A sedução de Vênus

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22 set 2020
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radiotelescópio

 

Nossa história começa em 9 de setembro. Então, a venerável Real Sociedade Astronômica do Reino Unido (RAS) enviou convite para jornalistas participarem de reunião online na segunda-feira seguinte, 14, na qual cientistas ligados à instituição iriam “discutir um resultado pioneiro em astronomia” a ser publicado naquele mesmo dia na revista “Nature Astronomy”. Logo, boatos sobre o tema da coletiva começaram a correr na comunidade científica e imprensa especializada, e apesar dos esforços dos responsáveis e o compromisso de sigilo dos profissionais de imprensa que tiveram acesso prévio ao estudo, não tardou a vazar: a descoberta de “sinais de vida” em Vênus, na forma de fosfina em sua alta atmosfera.

Molécula formada por um átomo de fósforo e três de hidrogênio (PH3), este composto malcheiroso e tóxico para humanos é associado a atividade microbiana na Terra. Não que a fosfina só seja resultado de ação biológica: ela já havia sido detectada em Júpiter e Saturno, produto de reações energéticas nas turbulentas atmosferas, ricas em hidrogênio, destes gigantes gasosos. Mas, em planetas rochosos como o nosso - e seu “irmão”, Vênus -, sua presença já havia sido proposta como potencial “bioassinatura”, um indicador sugestivo de vida, nas pesquisas dos chamados exoplanetas, mundos muito distantes que orbitam estrelas que não nosso Sol.

Qual não foi a surpresa, então, quando a astrônoma Jane Greaves encontrou-a bem na nossa esquina no Sistema Solar? Investigando justamente a capacidade de equipamentos atuais e futuros de detectar fosfina e outras sugeridas bioassinaturas, como oxigênio livre e metano, na atmosfera de mundos longínquos, a pesquisadora da Universidade de Cardiff, no Reino Unido, apontou a antena de 15 metros do Telescópio James Clerk Maxwell (JCMT), no Havaí, para Vênus, em uma série de cinco observações, em junho de 2017. Analisando os dados na faixa submilimérica, ela encontrou o que pareciam ser marcas no espectro de luz indicativas da presença da molécula nas nuvens venusianas.

“Foi um experimento feito por pura curiosidade na verdade – aproveitar a poderosa tecnologia do JCMT e pensar sobre futuros instrumentos”, contou Greaves, em comunicado distribuído pela RAS. “Achava que íamos só descartar cenários extremos, como nuvens lotadas de organismos. Quando obtivemos os primeiros sinais de fosfina no espectro de Vênus, foi um choque”.

Munida com estes dados, Greaves solicitou tempo de uso do ALMA, mais poderoso observatório submilimétrico do planeta, formado por 66 antenas instaladas no topo de um planalto no Deserto do Atacama, Chile. Mais sensíveis que o JCMT, em março do ano passado 45 das antenas do ALMA, trabalhando em conjunto, detectaram uma aparente assinatura no espectro da atmosfera de Vênus compatível com a presença de fosfina, reforçando o achado. Mas não foi fácil. Com uma concentração estimada em apenas 20 partes por bilhão (ppb), este sinal também é muito fraco, o que obrigou os cientistas a fazerem um minucioso trabalho para extraí-lo do “ruído” nos dados e diferenciá-lo de assinatura espectrais semelhantes de outros compostos, tarefa que ocupa basicamente todo primeiro terço do artigo na “Nature Astronomy”.

 

Confiança comedida

O cuidado na extração e tratamento dos dados, e o fato deles serem fruto de observações com dois equipamentos independentes, deram aos cientistas a confiança de que o que estavam vendo eram mesmo sinais de fosfina em Vênus. Mas de onde a substância estaria vindo? À procura de uma resposta, Greaves se voltou para a astrônoma portuguesa Clara Sousa-Silva, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), EUA.

Com o sugestivo nome no Twitter de @DrPhosphine (Dra. Fosfina), Sousa-Silva há anos estuda o composto, tendo introduzido a ideia de usá-lo como uma das possíveis bioassinaturas na busca de vida em exoplanetas rochosos como o nosso. Isto porque a fosfina, altamente volátil, se degrada rapidamente no contato com oxigênio ou sob ação dos raios ultravioleta do Sol. Assim, sua presença em níveis detectáveis pressupõe uma contínua reposição, que na Terra tem como única fonte natural conhecida a atividade microbiana. “A fosfina é um gás promissor de bioassinatura em planetas do tipo terrestre, por não ter falsos positivos abióticos conhecidos de qualquer fonte capaz de gerar os altos fluxos necessários para sua detecção”, resumiu ela em artigo publicado no início deste ano no periódico científico “Astrobiology”.

E apesar de a primeira forma de “sumiço” da fosfina não ser o caso da atmosfera de Vênus, composta basicamente por dióxido de carbono (CO2) e uma pitada de nitrogênio (N2), a segunda é. Diante disso, Sousa-Silva e colegas partiram para investigar se alguma outra reação química ou processo independente de micro-organismos poderia explicar a proporção da substância observada lá. Segundo os pesquisadores, mesmo depois de levar em conta cerca de 75 possibilidades, sob as mais variadas condições e supostas características da atmosfera, superfície e subsolo do planeta, incluindo tempestades de raios, erupções vulcânicas e impactos de asteroides, nenhuma sozinha, ou em conjunto com outras, produziria fosfina suficiente para ser detectada pelos instrumentos disponíveis na Terra.

“Se nenhum processo químico conhecido pode explicar (a presença de fosfina) na alta atmosfera de Vênus, então ela deve estar sendo produzida por um processo previamente considerado implausível sob condições venusianas. Este poderia ser alguma fotoquímica ou geoquímica desconhecida, ou possivelmente vida”, escrevem os pesquisadores no artigo na “Nature Astronomy”.

 

Animação contagiosa

Pronto e aceito para a publicação o estudo, é chegada a hora de sua divulgação. E aí, embora vida tenha sido a última das possibilidades aventadas pelos autores para explicar a fosfina em Vênus, por óbvio ela foi a primeira a ser destacada. Ainda assim, o material distribuído para a imprensa, em sua grande maioria, primava pelos termos condicionais. Possível marcador de vida observado em Vênus”, anunciava o Observatório Europeu do Sul (ESO), um dos integrantes do consórcio internacional responsável pela construção e operação do ALMA. “Astrônomos podem ter achado uma assinatura de vida em Vênus”, acrescentava o MIT (grifos meus).

A animação com a descoberta e a atenção atraída por um de suas possíveis implicações, no entanto, logo contagiou os próprios cientistas. Exemplo disso é Sousa-Silva. Se em janeiro ela classificava a fosfina como “promissor” sinal de vida em outros planetas, agora dava ares de quase certeza da ligação entre o composto e atividade biológica em Vênus.

“É muito difícil provar uma ausência. Agora, os astrônomos devem pensar em maneiras de justificar a fosfina sem vida, e dou as boas-vindas a isso”, comentou no comunicado do MIT. “Façam isso, porque estamos no limite de nossas possibilidades de mostrar um processo abiótico que possa produzir fosfina”.

Desafiados, alguns astrônomos prontamente colocaram em dúvida esta conclusão. Além das citações à presença de fosfina em Júpiter e Saturno, sem jamais ter sido associada à vida, eles ressaltaram o profundo desconhecimento que ainda temos sobre Vênus e seus processos. Diferentemente de Marte, alvo de dezenas de sondas e atualmente orbitado por uma verdadeira flotilha multinacional de satélites de pesquisa, Vênus foi relativamente muito pouco visitado e estudado diretamente. A última sonda a entrar na sua atmosfera e pousar na superfície foi a Vega 2, da antiga União Soviética, em 1985, enquanto o único satélite em órbita no momento é o japonês Akatsuki, lançado em 2010.

“Apesar de especulações anteriores (em grande parte pelos próprios autores), isto [a detecção de fosfina na atmosfera de Vênus] dificilmente pode ser vista como uma bioassinatura”, afirmou Gerald Joyce, biólogo do Instituto Salk, na Califórnia, ao New York Times. “Não há nada que diga definitivamente que é biologia”, ressaltou Rakesh Mogul, bioquímico da Universidade Politécnica da Califórnia, onde estuda os chamados extremófilos, micro-organismos capazes de viver em ambientes muito inóspitos, como caldeiras de vulcões e reatores nucleares, à revista digital americana The Verge. “Ainda há muitos fatores desconhecidos. É legal que tenham posto a biologia como a resposta, mas na realidade, como cientistas, temos que dar um passo atrás e assegurar que tenhamos investigado exaustivamente todas as outras possibilidades”.

Também não seria a primeira vez que um anunciado “sinal de vida” em outro planeta se mostraria falso. Nos anos 1970, experimento conduzido pelas sondas Viking, da Nasa, em Marte, “regou” amostra do solo do planeta com uma mistura de nutrientes “marcados” com um isótopo radioativo de carbono (C14), monitorando o ar sobre ela para o surgimento de CO2 com o isótopo que evidenciasse seu consumo e metabolização por micro-organismos “dormentes” lá. Para surpresa dos pesquisadores, após resultados negativos em dois experimentos semelhantes conduzidos anteriormente pelas sondas, as Vikings detectaram o carbono radioativo saindo das amostras. Repetidas as experiências dias depois, porém, nada aconteceu.

Diante desta contradição, o experimento foi classificado como “inconclusivo”, o que não impediu que durante décadas alguns cientistas, inclusive os responsáveis pela experiência original, especulassem, e ainda especulem, que o primeiro resultado era um sinal da existência de vida no planeta vermelho. Isto mesmo depois que a sonda Phoenix, também da Nasa, identificou em 2008 a presença de compostos conhecidos como percloratos no solo marciano. O consenso científico atual é de que foram estes sais tóxicos que reagiram com os nutrientes injetados pelas Viking nos experimentos dos anos 1970, liberando o carbono radioativo que os marcavam sem que precisassem ser “digeridos” por qualquer ser vivo, num exemplo de “química desconhecida” que pode agora estar se repetindo com a fosfina em Vênus.

Tampouco esta foi a única vez que se especulou sobre o achado de “sinais de vida” em Marte. Outro exemplo notório foi o anúncio, em agosto de 1996, da identificação do que seriam “fósseis de bactérias” em um meteorito proveniente de Marte desencavado no gelo da Antártica em 1984. A alegação rapidamente ganhou manchetes ao redor do mundo, culminando com discurso do então presidente americano Bill Clinton destacando esta possibilidade. Hoje, mais de 20 anos depois, esta interpretação ainda é objeto de polêmica na comunidade científica, que em sua grande maioria continua cética em creditar as marcas e substâncias encontradas nesta rocha a alguma ação biológica.

Mais recentemente, a suposta detecção de metano na atmosfera de Marte, primeiro pela sonda orbital Mars Express, da Agência Espacial Europeia (ESA), e depois pelo veículo-robô Curiosity, da Nasa, inclusive com variações sazonais em sua concentração, voltou a alimentar especulações sobre uma possível explicação biológica para o fenômeno, sem, no entanto, produzir qualquer outra evidência para apoiá-las. Capaz de dirimir esta questão, a sonda Trace Gas Orbiter (TGO), também da ESA, na órbita de Marte desde 2016, até o momento sequer identificou a presença de metano na atmosfera marciana, apesar de seus instrumentos serem mais sensíveis para isso que os da Mars Express ou do Curiosity.

 

Sensacionalismo precipitado

Este histórico de anúncios duvidosos, no entanto, pouco ou nada parece ter servido de lição na divulgação para o público em geral da detecção de fosfina na atmosfera de Vênus e sua associação com a possível existência de vida no planeta. Como em uma brincadeira de “telefone sem fio”, as condicionantes e interrogações dos artigos científicos e dos comunicados à imprensa foram rapidamente deixadas de lado em muitas das manchetes, que estampavam de forma direta e inequívoca sensacionalista “Cientistas encontram evidências de vida em Vênus”, por exemplo.

Enquanto isso, o próprio achado também já começa a ser colocado em questão. Em entrevista à BBC Brasil, a astrônoma brasileira Duilia de Mello classificou como “precipitado” o anúncio, cobrando mais observações com os mesmos instrumentos e também em outras faixas do espectro – que os autores admitem ter tido a intenção de fazer, mas foram impedidos pela pandemia de COVID-19 – para sua confirmação antes que fosse levado a público.

“Quando é assim, quando são sinais muito fraquinhos, é preciso observar várias vezes e em outras épocas, para confirmar realmente se a detecção foi feita ou se não foi apenas uma coincidência por conta de um, digamos, sinalzinho errado (um ruído confundido com um sinal)”, afirmou.

Necessidade que um dos autores do artigo na “Nature Astronomy”, o japonês Hideo Sagawa, da Universidade de Kyoto Sangyo, também já havia alertado quando da divulgação do estudo: “Ainda temos muito dever de casa a fazer antes de chegar a qualquer conclusão exótica (como a existência de vida), inclusive a reobservação de Vênus para confirmar este mesmo resultado apresentado”, ressaltou em comunicado emitido pelo ALMA.

Assim, antes de cair na sedução do sensacionalismo e sair por aí afirmando que há vida em Vênus, bastava atentar ao que os próprios autores da descoberta textualmente ponderavam na conclusão de seu artigo: “Mesmo se confirmada, enfatizamos que a detecção de PH3 (fosfina) não é uma evidência robusta de vida, só de uma química anômala e não explicada. Há problemas conceituais substanciais na ideia de vida nas nuvens de Vênus – o ambiente é extremamente desidratante e hiperácido. Para discriminar processos fotoquímicos e/ou geológicos desconhecidos como fontes do PH3 venusiano ou determinar se existe vida nas nuvens de Vênus, serão importantes substanciais modelagens e experimentações futuras. De última forma, a solução pode vir de uma revisita a Vênus para medições no local ou coleta e retorno de amostras de aerossóis”.

Cesar Baima é jornalista e editor-assistente da Revista Questão de Ciência

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