A falha fatal do design inteligente

Artigo
31 mar 2025
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Detalhe do teto da Capela Sistina

 

No cerne do debate “criação vs evolução”, uma assimetria sempre me incomodou. Para ser convencido, um criacionista exige o mais alto (ou mesmo impossível) padrão de evidência. Por exemplo, segundo eles há estruturas que são irredutivelmente complexas, que não poderiam evoluir por seleção natural. Quando apontamos o erro na lógica do argumento, não raro os criacionistas se voltam para a pergunta: mas onde está um exemplo de que isso tenha acontecido? Eles querem saber mecanisticamente como é possível. Não basta dizer que “é resultado da evolução”, eles (supostamente) querem saber como é possível.

Agora, considere esse argumento a favor do Design Inteligente. Aliás, é o argumento tal como defendido por Stephen C. Meyer em seu livro “Signature in the Cell: DNA and the Evidence for Intelligent Design”.

Premissa Um: Apesar de uma busca minuciosa, nenhuma causa material foi descoberta que demonstre a capacidade de produzir grandes quantidades de informação especificada. 

Premissa Dois: Causas inteligentes demonstraram a capacidade de produzir grandes quantidades de informação especificada. 

Conclusão: O design inteligente constitui a melhor explicação, e a mais adequada do ponto de vista causal, para a informação presente na célula.

Há problemas nas premissas. Primeiro, a validade da primeira premissa é contexto-dependente; é possível que você simplesmente não conceba uma causa material, ou não concorde com as causas materiais propostas. Segundo, sim, causas inteligentes são capazes de produzir grande quantidades de informação (não vamos discutir a “informação especificada”). Porém, há uma diferença entre as causas inteligentes que conhecemos e o suposto designer: nós sabemos como causas inteligentes produzem informação. Agora, quem garante que os mecanismos subjacentes à produção de informação por agentes inteligentes (conhecidos) são equivalentes aos mecanismos empregados pelo designer?

Claro, um criacionista dirá que não importa muito qual seja o mecanismo, o que importa é que a hipótese do design se demonstra superior à hipótese naturalista. E é aí onde reside minha frustração. Não sou o único infeliz com essa assimetria. O filósofo ateísta Jeffrey Jay Lowder (que ganhou atenção dos criacionistas ao dizer que o DI não é um “Deus-das-lacunas”) também já expressou o mesmo sentimento em seus comentários sobre o livro de Meyer:

“A objeção que tenho em mente é a seguinte: a hipótese do design não é uma explicação porque, bem, ela não explica. No que diz respeito à origem da informação biológica, ainda não está claro para mim qual é, exatamente, a explicação por design que Meyer propõe. Não encontro no livro uma descrição de como um designer inteligente criou / projetou / programou — não sei qual é o verbo correto — a primeira informação biológica. Para explicar a informação biológica, não basta simplesmente postular a existência de um designer inteligente como uma causa potencial dessa informação. Além disso, parece-me que uma explicação por design também deve incluir uma descrição do mecanismo utilizado pelo designer para projetar e construir a coisa. Em outras palavras, para que o design explique algo, precisamos saber como o designer o projetou. Se não sabemos, ou nem sequer temos uma pista de como o designer fez isso, então não temos uma explicação por design”.

É isso! É extremamente frustrante que o argumento defendido pelos “evolucionistas” tenha que ser munido de mecanismos, enquanto os criacionistas podem simplesmente ficar com a tarefa de construir um argumento que faça a hipótese do DI soar melhor que a naturalista. É tão absurdo quanto o seguinte:

1 – Os seres vivos exibem características funcionais complexas.

2 – A evolução é capaz de produzir características complexas.

3 – Então a evolução produziu as características complexas que vemos nos seres vivos.

Se a gente não explicar como a evolução é capaz, então, no fim das contas, não estamos explicando nada! Torna-se um “foi a evolução que fez” tão ridículo quanto “foi Deus quem fez”. Concordo que uma coisa é atribuir causa, outra é elucidar o mecanismo. Contudo, o jogo fica muito fácil para os criacionistas quando eles só têm de reafirmar o que já acreditam, sem ter que explicar nada de fato. Pergunte a um criacionista: como o designer engendrou os seres vivos?

Essa pergunta é importante. Elucidar os mecanismos deveria ser um dos principais objetivos do criacionismo, se quisesse de fato fazer ciência (não quer!). Quando um mecanismo é proposto, podemos postular hipóteses com base nas particularidades do mecanismo e conferir se o mecanismo proposto é consistente com o observado no mundo real. Digamos que o mecanismo que o designer utilizou foi algo como “engenharia genética”. Que tipo de fenômeno ou fatos devemos observar, se esse mecanismo foi empregado consistentemente? Só raramente os criacionistas tentam pensar assim. A razão é muito simples: isso tornaria ainda mais fácil refutá-los.

Mas tudo bem, não dá pra esperar muito de quem vive de requentar restos de argumentos já destroçados. Mesmo se formos gentis e não quisermos nada além de uma causa, sem explicação de como funciona, ainda assim o argumento do DI não posse ser tido como melhor do que o evolutivo. A razão, como demonstra Lowder, é a seguinte:

“Mas se a hipótese do design inteligente de Meyer é incompleta dessa forma, segue-se que ela não é (ainda, de qualquer modo) uma explicação. E, portanto, ainda não pode ser a melhor explicação. Na verdade, para simplificar as coisas, suponha que nos fossem oferecidas apenas as duas opções a seguir: 

(1) A informação biológica nas células é o resultado de um mecanismo naturalista (não direcionado) desconhecido. 

(2) A informação biológica nas células é o resultado de um mecanismo teísta (direcionado) desconhecido. 

Não é nada óbvio que (2) seja uma explicação melhor do que (1). Talvez Meyer pudesse responder que (2) é uma explicação melhor do que (1) à luz do nosso conhecimento prévio de que a "criação de nova informação está habitualmente associada à atividade consciente." Mas mesmo que concedamos isso, apenas para fins de argumento, existem outros fatos que pesam contra uma explicação teísta por design”.

Se o DI quer mesmo abordar a questão do ponto de vista científico então, para discernir 1 de 2, a questão fundamental do DI, que eles postulem mecanismos.

 

João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente Doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade

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