Como sabemos que transgênicos são seguros?

22 nov 2018
Questionador questionado
Vacas comem ração em fazenda nos Estados Unidos, onde a maior parte da alimentação animal é baseada em OGMs
Nos EUA, a maior parte da alimentação animal é baseada em transgênicos

A evidência científica acumulada nas últimas décadas é bem clara quanto à segurança dos alimentos transgênicos, produzidos a partir de organismos geneticamente modificados (OGMs). Em 2013, um grupo de cientistas italianos publicou um extenso estudo sobre o assunto. Os autores analisaram 1.783 trabalhos sobre segurança e impactos ambientais de transgênicos, de 2002 a 2012, e não encontraram um único trabalho que demonstrasse que OGMs prejudicam a saúde humana ou animal.

Em 2014, outro estudo analisou 29 anos de uso de transgênicos na pecuária e na saúde animal, antes e depois da introdução de OGMs na ração. Isso representa dados de 100 bilhões de animais, desde antes de termos ração geneticamente modificada, e após a introdução da ração modificada, já com  90% de ração transgênica. Não houve nenhuma diferença na saúde animal.

O trabalho mais abrangente realizado sobre segurança de alimentos transgênicos foi feito pela Academia Americana de Ciências, Engenharia e Medicina, e a conclusão foi inequívoca: após examinar centenas de trabalhos sobre segurança alimentar de OGMs, ouvir testemunhos de ativistas e levar em consideração centenas de comentários do público em geral, a Academia não encontrou nenhuma evidência de que alimentos transgênicos sejam diferentes de alimentos não transgênicos.

Este estudo também comparou dados de saúde pública dos EUA, onde grande parte dos cultivares são transgênicos, com o Reino Unido, onde quase não há OGMs no mercado. Não foi encontrada nenhuma diferença nos índices de câncer, autismo, alergias, doença celíaca, diabetes ou obesidade.

Ora, se transgênicos realmente causassem câncer ou qualquer uma dessas condições alegadas, será que não estaríamos diante de verdadeiras epidemias de câncer, autismo e alergias nos bilhões de animais alimentados quase que exclusivamente com ração transgênica? Na população dos EUA, em comparação com o Reino Unido?

Além de determinar que os OGMs são seguros, evidências científicas mostram que esses organismos também são mais eficientes, requerem menos água e menos terra, e menos defensivos agrícolas. Não há como garantir a produção apenas com agricultura familiar e orgânica, que acabaria por usar mais recursos naturais, e com um custo muito maior.


Causas do temor

Por que tanto medo de alimentos transgênicos? Quando fiz essa pergunta em uma roda de amigos, entre todos os medos mais comuns - não temos testes suficientes, não sabemos o efeito a longo prazo, ouvi dizer que causa câncer- uma resposta parecia resumir tudo: “porque eu acho que quanto menos mexer, melhor”!

Aquele “quanto menos mexer” expressava perfeitamente o nosso medo do desconhecido, e o mito do alimento natural. Desde a revolução industrial e o crescimento galopante da urbanização, o homem moderno distanciou-se tanto do campo que já não faz ideia de como funciona a agricultura. Assim, romantiza que seria possível viver do que a terra dá, com pequenas produções familiares, esquecendo que não há família que chegue para trabalhar a terra de maneira a alimentar 8 bilhões de pessoas. E a terra já não dá nada que não tenha sido manipulado, selecionado, e modificado geneticamente.

Um dia fomos coletores-caçadores nômades. Nessa época, há mais de 10 mil anos, vivíamos literalmente do que a terra dava. Tudo o que consumíamos era “natural”, no sentido de inalterado pela ação humana. Não se sabe exatamente como e quando começamos a domesticar plantas e animais. Mas, certamente, quase nada do que consumimos hoje pode ser considerado selvagem. Nenhuma das nossas principais culturas (arroz, milho, soja, trigo, algodão) cresce livremente na natureza, nem é capaz de sobreviver sem a interferência humana.


Manipulação genética à moda antiga

Da mesma maneira que domesticamos animais, selecionando características que consideramos atraentes, também domesticamos plantas. Pense nas raças de cães. Todas foram obtidas por um mecanismo chamado “seleção artificial”. Nós aproveitamos mutações espontâneas dos cães, e cruzamos os animais portadores dessas características.

Pintura pré-histórica encontrada em caverna francesa
Manipulação genética é quase tão antiga quanto a humanidade

Assim, vamos supor que de repente, em uma ninhada, surge um cãozinho todo branco. Nós achamos bonito, e tivemos a sorte de ter outro branco em outra ninhada. Cruzamos esses dois exemplares – somos muito sortudos, era um casal – e a ninhada é quase toda de filhotes brancos. Vamos cruzando os filhotes brancos entre si, até obter uma nova linhagem onde todos os cães são sempre brancos. Esses cães podem ser úteis para pastorear ovelhas, pois ficam camuflados entre elas. Ou são simplesmente belos e servem para cães de companhia. Todas as raças de cães foram selecionadas porque apresentavam alguma característica de interesse para nós, humanos.

Assim também ocorreu na agricultura e na domesticação de plantas. Desde que deixamos de ser caçadores-coletores nômades – quando realmente vivíamos do que a terra dava – começamos a nos estabelecer em comunidades, e  a praticar a agricultura. E foi neste momento, há mais de dez mil anos, que iniciamos um caminho sem volta: começamos a interferir na natureza. O “quanto menos mexer melhor” já morreu aqui.

O trigo selvagem apresenta sementes na ponta do caule. O caule se quebra facilmente e as sementes se estilhaçam no solo. Isso é fruto de seleção natural, e favorece a reprodução da planta. Uma mutação que impeça que a semente caia no chão não favorece a planta, mas certamente favorece o agricultor, que pode pegar a semente e plantar onde quiser. Isso foi uma vantagem para o nosso caçador-coletor, que resolveu se fixar em um pedaço de terra. Agora, ele podia escolher onde as sementes iam germinar. E assim também poderia escolher plantas mais baixas e fáceis de colher, mais suculentas, mais saborosas, mais coloridas. Surgem as plantas domésticas, e também os primeiros animais de criação.

Com o tempo, a seleção artificial foi  sendo aperfeiçoada e conquistando novas técnicas. Logo, nossos agricultores perceberam que podiam manipular cruzamentos de plantas e criar híbridos, com características de ambas as plantas “parentais”, os pais da nova plantinha. Essa técnica, chamada de hibridização, nada mais é do que uma polinização forçada. O agricultor escolhe qual planta vai receber pólen. Isso é algo que não aconteceria na natureza. Só ocorre com intervenção humana.

Esses híbridos muitas vezes traziam grandes vantagens em relação às linhagens parentais: eram maiores, mais bonitos, davam mais frutos, eram resistentes às pragas da plantação ou à seca. O híbrido normalmente não acontece espontaneamente na natureza, e suas sementes não são reutilizadas: hoje em dia, o agricultor compra as sementes todo ano. A semente produzida pelo híbrido não é estéril, mas as características desejadas pelo agricultor tendem a se perder com o replantio. Até a agricultura orgânica utiliza sementes híbridas, que precisam ser compradas a cada safra.

Com o tempo, os agricultores perceberam que ficar esperando mutações naturais espontâneas, e depois cruzar plantas com as características desejadas, demorava muito. E logo descobriram um jeito de dar uma mãozinha pra Mãe Natureza. Existem maneiras de induzir mutações em sementes, e obter assim uma variedade maior de plantas, com características diferentes que podem ser selecionadas.

Símbolo universal da radiação

Uma maneira simples de induzir mutação é com radiação gama. Outra, muito utilizada, é com um agente químico mutagênico chamado etil-metano sulfonato (EMS). É só dar um banho nas sementes, ou deixa-las expostas a raios gama, esperar germinar e ver os mutantes que aparecem. Se surgir um mutante mais saboroso, mais colorido, mais resistente a pragas, será selecionado. Muitos dos nossos cultivares modernos surgiram assim, e essa prática é utilizada também na agricultura orgânica.

O EMS e a radiação gama são mutagênicos, e podem causar câncer. Por isso, a manipulação dessas sementes deve ser feita com muito cuidado. Mas o consumidor final não precisa se preocupar, pois o produto cancerígeno não está presente no alimento que vai para a prateleira. É só uma técnica de obtenção de sementes. A FAO, organização a ONU que cuida de agricultura, registrou 3275 cultivares obtidos com essas técnicas nos últimos 40 anos.

Esses são apenas exemplos de técnicas mais antigas que manipulam geneticamente as plantas. Afinal, estamos falando de mutações, sejam elas naturais ou induzidas, que serão selecionadas. Mas nestes casos, reparem que não temos o menor controle sobre as mutações. Só enxergamos o resultado: as características de interesse. Não sabemos quais genes foram alterados. Quando selecionamos os cãezinhos brancos, por exemplo, mal sabíamos que selecionávamos também um gene de surdez, ou de propensão para doença de pele. O mesmo ocorreu com as plantas. Eram chutes no escuro.

Muitas vezes o chute dava muito certo. Nossa cenoura, por exemplo, é laranja simplesmente porque essa era a cor oficial da Coroa Holandesa. Antes, havia cenouras amarelas e roxas. Alguém um dia achou linda uma cenoura laranja, e selecionou esse cultivar porque tinha as cores da Holanda. E por muita sorte, esse cultivar era laranja porque era rico em beta-caroteno, que é um precursor de vitamina A!

Outras vezes, não dava tão certo. Houve uma vez em que um tipo de aipo (salsão) foi selecionado, e parecia muito promissor, era resistente a pragas. Mas esse aipo era resistente justamente porque apresentava uma quantidade aumentada de psoraleno, um composto tóxico para insetos. Infelizmente, os trabalhadores rurais que tiveram contato com esse cultivar desenvolveram severas alergias de pele, e o aipo resistente a insetos teve que ser aposentado.

Manuscrito medieval com ilustração de aipo

O mesmo aconteceu com uma batata hibrida que ficava mais crocante quando frita. Parecia fantástica, mas continha um alcaloide, um composto também tóxico, que causou indigestão em vários consumidores. A batata foi retirada do mercado. Esses produtos chegaram ao mercado porque não havia – e ainda não há – nenhum tipo de controle ou fiscalização para produtos obtidos por técnicas convencionais de modificação genética de plantas.
 

Entram os transgênicos

Tudo isso mudou quando desenvolvemos a técnica de transgenia. E afinal, o que é um produto transgênico, ou OGM (organismo geneticamente modificado)?

Um OGM é obtido pela introdução artificial, em laboratório, de um gene que não pertence normalmente àquela planta. Pode ser da mesma espécie, de outra espécie de planta, ou ainda de uma bactéria ou vírus.

Trocas gênicas entre espécies são comuns na natureza, acontecem o tempo todo. O genoma humano é repleto de genes que vieram originalmente de vírus e bactérias. A transgenia é uma técnica muito mais precisa do que as formas de modificação mais antigas: com ela, sabemos exatamente onde o DNA está mudando. Assim, reduzimos o risco de alguma mutação indesejada pegar carona junto com a que gostaríamos de preservar, como no caso da surdez dos cães ou da batata que fritava bem, mas dava dor de barriga.

Além disso, os produtos transgênicos são submetidos a diversos testes para certificar sua segurança alimentar, para a saúde humana e para o meio ambiente. Demora em média 10 anos para colocar um novo produto transgênico no mercado. As demais técnicas não são submetidas a testes tão rigorosos. Por isso, quando um OGM apresenta problemas, ele não chega ao mercado.

Sabendo agora que todas as plantas foram modificadas, e que a diferença está apenas na técnica utilizada, por que então o medo de OGMs? Talvez porque quase ninguém sabe que tudo o que comemos foi modificado, e porque também não sabem que já consomem produtos transgênicos há muito mais tempos do que imaginam.


Queijo e insulina

Bactérias geneticamente modificadas produzem insulina humana desde 1976. Sorte dos diabéticos, que antes disso precisavam utilizar insulina extraída do pâncreas de porcos ou vacas, que não é exatamente igual à humana e, por isso, com o passar dos anos, pode gerar intolerância e reações alérgicas.

A fabricação de queijo também utiliza OGMs. Nesse processo, uma proteína, a caseína, presente no soro, precisa ser “coalhada”. Para isso utilizamos uma molécula, a renina, que até 1990 era extraída do estômago de bezerros. Esses filhotes utilizam a renina do estômago para digerir o leite da mãe. Hoje, essa enzima é produzida por bactérias geneticamente modificadas, onde o gene que codifica para essa enzima foi clonado. Esse processo reduziu em 90% custo da obtenção da enzima, e tornou desnecessário o abate dos filhotes. Hormônio de crescimento é outro exemplo de um medicamento produzido em bactérias geneticamente modificadas. Muitas vacinas modernas também utilizam a tecnologia.

Não há razão científica para perpetuar o debate sobre segurança alimentar de OGMs. A “controvérsia” nessa área é tão falsa e artificial quanto a que grupos de interesse tentam insuflar em torno da realidade do aquecimento global, ou da segurança das vacinas. Após trabalhos extensos de revisão e análise de resultados, chegamos a algo chamado “consenso científico”. E esse consenso nos diz que mudanças climáticas são reais, vacinas são seguras e alimentos geneticamente modificados não apresentam qualquer risco à saúde humana.

 


Natalia Pasternak é pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, coordenadora nacional do festival de divulgação científica Pint of Science para o Brasil e presidente do Instituto Questão de Ciência

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