As raízes do “hype” da cloroquina

Questão de Fato
25 mar 2020
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Mosquito causador da malária
Perfil do Anopheles, mosquito transmissor da malária

 

Aos poucos, o otimismo gerado com o anúncio da hidroxicloroquina, um medicamento tradicionalmente usado contra a malária, como panaceia para a COVID-19 arrefece. Análises mais rigorosas do artigo publicado demonstraram que o teste clínico presentado na última semana tem falhas metodológicas graves e o processo de avaliação por pares não seguiu protocolos habituais, o que invalida a hipótese de que é possível afirmar que o tratamento proposto causou a (duvidosa) recuperação dos enfermos (detalhes aqui e aqui).

O anúncio do potencial curativo da droga por líderes e influenciadores levou a uma corrida às farmácias, o que não apenas desabasteceu o mercado para pessoas com doenças crônicas aliviadas pela hidroxicloriquina, como levou a automedicação que já ocasionou mortes. Visto que há muitos desdobramentos de larga escala no entorno desse novo tratamento, cabe investigar de maneira detalhada não apenas o rigor científico das alegações, mas também as pessoas-chave envolvidas.

De imediato um fato chama atenção. A notícia primeiro veio ao mundo via Twitter, em uma postagem de James Todaro, um médico mais conhecido por ser ligado a atividades com criptomoedas. Nela, há um link que direciona a um draft paper (isto é, um rascunho de proposta) de autoria do próprio Todaro e de Gregory Rigano, indicando a existência de um tratamento efetivo para COVID-19. 

Rigano, por sua vez, é um advogado cujo histórico profissional também remete a atividades ligadas a iniciativas em blockchain e criptomoedas e, o que é interessante, a apoio jurídico para testes clínicos e comercialização de fármacos. 

É no mínimo curioso, portanto, que Rigano, o líder do projeto CovidTrial, seja um profissional cujo principal ganha-pão é atuar no mercado de regulação e aprovação de fármacos (sua página no LikedIn menciona que ele já ofereceu serviços para transações dessa natureza com valor acumulado de mais de US$ 1 bilhão, em empresas e no governo).

Artigo da revista Wired, que resume bem o histórico dos fatos, menciona que relatos soltos sobre o uso de hidroxicloroquina para COVID-19 circulavam desde janeiro, com informações sobre testes clínicos usando a droga na China, que culminaram com uma revisão da literatura publicada em 4 de março pelo microbiologista e médico francês Didier Raoult (mais a seguir) e colegas. 

Rigano juntou as pontas, enxergou potencial na proposta e começou a redação do que se tornou o draft paper já mencionado, que, aliás, conta com todos os disclaimers legais sobre não comprometimento com o resultado da intervenção proposta – algo comum em produtos e tratamentos sem respaldo científico. Foram convidados como coautores Todaro, que menciona ter dado apenas um “toque clínico” ao documento, e um bioquímico aposentado chamado Tom Broker. Broker estava listado no texto original como vinculado a Stanford, apesar de estar há vários anos na Universidade do Alabama. Seu nome foi retirado do documento a pedido, indicando não ter credenciais acadêmicas para o tipo de estudo proposto, e não ter participado da redação.

Essa não é, contudo, a única controvérsia em relação ao apoio ao documento de Rigano e Broker. O draft paper menciona apoio consultivo da Stanford University School of Medicine, da UAB School of Medicine e da National Academy of Sciences dos EUA. Nenhuma dessas instituições confirmou envolvimento.

Acompanham Gregory Rigano no projeto, como consultores, o Dr. Chandra Duggirala, um autodenominado médico e inventor que também trabalha com iniciativas voltadas a blockchain e criptomoedas; e o já mencionado Dr. Didier Raoult, um médico francês especializado em doenças infecciosas. Foco especial necessário ao Dr. Raoult, vez que ele é o responsável pelo ensaio clínico (e primeiro autor do artigo) que está motivando os EUA a atropelarem a FDA (equivalente à Anvisa nos EUA) e o Brasil a forçar laboratórios do Exército a ampliar a produção de hidroxicloroquina.

Artigo do Irish Times, que chama o Dr. Raoult de “não ortodoxo”, menciona que o francês compartilha de certa arrogância, também característica de Trump e Bolsonaro. Ao jornal francês La Provence ele disse as seguintes frases: “Na minha área, sou uma estrela, mundialmente” e “Estou me lixando para o que pensam. Não sou um outsider. Estou muito à frente dos demais”. Há outra característica que Dr. Raoult compartilha com Trump e Bolsonaro – são todos negacionistas climáticos (aqui e aqui).

À parte disso, muito se tem dito sobre a ampla experiência e quantidade de publicações do Dr. Raoult, que chegaram a ser de 180 em um único ano – média de uma a cada dois dias. De fato, o perfil Google Scholar do pesquisador indica 147.968 citações e um índice-h de 175, um número que pode ser considerado excepcional, mesmo para um pesquisador sênior. De forma similar, ao se buscar seu perfil Web of Science na plataforma InCites, todos os seus perfis (não-consolidados) indicam um CNCI acima da média mundial. 

Trata-se, portanto, de um cientista experiente, com publicações reconhecidas por seus pares, apesar de haver suspeita sobre a capacidade de seu envolvimento direto em uma quantidade tão grande de publicações. Isso não quer dizer, contudo, que suas ações não devam estar sujeitas ao mesmo escrutínio que as de um cientista iniciante, e que suas alegações prescindam de evidências sólidas. Discurso de autoridade não tem lugar na ciência.

Retomando o supracitado artigo do Irish Times, “saberemos em duas semanas se o Prof. Didier Raoult, o virologista francês que encabeça o Instituto Mediterrâneo de Doenças Infecciosas e Tropicais de Marselha, será visto pela História como o homem que salvou o mundo da COVID-19, ou se será colocado de escanteio como um cientista arrogante e mal orientado que levantou falsas esperanças”. Aguardemos.

Paulo Almeida é Psicólogo, Advogado, Doutorando em Administração e Diretor do Instituto Questão de Ciência

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