Por que céticos são malas na ficção?

6 jan 2019
Questão Nerd
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James Kirk interpela Deus
Um momento cético na carreira de James T. Kirk

A resposta mais simples poderia ser: “Porque a ficção reflete a realidade”. Mas tentemos ser um pouco mais caridosos, e vamos pensar em termos de estereótipos. Muita crítica já foi feita ao modo automático como certos grupos de pessoas são representados em obras da cultura de massa – a mulher que é Donzela Indefesa, o sujeito pobre que é Sábio e Por Isso Não Liga para Dinheiro, o Cientista Distraído, etc.

Nessas mesmas obras, o cético geralmente não só é o Cara que Está Errado, mas também o Cara Cuja Teimosia Atrai o Desastre.

Em histórias de invasão alienígena ou de vampiros, o cético geralmente é o personagem que adia perigosamente o reconhecimento da verdadeira natureza da ameaça – a Donzela Indefesa jamais teria sido vampirizada se o mala de óculos não tivesse desperdiçado tempo com suas tolas objeções racionalistas – ou um cúmplice ativo dos vilões: o sujeito que diz que não existem invasores alienígenas é um vassalo dos invasores alienígenas!

Essa visão do cético como quinta-coluna é muito explorada, por exemplo, na série de quadrinhos italiana Martin Mystère, que circula há mais de 30 anos e é, de certa forma, a “mãe” das sagas de conspirações de acobertamento do paranormal e do sobrenatural. Comparado a Mystère, o pessoal de Arquivo X não passa de um bando de amadores.

Ilustração de Martin Mystère
 Martin Mystère

Uma questão curiosa a se levantar é até que ponto o ceticismo é uma postura racional num universo de ficção onde alienígenas, vampiros e lobisomens são reais. Há um momento, nas narrativas baseadas nesses universos, em que a descrença do cético deixa de ser dúvida razoável e vira teimosia, ou puro dogmatismo.

Os fãs mais assíduos de quadrinhos da DC Comics talvez se lembrem do infame Dr. Terrence Thirteen, personagem cético que, nos anos 70, atormentava o Vingador Fantasma – um super-herói dotado de poderes mágicos e conexões sobrenaturais – por considerá-lo um charlatão. A capacidade de negação das evidências que o Dr. Thirteen apresenta é quase uma forma de distúrbio mental.

Dr Thirteen
Dr Thirteen, inconformado com os feitos do Vingador Fantasma

Outro exemplo dessa modalidade é o eterno sofredor Tony Vincenzo, editor do repórter Carl Kolchak nos filmes e série de TV (Kolchak: The Night Stalker, ou Demônios da Noite, no Brasil) em que o intrépido jornalista inevitavelmente se depara com alguma ameaça sobrenatural (no filme de estreia, um vampiro!) e acaba produzindo matérias sensacionais que Vincenzo se recusa a publicar.

 Talvez a coisa mais sobrenatural de toda a saga de Kolchak seja como o repórter consegue manter o emprego, já que tudo o que produz é rejeitado pela chefia!

O cético traidor, como no caso de alguns vilões de Arquivo X ou Martin Mystère não passa de um dissimulado, um falso cético.  Já o cético turrão é outra coisa – um soberbo, um arrogante, um louco ou um idiota.

Kolchak e seu editor
Kolchak (esq) tenta vender mais uma matéria incrível a Vincenzo

Mas nem sempre foi assim: em clássicos como As Bodas de Satã (filme dos Estúdios Hammer, baseado no romance The Devil Rides Out, de Dennis Wheatley, publicado originalmente nos anos 30), o cético é uma espécie de representante do público: alguém que precisa ser convencido – juntamente com a audiência – de que coisas como poderes satânicos realmente existem, antes que a história possa se desenrolar.

De porta de entrada ou ponto de contato com o público a alívio cômico ou antagonista – como o papel do cético na ficção popular pode ter mudado tanto? Uma explicação talvez seja a verdadeira barragem de filmes, livros e histórias em quadrinhos com temas mágicos, sobrenaturais ou ufológicos das últimas décadas.

Com isso, o público, agora já escolado na mitologia de monstros e alienígenas, não precisava mais do cético como guia. Pelo contrário, nessas condições, a figura começa a se tornar irritante: quantos minutos de filme vamos perder enquanto o herói explica o óbvio (“vampiros têm medo de alho”) a esse imbecil?

Capa de The Devil Rides Out

Outro fenômeno a considerar é a ascendência do movimento “New Age”, que normalizou uma série de crenças e visões de mundo que, pelo menos até os anos 70, não circulava pela cultura geral. Isso pode ter levado a uma transformação no estado fundamental do público: se antes chegavam ao cinema (ou ao livro, ou à série) predispostos a não levar a magia e o sobrenatural muito a sério, agora a disposição é outra.

A isso, soma-se a exploração de um sentimento difuso de anti-intelectualismo; pessoas que “pensam muito” não são confiáveis, gente “negativa” é ruim e deve ser evitada, etc. Exceção óbvia aqui são as histórias clássicas de crime, onde o protagonista é cético e o virtuosismo intelectual é exaltado.

É importante notar, no entanto, o fato de que esse tipo de narrativa tem caído muito em popularidade – mesmo as versões mais recentes de Sherlock Holmes tendem a chamar mais atenção para as peculiaridades de caráter e personalidade do detetive do que para seus poderes dedutivos.

Seria interessante desafiar criadores, escritores e roteiristas a tentar escapar dos estereótipos negativos do ceticismo. Que tal bolar histórias em que o cara que duvida e que exige uma explicação racional para tudo já não é um mala, como ainda por cima está certo e salva o dia?

O melhor momento do tipo, em minha memória, está no filme Star Trek V, quando James T. Kirk, ao encontrar um ser alienígena que se apresenta como o Criador Onipotente do Universo, e ainda assim exige uma carona a bordo da nave Enterprise, levanta a mão e pergunta, “Mas por que Deus precisa de uma espaçonave?"

Infelizmente, o filme, como um todo, é bem ruinzinho.

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