As vacinas que usam adenovírus contra COVID-19

Artigo
11 jan 2021
adenovirus

 

É de fazer Edward Jenner se revirar na tumba, mas 225 anos após ter criado a primeira vacina, ainda tem gente que acredita que vacinas feitas com adenovírus de chimpanzés vão fazer com que o vacinado desenvolva características de... chimpanzés! Jenner imunizou James, de 8 anos, e 23 outras pessoas contra a varíola inoculando-as com o pus das bolhas das mãos de ordenhadeiras que contraíam a varíola bovina, bem menos grave, e jamais pegavam a versão humana da doença, que matava 10% dos infectados. Na época, os jornais britânicos publicavam charges caçoando da ideia e assustando as pessoas, ora retratando vacinados com cabeça e patas de vaca, ora caçoando de quem tinha medo de se vacinar por causa da “possibilidade”.

Agora, em tempos de COVID-19, espalhou-se na Europa, e principalmente no Reino Unido, uma mensagem de WhatsApp alertando para o "risco" de a vacina da AstraZeneca, que usa adenovírus de chimpanzé, induzir “mutações” capazes de dar aos Homo sapiens características de seus primos Pan troglodytes. Alguns jornais ingleses especularam que a mensagem tinha sido disseminada pelos russos, que têm uma vacina contra COVID-19 bem semelhante, a Sputnik V, do Instituto Gamaleya, que, no entanto, usa um adenovírus humano.

Basta falar em mutação e material genético que muita gente treme nas bases e logo pensa em filmes B (ou C ou D) em que acontecem todos os tipos de desgraça. Os mais antigos podem lembrar de O Mundo em Perigo (Them!), em que explosões de bombas atômicas produzem formigas gigantes, os nem tão antigos pensam A Mosca, no remake estrelado por Jeff Goldblum, e os mais jovens no Homem-Aranha, em que Peter Parker é picado por uma aranha transgênica e vira super-herói. E embora o cinema tenha vários filmes que se passam em meio a surtos, pestes, epidemias e pandemias, em nenhum deles as vacinas aparecem como uma ameaça capaz de dizimar a Humanidade. Tem coisa que só passa pela cabeça de antivaxx.

 

Apresentando o adenovírus

Adenovírus são nossos velhos conhecidos, uma família imensa de vírus que infectam vertebrados, sendo que 88 deles atormentam seres humanos. De acordo com o professor Carlos Menck, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo, de 10% a 30% da população já teve alguma infecção por adenovírus. “Em algumas regiões do Oriente Médio, essa porcentagem pode chegar a 90%”, conta. E a maioria dessas infecções são “chatinhas”: resfriados, principalmente em crianças; conjuntivite e gastroenterites. Como muita gente já teve contato eles, muita gente já tem anticorpos contra eles.

Por enquanto, três vacinas contra a COVID-19 usam adenovírus atenuados como vetor, um veículo para introduzir no organismo uma proteína do SARS-CoV-2, a da espícula, para produzir resposta imunológica. A mais famosa é a da AstraZeneca/Oxford, que largou na frente no desenvolvimento logo no início da pandemia, mas cuja liberação atrasou após um teste com dados confusos que envolveu até um engano de dosagem. Ela pode estar chegando ao Brasil via Índia, após um apelo do presidente Jair Bolsonaro ao primeiro-ministro indiano Narendra Modi, que, no entanto, ainda não confirmou se vai ou não despachar 2 milhões de doses para cá. A produção da vacina pela Fiocruz só deve deslanchar em março.

Essa vacina, que usa um adenovírus de chimpanzé, é aplicada em duas doses. Outra que usa a mesma técnica é a russa Sputnik V, do Instituto Gamaleya, também aplicada em duas doses, mas que usa dois adenovírus diferentes, o AD5 – que é bem comum – na primeira dose e o AD26 – mais raro – na segunda. Os russos, que já vacinaram 1,5 milhão de pessoas, afirmam que a Sputinik V tem eficácia de 92%, mas ainda não há estudo publicado que confirme esse dado. É essa que os argentinos estão usando. A terceira é a vacina da Janssen/Johnson & Johnson, testada aqui no Brasil, que usa apenas o AD26 como vetor e tem uma vantagem: dose única.

Um vetor é apenas um suporte que entrega a substância de interesse para a célula, como se fosse um caminhão de entrega ou melhor ainda, que funciona como o “cavalo” num enxerto, para quem gosta de jardinagem: o que importa é a planta enxertada, não aquela que a sustenta. “Não é de hoje que adenovírus são usados como vetores, temos cerca de 20 anos de trabalhos com esses vírus”, explica Flávio Fonseca, professor do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal de Minas Gerais e presidente da Sociedade Brasileira de Virologia.

Os adenovírus chamaram atenção dos pesquisadores porque seu DNA não se integra ao genoma da célula infectada, e porque não se replica durante a divisão celular. Esses vírus vêm sendo usados em terapia genética e vacinas. “De início, ele chegou a ser usado inclusive no desenvolvimento de vacinas contra o HIV, mas como essas tentativas não foram bem sucedidas, essa estratégia foi abandonada por algum tempo”, conta Fonseca. Até que a tecnologia voltou a ser usada, alguns anos atrás, justamente pela Janssen para produção de uma vacina contra o ebola, que começou a ser testada em 2015 e finalmente foi aprovada nos Estados Unidos e Europa no ano passado.

De acordo com Fonseca, a estratégia de usar adenovírus como vetor já se mostrou segura, eficiente e está sendo usada também no desenvolvimento de vacinas contra a zika e a dengue, já iniciando testes clínicos.

 

Diferenças

O que o organismo humano "vê", quando recebe uma vacina de COVID-19 baseada em adenovírus, é um invasor que mistura características tanto do vírus vetor quanto do SARS-CoV-2. A resposta imune, portanto, pode gerar anticorpos tanto para as partes do vetor que têm cara de adenovírus quanto para as que têm jeito de causador de COVID-19. Em termos de controle da pandemia, só o segundo tipo realmente interessa. Segundo Carlos Menck, os diferentes adenovírus usados como vetores devem produzir diferentes respostas do sistema imune, e cada estratégia busca um equilíbrio entre resposta ao vetor e resposta ao SARS-CoV-2 que favoreça a segunda.

De acordo com Fonseca, uma das vantagens do uso dos adenovírus como vetores é que eles são altamente imunogênicos, isto é, produzem uma resposta forte. Além disso, são fáceis de produzir. Pesquisadores discutem formas de aumentar a eficiência dessas vacinas, por meio de combinações de diferentes adenovírus e variação de dosagens, mas isso não é para agora. O que é importante agora é que o arsenal de vacinas contra a COVID-19 vai ter mais três armas no curto prazo.

Vale lembrar que até agora – desde 8 de dezembro, quando começou a vacinação no Reino Unido – 26 milhões de pessoas em todo o mundo já foram vacinadas contra a COVID-19 e, ao contrário do que os antivaxx teimam em dizer, ninguém morreu, virou jacaré ou chimpanzé, teve doença grave por causa da vacina, embora uma dúzia de pessoas tenha tido reações alérgicas. A despeito de o presidente Bolsonaro insistir em destacar os possíveis efeitos colaterais “graves” que as vacinas possam causar, e que as pessoas deveriam ser alertadas para eles e questionadas se querem tomar vacina mesmo assim, os efeitos colaterais mais comuns das vacinas contra a COVID-19 são os mesmos das vacinas que conhecemos há décadas: febrícola e dor no local da aplicação.

Ruth Helena Bellinghini é jornalista, especializada em ciências e saúde e editora-assistente da Revista Questão de Ciência. Foi bolsista do Marine Biological Lab (Mass., EUA) na área de Embriologia e Knight Fellow (2002-2003) do Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde seguiu programas nas áreas de Genética, Bioquímica e Câncer, entre outros

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