Os fatos sobre o "Momo Challenge"

Questão de Fato
18 mar 2019
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Pânicos morais podem levar à perseguição e morte de inocentes
Pânicos morais podem levar à perseguição e morte de inocentes

As primeiras menções ao “Desafio Momo” que consegui encontrar na internet brasileira partiram do serviço em português da agência europeia Rádio França Internacional (RFI), publicadas em setembro de 2018. O tom, francamente alarmista, falava de pânicos disseminados na Índia, no Paquistão e no Canadá, e de mortes de menores de idade na América Latina, tudo induzido por uma figura sinistra que aliciava crianças pelo WhatsApp.

Uma leitura crítica do texto da RFI sugeria que a história deveria ser encarada com uma dose razoável de ceticismo: não só as alegações em torno de Momo soavam exageradas e desproporcionais (“extorsão, roubo de dados pessoais, assédio, mas também incitação à violência, autoflagelação ou até mesmo suicídio”), como o veículo francês ainda dava crédito ao Desafio da Baleia Azul, já universalmente desacreditado como um erro jornalístico, que evoluiu numa lenda urbana e, por fim, se multiplicou numa série de “hoaxes”, ou “pegadinhas” de mau-gosto.

O folclorista americano Benjamin Radford aponta, em artigo na revista Skeptical Inquirer, que o Desafio Momo parece, de fato, uma versão “reembalada” da Baleia Azul. Em ambos os casos, espalha-se o boato de que um personagem sinistro – uma baleia azul ou, no caso de Momo, um boneco criado por um artista plástico japonês – aparece para crianças nas redes sociais (Momo suspostamente “habita” o WhatsApp e o You Tube) fazendo ameaças ou “desafiando-as” a atos de automutilação ou suicídio.

A impressão de que tudo não passava de uma fraude se fortaleceu com o aumento da penetração da história de Momo no mundo de língua inglesa. Uma série de investigações, conduzidas por órgãos de imprensa como as revistas The Atlantic e Rolling Stone, e pelo jornal The Guardian, deixou claro que não havia substância na história do boneco feioso que supostamente tenta desencaminhar crianças. O Guardian cita ainda a ONG britânica Sociedade Nacional para a Prevenção da Crueldade contra Crianças (NSPCC, na sigla em inglês), que mantém uma série de ações para proteger menores na internet. A NSPCC apurou o caso e o declarou “fraude”.

Em seu artigo, Radford aponta que “parte da razão que dá credibilidade à história, para muitos pais e autoridades” é a realidade do cyberbullying e da exploração sexual de menores por predadores online. Não é difícil, aponta ele, materializar esses temores difusos em alguma grande conspiração imaginária.

Caso brasileiro

Lendas urbanas podem ser definidas como histórias chocantes, surpreendentes, ridículas ou assustadoras , mas curiosamente plausíveis – coisas que a intuição nos diz que poderiam ser verdade, por que não? No entanto, são histórias que sempre acontecem com o amigo de um amigo, com a namorada do primo de um colega de trabalho... Enfim, uma narrativa para a qual até há uma testemunha, só que fora de alcance.

Recentemente, no entanto, a revista Crescer publicou o que parece ser o relato de uma testemunha direta de Momo em ação.

Entretanto, mais uma vez, a leitura atenta do material mostra que não é bem isso o que  ocorre: temos um casal de pais que, informado do “perigo” por um grupo de WhatsApp, conversa com a filha, que conta ter tido contato com o “desafio”. O que a revista traz é a versão dos pais sobre o que a criança teria dito.

Depoimentos de crianças, ainda mais quando recebidos de segunda mão, precisam ser encarados com cuidado. Crianças pequenas, principalmente, às vezes misturam fantasia e realidade e podem muito facilmente ser induzidas a dizer o que os adultos esperam – ou até mesmo temem – ouvir, o que pode gerar consequências trágicas: uma onda de pânico moral contra “creches satânicas” tomou conta de parte dos Estados Unidos, nos anos 80, por conta de depoimentos “plantados” na mente de crianças impressionáveis por investigadores que não tinham ideia do que estavam fazendo. Não é que o testemunho infantil não tenha valor: mas requer cuidado extremo.

“Pânico moral" é o nome dado por cientistas sociais a situações em que a sociedade, ou uma parte da sociedade, é tomada por uma preocupação irracional e exagerada. Não são episódios  inócuos: além de desviar energia e atenção de assuntos realmente importantes, muitas vezes também põem em risco a vida de inocentes. Ano passado, dezenas de pessoas foram linchadas, na Índia, por conta de um pânico moral sobre abuso infantil, disseminado pelo WhatsApp.

Por tudo isso, a imprensa e as autoridades devem ser cautelosas ao lidar com boatos como os da Baleia Azul ou Momo. A atitude de passar o “aviso” adiante – de “melhor prevenir do que remediar” – é simples e confortável mas, como Radford, adverte, pode acabar causando mais mal do que bem.

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência

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