Para conter a epidemia de desinformação sobre vacinas

Artigo
4 jan 2021
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vacina

 

Em 2020, o que mais me assustou não foi a pandemia, mas algo que está se espalhando na mesma velocidade que a COVID-19: o pensamento negacionista e anticientífico - principalmente no que tange ao movimento antivacina – que está, infelizmente, em ascensão no Brasil, colocando vidas em jogo e dificultando até a logística de imunização individual e coletiva, em futuras campanhas de vacinação.

Quando pequeno, sempre ouvia minha mãe falando do maior orgulho dela: de ter completado o meu cartão de vacinação. Ela também fez questão – e ainda faz – de me acompanhar e me cobrar as doses de reforço, mesmo eu sendo um adulto formado.

Entretanto, as vacinas, de um dia para o outro, passaram de motivo de orgulho dos pais e cuidadores, para uma ameaçadora ferramenta que pode até mesmo “mudar seu DNA”, como acreditam alguns negacionistas. Algumas vacinas ganharam até mesmo alcunhas pejorativas – como a “vachina”, apelido que os negacionistas deram à CoronaVac, vacina produzida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac Biotech.

Além disso, na contramão das medidas de isolamento social e distanciamento, os adeptos ao movimento antivacina organizam periodicamente manifestações, como as que ocorreram no último dia 22 de dezembro em algumas capitais do país, cuja pautas incluíam a não obrigatoriedade da vacina e pedidos de “não ao lockdown”, lembrando o episódio da Revolta da Vacina, ocorrido em 1904 no Rio de Janeiro, onde manifestantes foram às ruas em protesto, principalmente, contra a obrigatoriedade da vacinação da varíola.

 

Como tudo começou

O fato é que, um século depois, o movimento antivacina ressurgiu em escala global. Em 1998, por meio de uma pesquisa fraudulenta encabeçada pelo médico britânico Andrew Makefield, que, na época, alegou que existia uma relação entre a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) com o autismo. Anos depois, no entanto, descobriu-se que ao conduzir o estudo, publicado na revista The Lancet, o médico utilizou de dados falsos e alterou informações sobre pacientes. Descobriu-se, também, que Wakefield estava envolvido com advogados que queriam lucrar em cima dos fabricantes do imunizante, abrindo processos com pedidos de indenização.  Porém, o estrago já estava feito. O movimento antivacina atual, inclusive, ainda cita o artigo, formalmente removido da literatura científica em 2010, como base para seus argumentos mirabolantes.

Em tempos de Pós-Verdade, muitas pessoas preferem acreditar em fake news, em alegações extraordinárias ou em mensagens virais, e desacreditam na ciência e em seus métodos. A facilidade de comunicação trazida pela internet é uma faca de dois gumes: traz também uma facilidade de desinformação. Além disso, a internet permite que propagadores de teorias de conspiração contra vacinas lucrem com suas fantasias, por meio de vídeos monetizados e da venda de livros, o que gera mais um incentivo para a disseminação de informação falsa.

Em 2019, quase que prevendo o que iria acontecer, a Organização Mundial da Saúde (OMS) listou uma série de grandes ameaças à saúde pública, e a hesitação ou o medo das vacinas estava ali.

Geralmente, os discursos antivacina têm uma característica que os filósofos e psicólogos chamam de falácia post hoc ergo propter hoc ("depois disso, logo, causado por isso"). Ou seja, os antivacinas criam correlações que não existem, como o caso do autismo que citei acima: a vacina tríplice viral é administrada aos 12 meses, período em que também podem aparecer os primeiros sintomas do autismo. Esta coincidência fez com que algumas pessoas relacionassem o autismo à vacina. E a ideia rapidamente se espalhou.

Outras associações semelhantes (e já desmentidas pela comunidade científica) também são feitas, como a ligação entre as vacinas e a asma, aborto e alergias.

Recentemente, circulou nas redes sociais um vídeo que mostra a enfermeira Tiffany Dover desmaiando após receber uma dose da vacina da Pfizer contra a COVID-19.  “Tiffany Dover, enfermeira que passou mal ao tomar a vacina ao vivo nos EUA veio a óbito”, dizia um dos textos que legendavam uma imagem da enfermeira, que viralizou no Facebook. Mas uma rápida pesquisa permite descobrir que a enfermeira está viva. Em uma entrevista coletiva, após a repercussão o caso, Tiffany explica que possui histórico de hipersensibilidade e costuma desmaiar com qualquer dor. Como explica o Center for Disease Control and Prevention (CDC), é relativamente comum ocorrerem episódios de desmaios após uma pessoa receber uma dose de vacina. Isso pode vir de inúmeras causas que nada têm a ver com o imunizante em si – incluindo nervosismo, ansiedade, medo de picadas, de agulhas –, todas condições que tendem a se agravar num ambiente onde o medo e a desconfiança em relação a vacinas correm soltos.

 

Os antivacinas no Brasil

O fato é que, em 2020, o movimento antivacina – que já estava no Brasil há alguns anos devido, principalmente, à polarização político-ideológica recente – acabou ganhando força com a pandemia e a urgência de uma vacina. Pessoas começaram a se informar pelas redes sociais, e o pior - pessoas que carregam autoridade (políticos, médicos e até mesmo certos cientistas) começaram a questionar o processo pelo qual vacinas são feitas. O próprio chefe do Executivo, o presidente Jair Bolsonaro, já se pronunciou publicamente falando que não vai tomar qualquer vacina, indo na contramão de grandes líderes que estão dando exemplos positivos, como Joe Biden, presidente eleito dos Estados Unidos, que recebeu sua primeira dose diante das câmeras.

Outra característica dos antivacinas, além da desconfiança na ciência – e a ignorância a respeito de seus métodos –, é a falta de confiança na imprensa e na mídia digital. É comum observarmos reações e comentários negativos quando um veículo de comunicação publica alguma notícia com a temática da vacina da COVID-19.

A falta de informação sobre o método científico também se reflete, durante essa pandemia, no debate em torno do uso de medicamentos como a cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina e nitazonaxida (annita), que não têm evidências científicas de eficácia em humanos para tratar da COVID-19 - e que, inclusive, podem causar efeitos adversos -, mas que são amplamente utilizados, defendidos e cultuados pelos mesmos que não aceitam vacinas comprovadas cientificamente. Fake News, ideologias políticas, ignorância científica e discursos de pessoas influentes contra as vacinas. Tudo isso acaba alimentando a resistência à imunização, e isso impacta diretamente na saúde pública como um todo.  

 

Negacionismo em números

Uma pesquisa realizada pelo DataFolha, que entrevistou 2.016 brasileiros de todas as regiões do país, entre os dias 08 e 10 de dezembro, aponta um crescimento do número de pessoas que não irá se vacinar. O estudo aponta que 22% desses entrevistados não pretendem tomar qualquer dose de vacina contra o SARS-CoV-2. A pesquisa ainda descobriu uma relação entre os discursos do presidente Jair Bolsonaro com a expectativa de se vacinar ou não: 33% dos brasileiros que se dizem contra as vacinas confiam no presidente. Este número cai para 16% para os que desejam se vacinar. Na pesquisa anterior, realizada em agosto, apenas 9% dos entrevistados se mostraram contra a vacinação.

Os números preocupam, pois, mesmo depois de mais de 190.000 mortes por COVID-19, as pessoas parecem não conhecer a dimensão de uma pandemia, e que apenas uma vacina poderá fazer o mundo voltar ao novo normal. Além disso, segundo a OMS, é preciso que 60% a 70% da população do planeta seja imunizada para que a rotina volte à normalidade, e o micro-organismo (SARS-CoV-2) seja controlado. 

Como divulgador científico, jamais imaginei que sentiria saudades do movimento terraplanista que, apesar de ser anticientífico, é inofensivo e não causa mortes em massa e não ameaça a saúde pública como o movimento antivacina. Todavia, é também na divulgação científica que talvez consigamos combater os antivacinas e passar a mensagem para que as pessoas confiem mais na ciência, vacinem-se, e contribuam para um mundo sem negacionismo.

 

Felipe Sérvulo é mestre em Cosmologia pela UFCG, graduado em Física pela UEPB, professor de Física da rede estadual de ensino da Paraíba, divulgador científico e membro da Sociedade Astronômica Brasileira

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