O santo padroeiro da Medicina baseada em experiência pessoal

Apocalipse Now
19 fev 2022
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O médico americano Frank A. Stahl, que foi professor de Obstetrícia em Chicago no fim do século 19, poderia muito bem ser canonizado como o santo padroeiro dos “cloroquiners”, “ivermectiners”, “antivaxxers” e outros negacionistas convidados a animar as audiências públicas promovidas pela tropa de choque anticientífica do governo. Stahl deve a (pouca) fama que tem na história da Medicina a um artigo seu, publicado no American Journal of Obstetrics em 1896, defendendo a moribunda “teoria” da impressão materna.

“Impressão materna” é a crença folclórica – segundo o médico e historiador Jan Bondeson, uma tradição quase universal, aparecendo em culturas nativas de diversas partes do mundo – de que coisas que impressionam psicologicamente a gestante acabam “marcando” o feto e se manifestam no corpo do recém-nascido. É daí que vem a ideia de que todos os desejos da grávida devem ser atendidos, sob pena de a frustração se manifestar na criança, na forma de marcas de nascimento, deformidades congênitas, etc.

Na ausência de qualquer conhecimento mais elaborado sobre hereditariedade, genética ou embriologia, a impressão materna oferece uma explicação aparentemente viável para o fato de que os filhos de um mesmo casal sejam diferentes entre si: embora a matéria-prima e o útero sejam os mesmos toda vez, as coisas que a mãe vê, come, sente, etc., durante a gravidez influenciariam os rumos do desenvolvimento.

Essa peça de conhecimento popular e tradicional foi passivamente aceita pela Medicina europeia durante milênios. Em seu livro “A Cabinet of Medical Curiosities”, Bondeson dá exemplos de como a crença influenciou decisões judiciais: pelo menos uma mulher na França foi absolvida, no século 17, de uma acusação de adultério (o filho havia sido concebido enquanto o pai estava fora do país) ao apelar para os supostos efeitos das impressões da emoção e da imaginação sobre o útero.

 

Esparta

A ideia da impressão materna originou ainda exemplos do que poderíamos chamar de “políticas eugênicas” em vários locais, e desde a Antiguidade.  

O obstetra escocês John William Ballantyne (1861-1923), numa revisão histórica da questão publicada em 1891, aponta que entre as leis atribuídas ao quase-mítico estadista Licurgo de Esparta (século 7 AEC) estava a instrução para que as gestantes espartanas contemplassem estátuas dos heróis Cástor e Pólux, para que seus filhos fossem bem-formados.

Bondeson, por sua vez, relata que, dois mil anos depois da regra de Licurgo, a preocupação do grande anatomista dinamarquês Thomas Bartholin (1616-1680), descobridor do sistema linfático, e de seu genro, o médico e naturalista Oliger Jacobaeus (1650-1701), com o perigo das impressões maternas negativas sobre as futuras gerações influenciou a Coroa dinamarquesa a apoiar a criação de um hospital em Copenhague para acolher deficientes físicos e portadores de deformidades, a fim de mantê-los fora das ruas e, assim, longe dos olhos das gestantes.

Ballantyne menciona ainda o fato de que a Bíblia parece endossar a doutrina, ao menos no que diz respeito à criação animal. Em Gênese, o patriarca Jacó usa um estratagema baseado na ideia da impressão materna para aumentar o número de ovelhas malhadas no rebanho:

“Jacó pegou varas verdes de álamo, de amendoeira e de plátano, descascou-as em tiras brancas, deixando aparecer a parte branca das varas./Em seguida, colocou as varas assim descascadas nos bebedouros diante do rebanho, onde as ovelhas costumavam beber água, para que os machos cobrissem as fêmeas quando fossem beber água./Os animais se acasalavam diante das varas e pariam crias listradas, pintadas e malhadas” (Gn. 30:37-39)

 

Porco Armado

A maré começou a virar no início do século 18, com a publicação de um livro crítico e cético sobre o assunto pelo médico francês (radicado em Londres) James Augustus Blondel (c.1660-1734), em 1729, “The Power of the Mother’s Imagination over the Foetus Examin’d” (“O Poder da Imaginação da Mãe sobre o Feto Examinado”).

Os argumentos de Blondel eram fundamentados, basicamente, em lógica e bom-senso: ele apontou, por exemplo, que as supostas causas das impressões – sustos, imagens chocantes, desejos – eram muito mais frequentes que os efeitos. Em outras palavras, o número de mulheres que tem experiências “traumáticas” ou “impressionantes” na gravidez é muito maior que o de crianças nascidas com marcas ou deformidades.

O principal argumento dos defensores da doutrina da impressão materna eram os exemplos positivos – quando algo havia ocorrido durante a gestação que parecia, de algum modo, ligado a alguma característica do bebê – e Blondel levantou diversos exemplos negativos de sua própria prática médica, como o caso de uma paciente sua atacada por um gato enquanto grávida, mas cujo filho nasceu “sem bigodes ou garras”, e cresceu sem nenhuma fobia de felinos.

Antecipando em alguns séculos o espírito da regra da falseabilidade de Karl Popper (1902-1994), Blondel denunciava como escandalosa e evidente a incapacidade da hipótese da impressão materna de fazer previsões confiáveis. Ele também não se furtava em apelar ao ridículo e ao absurdo: se a impressão materna fosse realmente possível, as placas e cartazes ilustrados exibidos sobre a entrada de bares com nomes como “Porco Armado” deveriam ser removidas imediatamente, para evitar uma epidemia de deformidades.

 

Experiência pessoal

No século 19, ao bom-senso de Blondel veio se somar uma compreensão maior sobre embriologia e desenvolvimento fetal e, por volta de 1860, o consenso científico já havia se firmado contra a hipótese da impressão materna, segundo Bondeson. O que não significa, no entanto, que a ideia tivesse desaparecido por completo: nos Estados Unidos e no Reino Unido, principalmente, ela seguiu sendo popular entre os médicos décadas depois de ter sido abandonada na França e na Alemanha. Em 1894, o médico Marcus P. Hatfield publicou um artigo indignado no periódico Transacitions of the Illinois Medical Society lamentando que a crença supersticiosa na impressão materna ainda fosse levada a sério na Medicina praticada na América do Norte.

E aqui chegamos ao proposto santo padroeiro da ivermectina, Frank Stahl: dois anos depois da publicação de Hatfield, em 1896, o professor de Obstetrícia lançou no American Journal of Obstetrics uma defesa apaixonada do uso da hipótese da impressão materna na prática médica. Seu principal argumento? Experiência pessoal. Num caso de anencefalia.

“A buscar uma explicação para a má-formação neste caso, uma única circunstância se apresenta”, escreve o professor. “A mãe relata que, durante o terceiro mês de gestação, viu uma criança ser atropelada por um bonde, esmagando a parte superior e traseira da cabeça. Ela alega ter sofrido um grave choque na época, e ficou com medo de que seu filho fosse afetado”.

Os erros de Stahl pertencem à mesma espécie dos que vimos tantas vezes durante esta pandemia – a pressuposição de que a incapacidade de imaginar explicações alternativas para um fato torna a explicação mais prontamente disponível correta; a presunção de que plausibilidade biológica e coerência lógica valem menos do que uma impressão pessoal ou intuição.

A longa sobrevivência da impressão materna como hipótese obstétrica “respeitável” na cultura médica do mundo de língua inglesa não traz motivos para otimismo com o ritmo em que se dá (se é que se dá) o progresso cognitivo da Humanidade: demonstrada absurda nos anos 1720, demonstrada biologicamente insustentável nos anos 1860, a ideia ainda era citada como “científica” em artigos publicados na literatura médica até 1920.

E, para confirmar a Regra de Hammer – ideias ruins nunca morrem mas, como Conde Drácula nos filmes da produtora inglesa Hammer, apenas jazem pacientemente em seus caixões, esperando algum tolo que lhes apareça para retirar a estaca do peito –, o tema da impressão materna foi ressuscitado “cientificamente” nos anos 1990 pelo psiquiatra Ian Stevenson (1918-2007), que ficou famoso por fazer pesquisas metodologicamente falhas sobre reencarnação.

 

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP) e coautor de "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), ganhador do Prêmio Jabuti, e "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares)

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