Probabilidade e origem da vida

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2 fev 2026
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Lousa com equações e moléculas

Recentemente, o influenciador Peter Jordan, conhecido na internet pelos seus diversos canais, principalmente pelo canal de cultura pop Ei Nerd!, assumiu que deixou o ateísmo e que agora se assume como teísta, embora não um cristão. Até aí, problema nenhum. Não é do meu interesse, nem do editor, muito menos dos leitores da RQC, patrulhar a (des)crença religiosa que as pessoas têm ou deixam de ter. Se fosse só isso, eu não estaria escrevendo a respeito. Mas, prometo, não é só isso.

Em um de seus canais, o influencer repercutiu um trecho de um documentário criacionista. A forma como Peter chegou ao documentário é, por si só, curiosa. Ele diz que estava lendo Deus, um delírio (de Richard Dawkins), mas não terminou. Começou a se sentir mal. Ainda segundo o influenciador, algo em si não queria aceitar que era isso, “morreu e acabou”. Então, Peter diz que passou a buscar razões para crer, para encontrar conforto. Passando por Ariano Suassuna e Enéas, ele finalmente se deparou com o tal documentário criacionista.

Peter, então, exibe um trecho do documentário. E é esse trecho que justifica esta coluna. O foco aqui não é Peter, mas o argumento que ele fez chegar a centenas de milhares, potencialmente milhões, de pessoas.

O trecho central do documentário tenta responder à seguinte pergunta: quais são as chances de uma proteína se formar exclusivamente por interações químicas “às cegas”? A partir daí, o vídeo começa a lançar números astronômicos (correspondendo a probabilidades absurdamente baixas) para concluir que a origem natural da vida seria praticamente impossível, exigindo, portanto, um “designer”.

Esse tipo de argumento impressiona quem não está habituado a analisar premissas lógicas ou raciocínios probabilísticos. Afinal, números enormes dão uma aparência de rigor científico. Mas um raciocínio, mesmo um que lança mão das ferramentas da matemática, nunca pode ser melhor do que as premissas que o sustentam. E aqui elas são profundamente equivocadas. Aliás, a própria pergunta motivadora foi mal elaborada.

E isso nos leva ao primeiro erro: química não é aleatória. O documentário parte da ideia de que reações químicas ocorrem puramente ao acaso. Isso é simplesmente falso. Qualquer químico acharia essa afirmação estranha. O choque entre partículas pode ser estocástico, mas as ligações químicas possíveis, as reações e os produtos formados não são aleatórios: seguem leis físicas e químicas bem definidas.

Segundo erro: ninguém propõe proteínas grandes na origem da vida. O documentário presume uma proteína composta por cerca de 150 aminoácidos, tratada como uma “proteína pequena”. Isso é um absurdo completo. Não existe nenhuma hipótese científica séria que proponha que a vida tenha começado com proteínas desse tamanho. Na verdade, há evidências de que peptídeos muito menores podem ter funções biológicas, inclusive com menos de 20 aminoácidos, alguns com pouco mais de dez. Além disso, a hipótese mais aceita hoje nem sequer coloca as proteínas como protagonistas iniciais da origem da vida.

Terceiro erro: ignorar que o improvável ocorre o tempo todo, só depende de como a conta é feita!

Esse erro é o que o matemático Jason Rosenhouse chamou de “Argumento Básico da Improbabilidade” (ABI). Há diversas variações desse argumento, mas a estrutura é a mesma, como Rosenhouse resume em seu livro The Failures of Mathematical Anti-Evolutionism (2022):

1. Identifique uma estrutura biológica complexa, como um gene ou uma proteína específica.

2. Modele sua evolução como um processo aleatório de um único elemento dentro de um espaço muito grande de possibilidades igualmente prováveis.

3. Use combinatória elementar para determinar o tamanho desse espaço, que chamaremos de S.

4. Conclua que a probabilidade de a estrutura ter evoluído ao acaso é 1/S e afirme que esse valor é pequeno demais para que a evolução seja plausível.

O que essa estrutura argumentativa não leva em conta é que as proteínas (ou qualquer outra molécula de interesse biológico) não evoluem assim, aleatoriamente. Na verdade, há toda uma cadeia de descendência com modificação. Ou seja, uma proteína descendente herda grande parte da estrutura de sua ancestral. Ela não vai crescendo via incorporação de novos aminoácidos ao acaso. Isso significa que a estrutura atual limita o espaço (S) das proteínas plausíveis no futuro próximo, aquelas que podem ser alcançadas por pequenos passos evolutivos sucessivos.

O argumento também ignora algo que, dificilmente, deveria ser deixado de fora da discussão: a seleção natural. Como Rosenhouse enfatiza:

A seleção natural, então, garantirá que as melhorias tenham maior probabilidade de serem representadas nas gerações futuras do que as proteínas prejudiciais. Em termos matemáticos, poderíamos dizer que o efeito da seleção é deslocar dramaticamente a distribuição de probabilidades em direção às proteínas favoráveis, e para longe das nocivas. Se houver um caminho de melhoria contínua ligando a proteína rudimentar ao seu descendente moderno, então a seleção natural preservará o progresso ao longo desse caminho.

Nesse momento, cabe uma analogia apetitosa, adaptada do livro de Rosenhouse. Suponha que você e um amigo resolvem dar um passeio pelo centro de uma cidade grande. Num determinado momento, bate aquela fome. Que tal uma bela fatia de pizza? Vocês se olham, escolhem uma direção e zarpam. Depois de algum tempo caminhando, finalmente encontram uma pizzaria. Seu amigo, que é criacionista, faz o seguinte comentário: “Impressionante! A superfície da Terra é imensa, e a maior parte dela não tem pizzarias. Mesmo assim, acabamos encontrando justamente um dos raros pontos do planeta onde existe uma. Como algo tão improvável pode ser explicado?”.

A essa altura, você já percebeu o erro de lógica. Embora pizzarias ocupem uma ínfima fração total da superfície da Terra, na verdade a totalidade da superfície é irrelevante para a questão de encontrar uma pizzaria: afinal, você está numa cidade grande, e só precisa procurar nela, e ainda perto da sua localização. É simplesmente desnecessário procurar pela pizzaria em toda a superfície da Terra. Ainda assim, é exatamente esse tipo de lógica que o ABI assume para, em tom triunfante, dizer: “e assim refuta-se a evolução das espécies!”.

Assim como seu amigo criacionista não deve procurar pizzarias por toda a superfície do globo (assumindo que ele não seja, também, terraplanista), a evolução não precisa vasculhar o espaço amostral de todas as proteínas possíveis!

E voltando ao que talvez seja o erro mais crucial do ABI: ignorar que eventos improváveis ocorrem o tempo inteiro.

Pense no futuro. Se aceitarmos a ideia de que eventos de probabilidade extremamente baixa são impossíveis, então nenhum futuro específico poderia jamais acontecer (um absurdo, evidentemente!). O estado exato do mundo daqui a um minuto, daqui a uma hora ou daqui a cem anos é o resultado de uma combinação colossal de variáveis: posições de todas as moléculas do ar, decisões humanas, mutações, acidentes, flutuações físicas. A probabilidade de este futuro específico ocorrer, e não qualquer outro entre trilhões de alternativas possíveis, é astronomicamente pequena.

Ainda assim, algum futuro inevitavelmente acontece. É aí que está a chave do negócio!

O erro está em olhar para um resultado depois que ele ocorreu e tratá-lo como se tivesse sido um alvo previamente definido. Mas o futuro não é escolhido dentre infinitas possibilidades para alcançar um estado específico; ele simplesmente acontece, passo a passo, seguindo as restrições físicas e causais do mundo. A improbabilidade só aparece no retrovisor.

Da mesma forma, na evolução, não havia um “alvo” pré-estabelecido: nenhuma proteína específica, nenhum organismo final planejado; havia, sim, caminhos mais prováveis do que outros, algo que o ABI ignora por completo. O que existiu foi uma sequência contínua de estados possíveis, em que cada passo era condicionado pelo anterior, e onde a seleção natural preservava o que funcionava melhor naquele contexto, assim restringindo as possibilidades totais.

Portanto, dizer que algo não poderia ter ocorrido porque era improvável é cometer o mesmo erro lógico que dizer que o futuro não pode existir porque qualquer futuro específico tem probabilidade quase zero. Se aceitássemos o raciocínio do ABI, não apenas a evolução seria impossível, mas a própria existência do presente e do futuro, também. Isso é, obviamente, um absurdo.

No fim das contas, o ABI nada mais é do que um produto direto de modelagem ruim. Apesar da aura sofisticada que pode passar para alguns (“meu Deus, um argumento matemático!”), não passa de um espantalho. É muito fácil partir de uma pergunta mal formulada, premissas absurdas, atribuí-las (erroneamente) aos evolucionistas e então derivar o que implicitamente já se assumiu: que a evolução é impossível. Difícil mesmo é discutir a realidade! Mas quem se interessa pelo que é real, quando narrativas estão tão na moda?

João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade

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