Suplementos de cúrcuma: mais riscos do que benefícios

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30 mar 2026
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ilustração de suplemento de curcumina

 

No início do mês, a Anvisa publicou a nota “Anvisa alerta para risco de danos ao fígado por medicamentos e suplementos de cúrcuma”, informando que os medicamentos contendo a substância passarão a incluir avisos de segurança em bula e que o uso da cúrcuma em suplementos será submetido a uma nova análise técnica. A decisão foi motivada por investigações internacionais que identificaram casos raros, porém graves, de inflamação e lesão hepática associados ao consumo de cápsulas ou extratos concentrados. Segundo a agência, o problema parece estar relacionado a formulações que aumentam a absorção da curcumina — o principal composto ativo — a níveis muito superiores aos do consumo alimentar normal.

Alertas semelhantes também foram emitidos por outras autoridades regulatórias. Em 2022, a Agence Nationale de Sécurité Sanitaire de L’alimentation, de L’environnement et du Travail (Anses), na França, publicou o relatório Curcuma ou curcumine dans les compléments alimentaires: des cas d’effets indésirables hépatiques, destacando que, em dez anos, os sistemas de vigilância da França e da Itália registraram mais de 40 casos de hepatite associados ao consumo de suplementos contendo cúrcuma ou curcumina. Entre janeiro de 2009 e agosto de 2021, 120 eventos adversos potencialmente relacionados foram notificados à agência; 67 apresentavam documentação suficiente para análise de imputabilidade: um caso foi classificado como muito provável, 31 como prováveis, 24 como possíveis e 10 como duvidosos.

Os efeitos mais frequentemente relatados incluíram hepatite, dor de cabeça, tontura e distúrbios digestivos, como náusea e diarreia. Quanto à gravidade, 28 casos foram considerados leves, 25 moderados e os demais graves, incluindo quatro situações com risco de vida.

Na mesma linha, a Therapeutic Goods Administration (TGA), agência reguladora australiana, publicou em 2023 um aviso de segurança informando que, até 29 de junho daquele ano, havia recebido 18 notificações de problemas hepáticos associados ao consumo de suplementos de cúrcuma e curcumina, das quais nove continham informações suficientes para sugerir possível lesão hepática relacionada. Em quatro casos não havia outros ingredientes que pudessem explicar o evento, e dois apresentaram desfechos graves, incluindo uma morte.

Após investigação de segurança, a TGA concluiu que há evidências de um risco raro de lesão hepática quando essas substâncias são utilizadas em doses medicinais. O risco parece ser maior em produtos com maior biodisponibilidade ou absorção aumentada, bem como em doses elevadas. A agência também observa que indivíduos com histórico de doença hepática podem apresentar maior suscetibilidade.

Contudo, pode-se argumentar que esses ainda são eventos extremamente raros. Mesmo que isso seja verdadeiro, também é fato que os supostos benefícios atribuídos a esses produtos frequentemente se baseiam em estudos fracos e pouco convincentes.

Para evitar dúvidas entre defensores da ideia de que “se é natural, então é bom”, vale recapitular para quais condições a cúrcuma costuma ser utilizada e quais os dados de segurança disponíveis.

 

Por que cúrcuma?

A cúrcuma é mais conhecida como açafrão-da-terra (Curcuma longa). Apesar da polêmica recente, o tempero continua sendo considerado seguro; os raros casos de lesão hepática estão associados principalmente a suplementos e medicamentos que utilizam extratos concentrados ou a curcumina.

Esses produtos são promovidos por seus supostos efeitos anti-inflamatórios e antioxidantes. Para contornar a crítica de que a curcumina apresenta baixa absorção, muitas formulações a combinam com piperina (composto da pimenta-do-reino) ou utilizam outras formas de aumentar a biodisponibilidade.

Diante do grande número de estudos e promessas terapêuticas, uma das revisões que melhor sintetizam essas alegações é o artigo Impacts of turmeric and its principal bioactive curcumin on human health: Pharmaceutical, medicinal, and food applications: A comprehensive review. Segundo os autores, a cúrcuma e a curcumina foram investigadas em diversos tipos de estudos, desde pesquisas moleculares até ensaios clínicos. Os resultados sugerem que o composto atua em múltiplas vias biológicas, o que poderia explicar sua associação com benefícios potenciais em distúrbios inflamatórios, doenças cardiovasculares e diabetes.

Diversos estudos in vitro demonstram propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias da curcumina. Outro ponto frequentemente citado é o possível papel terapêutico da curcumina em diferentes doenças.

Se a impressão resultante desses achados é a de que a cúrcuma e a curcumina funcionam como uma espécie de panaceia moderna, isso se deve em grande parte ao tom adotado pela revisão. Esse é um problema relativamente comum em trabalhos desse tipo, que muitas vezes apresentam limitações semelhantes às revisões narrativas, como ausência de critérios rigorosos de inclusão e exclusão de estudos e a tendência de colocar diferentes níveis de evidência lado a lado.

Assim, embora os autores descrevam separadamente resultados provenientes de estudos in vitro, experimentos em animais e ensaios clínicos randomizados, a conclusão final acaba diluindo essas diferenças e afirma que, com base em evidências pré-clínicas e clínicas, a curcumina poderia ser útil na prevenção e no tratamento de diversas doenças.

Trata-se, no entanto, de uma afirmação problemática. Os ensaios clínicos citados referem-se a condições bastante específicas e, ao examinar alguns deles com mais detalhe, fica claro que o suposto “grau de evidência” muitas vezes é bem menos impressionante do que a revisão sugere.

Para ilustrar essa questão, revisei o artigo “Short-term effects of highly-bioavailable curcumin for treating knee osteoarthritis: a randomized, double-blind, placebo-controlled prospective study, citado na revisão como evidência de que a cúrcuma pode aliviar a dor da osteoartrite no joelho. No estudo, 50 pacientes com osteoartrite receberam, por oito semanas, um composto comercial contendo curcumina (180 mg/dia) ou placebo. Segundo os autores, houve redução significativa da dor no grupo de intervenção.

No entanto, a revisão omite pontos importantes. Embora o estudo se apresente como duplo-cego, randomizado e controlado por placebo, não há descrição clara de como esses procedimentos foram conduzidos, o que impede verificar se foram implementados adequadamente. Além disso, na análise dos resultados, observa-se que, apesar do grupo suplementado ter apresentado desempenho superior ao placebo, não houve diferenças estatisticamente significativas em diversos desfechos analisados. Soma-se a isso um conflito de interesse relevante: o estudo foi financiado pela empresa produtora do composto, dois dos pesquisadores eram funcionários em tempo integral da companhia e um terceiro atuava como funcionário em meio período.

Em síntese, mesmo nos desfechos que apresentam evidências relativamente mais robustas — quando comparados a estudos in vitro ou em modelos animais —, a maioria dos trabalhos disponíveis ainda apresenta baixa qualidade metodológica, limitações importantes ou potenciais fontes de viés.

Mas o que acontece quando analisamos o conjunto de evidências já sintetizado em revisões sistemáticas e meta-análises? Será que encontramos respostas mais conclusivas?

 

A revisão guarda-chuva

Publicado em junho de 2025 sob o título Curcumin and multiple health outcomes: Critical umbrella review of intervention meta-analyses, o estudo é uma revisão guarda-chuva que sintetizou revisões sistemáticas e metanálises para avaliar a eficácia terapêutica e a segurança da curcumina administrada por via oral em comparação com diferentes intervenções ou controles.

Foram incluídas 25 metanálises publicadas entre 2016 e 2024, cada uma composta por três a 66 estudos, com amostras entre 139 e 4.051 participantes. Um ponto preocupante é que apenas nove dessas metanálises estavam registradas previamente na plataforma PROSPERO, sistema utilizado para registrar protocolos de revisões sistemáticas e aumentar a transparência.

Também houve grande heterogeneidade entre os estudos: as doses variaram de 50 mg a 6.000 mg, e a duração das intervenções variou de um dia a 12 meses. Em termos de qualidade metodológica, a maior parte das metanálises foi considerada de muito baixa (19) ou baixa qualidade (3).

A avaliação pelo sistema GRADE (utilizado para classificar a qualidade de um conjunto de evidências em revisões sistemáticas e outras sínteses) observou que, dos 122 desfechos analisados, 101 foram classificados como de baixa ou muito baixa certeza, indicando baixa confiança na aplicabilidade dos resultados ao mundo real. Os demais desfechos foram classificados como de certeza moderada (17) ou alta (4). No entanto, ao examinar a tabela apresentada pelos autores, identifiquei uma inconsistência: há apenas dois desfechos de alta certeza.

Os únicos desfechos classificados como de alta certeza pelo GRADE foram relacionados a doenças musculoesqueléticas, especificamente escores de dor e rigidez, aferidos por um questionário de autorrelato utilizado para avaliar sintomas de osteoartrite de quadril e joelho.

Em termos de segurança, oito revisões relataram eventos adversos leves, principalmente sintomas gastrointestinais — como distensão abdominal — além de dor de cabeça e tontura. Nenhum evento adverso grave foi relatado.

Entre as principais limitações destaca-se, novamente, o fato de que a maioria das revisões não registrou previamente seus protocolos, além da alta heterogeneidade dos estudos, o fato de que a maior parte das metanálises foi classificada como de qualidade muito baixa e que quase todos os desfechos apresentaram evidência de baixa ou muito baixa certeza.

Mesmo os poucos desfechos classificados como de evidência elevada derivam de revisões com limitações metodológicas.

 

Lesão hepática?

Como bem descrito no livro LiverTox: Clinical and Research Information on Drug-Induced Liver Injury,  a curcumina possui uma longa história de segurança, mas alguns produtos foram recentemente implicados em casos de lesão hepática aguda. Embora não exista comprovação rigorosa de eficácia para qualquer condição médica, esses compostos continuam sendo amplamente utilizados para diversos desfechos, como artrite, hiperlipidemia, diabetes e — ironicamente — doenças hepáticas.

Durante muitos anos, cúrcuma e curcumina foram consideradas seguras e não estavam consistentemente associadas à lesão hepática. Contudo, relatos isolados e pequenas séries de casos começaram a surgir com maior frequência. Inicialmente suspeitou-se de outros ingredientes das formulações ou do uso concomitante de suplementos, já que a curcumina apresenta baixa absorção oral. Entretanto, novas estratégias permitiram  aumentar sua biodisponibilidade.

A hepatotoxicidade associada à cúrcuma parece decorrer de um tipo particular de lesão possivelmente mediada por mecanismos imunes. Entre os estudos que analisaram essa associação, dois se destacam: “Liver Injury Associated with Turmeric: A Growing Problem – Ten Cases from the Drug‑Induced Liver Injury Network”, publicado em 2022, e “Acute liver injury following turmeric use in Tuscany: An analysis of the Italian Phytovigilance database and systematic review of case reports”, publicado em 2020.

O estudo italiano analisou notificações do banco de dados de fitovigilância da Toscana e realizou uma revisão sistemática de relatos de caso. Até setembro de 2019 foram identificados 37 eventos de lesão hepática aguda entre 73 notificações relacionadas ao uso de Curcuma longa na Itália.

O segundo estudo analisado é uma atualização da Drug‑Induced Liver Injury Network (DILIN), rede multicêntrica criada para investigar lesões hepáticas induzidas por medicamentos nos Estados Unidos. Entre setembro de 2004 e março de 2022 foram registrados 2.392 casos suspeitos de lesão hepática induzida por medicamentos, dos quais 1.798 foram considerados de alta confiabilidade. Entre eles, 345 foram atribuídos a fitoterápicos ou suplementos alimentares e dez, ao consumo de cúrcuma.

Em conjunto, os dados indicam consistência de relatos de lesão hepática associada ao uso de suplementos de cúrcuma e curcumina com alta biodisponibilidade. Além dos possíveis efeitos diretos da cúrcuma e da curcumina, há problemas frequentes na indústria de suplementos, como adulterações, ingredientes não declarados e falhas de fabricação. O Committee on Toxicity of Chemicals in Food, Consumer Products and the Environment, do Reino Unido, alerta que cúrcuma em pó e suplementos de curcumina podem estar contaminados com chumbo, seja por cultivo em solos contaminados ou por adulteração deliberada com cromato de chumbo para intensificar a coloração.

No Brasil, o estudo Characterization of Commercially Available Turmeric for Use in Pharmaceutical Products and Food Supplements  também identificou grande variabilidade entre produtos comerciais, incluindo diferenças físico-químicas relevantes, presença de metais tóxicos e baixos teores de curcumina. Esses resultados sugerem falhas importantes no controle de qualidade dessas matérias-primas.

Considerando que não há evidências robustas de benefícios clínicos relevantes para qualquer condição, a relação benefício-risco torna-se clara. No mundo idealizado pelo marketing, o suplemento promete potentes efeitos anti-inflamatórios e antioxidantes sem efeitos colaterais. No mundo real, porém, os efeitos clínicos são, na melhor das hipóteses, pequenos, e mesmo as evidências mais favoráveis — como pequenas melhorias em dor e rigidez na osteoartrite de joelho — ainda dependem de estudos metodologicamente mais robustos.

Mauro Proença é nutricionista

 

REFERÊNCIAS

ANVISA. Anvisa alerta para risco de danos ao fígado por medicamentos e suplementos de cúrcuma. 2026. Disponível: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/anvisa-alerta-para-risco-de-danos-ao-figado-por-medicamentos-e-suplementos-de-curcuma.

ANSES. Curcuma ou curcumine dans les compléments alimentaires : des cas d’effets indésirables hépatiques. Vigil’Anses n°17. Le bulletin des vigilances de l'Anses. Jun. 2022. Disponível em: https://vigilanses.anses.fr/sites/default/files/VigilAnsesN17_Juin2022_Curcuma_0.pdf

TGA. Medicines containing turmeric or curcumin - risk of liver injury. 2023. Disponível em: https://www.tga.gov.au/safety/safety-monitoring-and-information/safety-alerts/medicines-containing-turmeric-or-curcumin-risk-liver-injury.

EL-SAADONY, M. et al. Impacts of turmeric and its principal bioactive curcumin on human health: Pharmaceutical, medicinal, and food applications: A comprehensive review. Front Nutr. 2023 Jan 10;9:1040259. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9881416/.

NAKAGAWA, Y. et al. Short-term effects of highly-bioavailable curcumin for treating knee osteoarthritis: a randomized, double-blind, placebo-controlled prospective study. J Orthop Sci . 2014 Nov;19(6):933-9. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25308211/.

XU, Q. et al. Curcumin and multiple health outcomes: critical umbrella review of intervention meta-analyses. Front Pharmacol. 2025 Jun 5:16:1601204. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40538540/.

LiverTox: Clinical and Research Information on Drug-Induced Liver Injury [Internet]: Turmeric. Bethesda (MD): National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases; 2012. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK548561/.

DEMARZIO, D. et al. Liver Injury Associated with Turmeric—A Growing Problem: Ten Cases from the Drug-Induced Liver Injury Network [DILIN]. The American Journal of Medicine, 2022; 136, 200-206. Disponível em: https://www.amjmed.com/article/S0002-9343(22)00740-9/fulltext.

LOMBARDI, N. et al. Acute liver injury following turmeric use in Tuscany: An analysis of the Italian Phytovigilance database and systematic review of case reports. Br J Clin Pharmacol. 2021 Mar;87(3):741-753. Disponível em: https://bpspubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1111/bcp.14460.

COT. Statement on the potential risk to human health of turmeric and curcumin supplements. 2024. Disponível em: https://cot.food.gov.uk/Turmeric%20and%20Curcumin%20Supplements%20-%20Summary%20and%20conclusions.

BOSCARIOL, R. et al. Characterization of Commercially Available Turmeric for Use in Pharmaceutical Products and Food Supplements. J. Braz. Chem. Soc. 33 (12). 2022 Disponível em: https://www.scielo.br/j/jbchs/a/6hbLCwdKHjjvGLZYnqYdhPG/?lang=en.

 

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