferente e, dependendo das definições, não é de natureza científica. O que Dawkins queria saber é: por que a crença em Deus se espalha de modo tão eficiente? Poucos memes na história foram tão bem-sucedidos como esse, que provavelmente evoluiu independentemente várias vezes, ou seja, surgiu de modo espontâneo em diversas culturas.

A resposta sugerida é que o meme Deus tem características psicológicas que favorecem sua propagação. Por exemplo, oferece respostas a perguntas difíceis sobre a existência. Promete justiça diante das desigualdades do mundo. Conforta diante da morte. Dá significado ao sofrimento. Produz coesão social. Dito de outra forma, o meme Deus  encontra um ambiente extremamente favorável na mente humana. Para Dawkins, essas características explicariam sua persistência cultural ao longo de milênios.

Mais importante ainda, muitos memes, incluindo os memes religiosos, frequentemente não aparecem isolados. Formam complexos meméticos, assim como genes formam complexos genéticos. A crença em Deus pode vir acompanhada de rituais, textos sagrados, instituições religiosas, tradições, músicas, símbolos e doutrinas. Cada elemento reforça os demais, criando um sistema cultural estável.

Dawkins chegou a argumentar que algumas doutrinas religiosas funcionam como mecanismos de autopreservação memética, isto é, aumentam a probabilidade do meme ou complexo memético ser passado adiante. A valorização da fé sem evidências, por exemplo, dificultaria questionamentos capazes de enfraquecer determinados memes (Deus, por exemplo). Aliado ao meme “professe sua fé”, o meme da fé se espalha com mais força.

Não estou dizendo aqui que Dawkins resolveu o problema da origem da crença em uma entidade superior, estou apenas apresentando a lógica dos memes. Nem mesmo Dawkins acreditava ter encontrado a resposta definitiva para uma questão tão fundamental e complexa.

Embora a analogia entre os replicadores genéticos e os replicadores culturais seja interessante, obviamente os memes não podem ser replicados do mesmo jeito que moléculas de DNA. Como, então, eles se multiplicam? A sugestão de Dawkins foi a imitação, que ele considerava o equivalente cultural da reprodução biológica.

Os seres humanos têm uma extraordinária capacidade de copiar comportamentos. Aprendemos observando, reproduzimos hábitos. Absorvemos linguagens. Imitamos técnicas. Imitando nossos pais e outras pessoas próximas, por exemplo, aprendemos a falar e a realizar algumas tarefas. Essa habilidade foi tão importante para nossa espécie que alguns pesquisadores chegaram a sugerir que boa parte da singularidade humana deriva justamente da capacidade de transmissão cultural cumulativa.

Uma inovação pode surgir em uma única mente. Se for copiada, espalha-se para outras. Se essas pessoas também a transmitirem, o processo continua. Assim, uma invenção tecnológica, uma crença religiosa ou uma teoria científica podem sobreviver ao indivíduo que as criou. Os memes, assim como os genes, têm potencial para serem duradouros, embora não tanto quanto sua contraparte molecular. Mas alguns memes, se empoderados com as ferramentas certas, podem durar muito. 

Aptidão memética?

Dawkins propôs três características fundamentais compartilhadas por memes bem-sucedidos. É uma situação bastante similar à dos genes. 

A primeira é a longevidade. O meme precisa sobreviver tempo suficiente para ser copiado. Um boato esquecido em poucas horas dificilmente deixará descendentes culturais (embora possa ser interessantíssimo, especialmente numa espécie que tem apreço pela fofoca).

A segunda é a fecundidade. Alguns memes geram cópias a uma velocidade impressionante. Outros se espalham lentamente. Em termos evolutivos, a quantidade de descendentes importa.

A terceira é a fidelidade de cópia. Quanto mais precisamente uma informação é transmitida, maiores as chances de sua persistência. Essa última característica é particularmente interessante porque a cultura frequentemente modifica aquilo que transmite. Histórias mudam, ideias são reinterpretadas, tradições sofrem adaptações.

Ainda assim, certas estruturas fundamentais permanecem reconhecíveis. A teoria da evolução ensinada hoje não é idêntica à de Darwin, mas conserva um núcleo conceitual que permite reconhecê-la como descendente da ideia original. E já falamos disso aqui.

Na analogia entre evolução genética e evolução cultural dos memes, cabe perguntar como exatamente os memes competem. Os genes, sabemos, usam diversos estratagemas para competir entre si. Eu, você, o Carlos Orsi e toda a vida na Terra somos esses estratagemas. Genes, por meio dos organismos (as “máquinas de sobrevivência” de Dawkins), competem por espaço nas gerações futuras. E os memes?

Memes competem por algo diferente: espaço nas mentes. Nosso tempo é limitado, bem como nossa atenção. Cada minuto dedicado a uma ideia (ou vídeo na tela) deixa menos tempo disponível para outras. Hoje, essa observação parece quase profética. Redes sociais, plataformas de vídeo, podcasts, serviços de streaming e aplicativos de mensagens transformaram a atenção humana em um dos recursos mais disputados do planeta. É aquela velha história: você virou produto. Então, quanto maior for a capacidade de um meme de “grudar” na mente de um “hospedeiro” e dali saltar para outro cérebro, maior a sua capacidade de se propagar.

Influenciadores, partidos políticos, empresas, movimentos sociais, igrejas e veículos de comunicação competem incessantemente pela mesma matéria-prima: alguns segundos da nossa atenção. Do ponto de vista memético, a internet pode ser vista como uma explosão sem precedentes do ambiente de seleção cultural. Jamais houve tantos memes disputando tantas mentes ao mesmo tempo. A briga está acirrada!

Contra a tirania 

Ao longo de O Gene Egoísta, Dawkins descreve genes como replicadores cegos, egoístas, que não planejam o futuro. Os genes não têm objetivos conscientes, apenas persistem quando as consequências que produzem favorecem a própria replicação. No capítulo dos memes, ele estende essa lógica à cultura. Memes também seriam replicadores cegos. Mas é nesse ponto que surge uma nota de esperança.

Os seres humanos têm algo que genes e memes não têm: capacidade de previsão consciente. Dawkins chama atenção para nossa habilidade de imaginar futuros possíveis, gerir e agir deliberadamente em função deles. Podemos avaliar consequências, refletir sobre valores, resistir a impulsos biológicos ou pressões culturais.

Felizmente, podemos questionar tradições, abandonar crenças e até escolher quais ideias merecem ser preservadas (algumas ideologias não são bem-vindas, nunca). Essa talvez seja a mensagem mais importante do livro, pelo menos do ponto de vista humano.

Os memes moldam nossas mentes, mas não precisam governá-las completamente:

“Temos o poder de desafiar os genes egoístas de nosso nascimento e, se necessário, os memes egoístas de nossa doutrinação... Somos construídos como máquinas de genes e moldados culturalmente como máquinas de memes, mas temos o poder de nos voltar contra nossos criadores. Nós, sozinhos na Terra, podemos nos rebelar contra a tirania dos replicadores egoístas.”

Cinco décadas depois da publicação de O Gene Egoísta, a teoria dos memes continua controversa. Muitos cientistas consideram a analogia excessivamente simplificada, enquanto outros acreditam que captou algo profundo sobre a evolução cultural.

Talvez a maior prova de seu sucesso seja o fato de que ainda estamos discutindo a ideia cinquenta anos depois. Afinal, se existe um critério para medir a força de um meme, é sua capacidade de sobreviver e continuar sendo copiado. E poucos memes acadêmicos foram tão bem-sucedidos quanto o próprio meme dos memes.

João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade

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