Desmonte da ciência ameaça o país

23 abr 2019
Editorial
Larva do mosquito Aedes aegypti, transmissor de dengue, zika e chikungunya
Larva do mosquito Aedes aegypti, transmissor de dengue, zika e chikungunya

Véspera de Natal, dezembro de 2015. O professor Luís Carlos Ferreira, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, desceu até a portaria para receber um presente um tanto inusitado: uma caixa com amostras de vírus zika, que chegava do Instituto Evandro Chagas (IEC). O pacote foi solenemente colocado aos pés da árvore de Natal do ICB e ficou ali, alvo de uma breve comemoração dos professores, pesquisadores e alunos de pós-graduação que optaram por trabalhar naqueles dias. Alguns outros, que tinham ido passar a noite de Natal com suas famílias, estariam de volta no dia seguinte.

O Ano Novo também foi comemorado ali. No laboratório do professor Jean Pierre Peron, onde foram feitos experimentos que comprovaram que o zika era responsável pela microcefalia em bebês humanos, a ceia foi servida com todo o requinte que só o delivery da meia-noite pode proporcionar.

 Naquele ano, vários laboratórios, não só do ICB ou da USP, mas de instituições públicas de todo o Brasil, mobilizaram-se para formar a rede zika. Graças ao trabalho desenvolvido, o Brasil gerou, em pouco tempo, uma quantidade incrível de conhecimento sobre o zika vírus, e estratégias para o controle da epidemia.

Todos os laboratórios envolvidos interromperam suas próprias linhas de pesquisa para dedicarem-se em tempo integral – sem fim de semana ou feriado – ao estudo do vírus. O Brasil estava em estado de emergência, e precisava dos seus cientistas, que atenderam ao chamado. E quando falamos cientistas, estamos falando dos chefes de laboratório, de seus pesquisadores associados e de seus estudantes, bolsistas de pós-graduação, que quando a “bomba zika” estourou, trabalhavam em suas teses de doutorado e dissertações de mestrado – projetos essenciais para quem deseja uma carreira na academia, mas postos voluntariamente de lado diante da ameaça à saúde pública.

Esses estudantes não tinham garantia de que as agências de fomento, que pagavam suas bolsas e exigiam o cumprimento de prazos, iriam abonar o tempo “perdido” na emergência nacional. Mas arriscaram, porque sabiam que o seu trabalho era essencial, que o país precisava de respostas rápidas.

Atualmente, no ICB-USP, há mais de 20 pós-graduandos trabalhando com zika/dengue vírus. Todos esses alunos precisam de bolsas de estudos. Os vírus da dengue, zika e chikungunya ainda circulam no território nacional e representam risco latente de uma nova epidemia. Sem estudantes de pós-graduação para gerar conhecimento sobre esses patógenos, como enfrentaremos uma crise? Seria sensato agora “demitir” todos esses profissionais?

Um caso internacional: quando Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier descobriram o que iria se tornar a mais moderna técnica de edição de genoma – CRISPR-Cas9 – elas não estavam procurando uma nova ferramenta para aplicações de biotecnologia. Estavam apenas estudando como bactérias se defendem de um tipo de vírus. Foi um trabalho motivado estritamente pelo desejo de entender um mecanismo de defesa celular. O conhecimento gerado, no entanto, revelou ter enorme potencial médico e econômico.

Quando falamos em cortes de bolsas de estudos, quem não é da academia imagina logo que o governo está desperdiçando dinheiro ao pagar para um bando de estudantes discutirem o sexo dos anjos, enquanto outros cidadãos “trabalham de verdade”. Qual estudante de pós-graduação nunca ouviu a frase: “Mas você só estuda? Não trabalha? Para que serve isso que você estuda?”

Trata-se de um grande equívoco. O pós-graduando é um profissional, e trabalha muito. E o trabalho que realiza, pago com uma bolsa de estudos, pode transformar o destino de um país. Da mesma maneira que um engenheiro se forma na faculdade, e consegue um emprego em uma empresa, o cientista se forma e consegue uma bolsa de estudos para seguir carreira acadêmica.

O fato de chamarmos de bolsa de estudos, bolsa de pesquisa, e não de “salário”, talvez seja motivo de confusão. Mas o fato é que pós-graduação é um emprego. E precisa ser paga pelo governo, justamente porque o governo precisa garantir a geração de conhecimento. Se tecnologias podem nascer em empresas, a pesquisa básica é paga por fundos governamentais. É assim no Brasil e no resto do mundo. O governo federal dos Estados Unidos, por exemplo, é o maior financiador de pesquisa biomédica do planeta.

Não existe desenvolvimento tecnológico sem ciência básica, e não existe ciência básica sem alunos de pós-graduação. E não existe aluno de pós-graduação sem bolsas de estudo. O conhecimento gerado por estes alunos pode ser a diferença entre vencer ou sucumbir a uma epidemia, ou descobrir ou não um princípio que poderá levar à criação de tecnologias e riqueza. Quando um país corta pela metade o investimento em ciência e some com as bolsas de pós-graduação, está na verdade, assumindo graves riscos no presente e sabotando seu futuro.

A fantástica resposta do Brasil a desafio do zika vírus só foi possível porque havia, além dos pesquisadores experientes que nortearam o trabalho, alunos para executá-lo e bolsas para sustentá-los.

A perda em expertise e geração de conhecimento, trazida pelos cortes anunciados, será irrecuperável no curto prazo. Mesmo que o investimento seja retomado, levará muito tempo para treinar uma nova geração de estudantes, capaz de seguir com os projetos de pesquisa que sofrerão com os cortes.

A escolha de não investir, hoje, em ciência implica não ter acesso às melhores tecnologias médicas daqui a dez anos, aos melhores produtos de agronegócio, aos modelos mais sustentáveis de agricultura e de preservação ambiental. Os resultados dos cortes só vão atingir a população quando for tarde demais.

Outra confusão bastante comum é que deveríamos recorrer a investimentos privados em ciência. O setor privado pode vir a desempenhar um papel relevante, mas ciência fundamental paga integralmente, ou mesmo majoritariamente, por doações e investimentos privados é coisa que não ocorre em nenhum lugar do mundo. A ciência básica envolve riscos e prazos que o investidor privado provavelmente não vai querer, ou poder, assumir.

A partir do instante em que uma técnica como alto potencial de aplicação comercial, como o CRISPR-Cas9, existe, é fácil encontrar investidores privados para conduzi-la adiante. Mas a pesquisa fundamental que levou à criação da técnica – sobre como bactérias se protegem de ataques de vírus – só interessaria a um investidor se ele tivesse a microbiologia como hobby. É trabalho que foi realizado, sem expectativa de retorno financeiro, em universidades e instituições públicas.

Além disso, o conhecimento sobre, por exemplo, de onde viemos, se há outros planetas habitáveis –  como funcionamos em nossa relação com o mundo – pode não ter valor monetário facilmente mesurável, mas responde a questões que nos definem como seres humanos, animais marcados por uma profunda curiosidade. Essa curiosidade, se estimulada, pode levar a descobertas que mudam nossa relação com o planeta e resultam em novas tecnologias.

Saber que a ação humana vem alterando o clima do planeta pode mudar nossos comportamentos. Saber como os genes funcionam e como manipulá-los pode curar doenças. Saber como os animais se comportam pode alterar nossa visão da ecologia e nossos hábitos: se o animal for um mosquito ou outro vetor de doenças, tal conhecimento pode evitar uma epidemia.

Esses são conhecimentos perseguidos não por empresas que precisam prestar contas a acionistas, mas por universidades e centros de pesquisa, com fomento do governo, e com muitos estudantes de pós-graduação: bolsistas motivados pelo desejo de, simplesmente, aprender um pouco mais.

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