Dissonância cognitiva em tempos de pandemia

Artigo
13 jan 2021
pensador dourado

 

Dissonância cognitiva é um estado de desconforto emocional causado pela percepção de que certos conteúdos mentais – opiniões, comportamentos, crenças – estão em contradição. Por exemplo, alguém que sabe que açúcar demais faz mal para a saúde, mas gosta muito de doces e come vários por dia.

A maioria das pessoas busca estratégias para reduzir o desconforto trazido pela dissonância, seja abandonando um dos polos da contradição (no caso, reduzindo o consumo de doces), seja adotando comportamentos e inventando narrativas para criar uma conciliação aparente – por exemplo, colecionando artigos de revistas que dizem que o açúcar é benéfico e ignorando os que apontam o contrário. O termo foi cunhado pelo psicólogo americano Leon Festinger em 1957, e serve para elucidar uma série de situações que vivenciamos ou testemunhamos no dia a dia.

Imagine que uma determinada seita, criada por um líder carismático, preveja que às 12 horas do dia 12/02/2021, um anjo descerá dos céus sobre um morro em São Tomé das Letras, e levará consigo todos os presentes que estiverem ajoelhados em oração, vestindo túnica branca, com uma coroa de flores sobre a cabeça. Esses fiéis seriam arrebatados e salvos, enquanto o resto da Humanidade estaria sujeito à ira de algum deus, que faria chover enxofre escaldante e coronavírus sobre suas casas.

Suponhamos ainda que, nessa data, 2 mil pessoas se reúnam nesse morro, sob o comando do líder carismático. Óbvio que o tal anjo não aparecerá e ninguém vai ser abduzido. Óbvio que a chuva de coronas enxofrados não vai ocorrer. Isso seria suficiente para desmentir e humilhar o líder da seita, que seria totalmente abandonado pelos fiéis, certo? Errado.

Se o profeta em questão tiver o dom do convencimento, poderá argumentar com seus fiéis, afirmando que o que ocorreu, na verdade, foi que eles salvaram a Humanidade. O anjo só não apareceu para arrebatá-los porque sua reunião foi uma demonstração de devoção tão impressionante que convenceu aquele deus de que ainda havia esperança para a Humanidade. Assim, eles tocaram seu coração, salvando todo o planeta de um apocalipse, que estava prestes a ocorrer.

Mais, a ausência do anjo era um sinal de que, de agora em diante, eles teriam a missão divina de divulgar A Palavra e atrair mais ovelhas ao rebanho divino. Só assim a Humanidade poderia sobreviver e prosperar. Dessa forma, o que deveria ser um final humilhante ao falso profeta se transforma numa prova divina de que ele é um enviado dos céus, para salvar a raça humana.

Parece absurdo? Pois já ocorreu várias vezes, em seitas religiosas e grupos de adoradores de ETs e óvnis. Os argumentos utilizados por esses líderes, quando suas previsões fracassam, mobilizam a necessidade emocional de reduzir a dissonância cognitiva para lançar um esforço missionário: quanto maior o número de “infiéis” convertidos à Palavra, maior o grupo de apoio para validar a fé dos apóstolos originais.  

Às vezes, pode ser muito difícil para o ser humano abandonar uma convicção filosófica, científica ou política à luz de novas evidências. A mente é craque em racionalizar os fatos, de forma a encontrar uma justificativa que explique como um evento que contradiz totalmente uma crença poder ser convertido em algo que sirva para confirmá-la.

Parece ilógico quando o processo não acontece conosco, mas acredite, todos estamos sujeitos a cair na armadilha da dissonância cognitiva, a qualquer momento. Quanto mais enraizada a crença, mais difícil será aceitar qualquer evidência que mostre que estamos enganados.

Vamos aqui tentar fazer uma previsão para este mês de janeiro, que dependerá de certas condições para que seja confirmada ou refutada:

Com a iminente chegada de alguns tipos de vacinas contra a COVID-19 no Brasil, já vemos grupos conspiracionistas sugerindo que a vacina seja aplicada primeiro nos políticos, como uma forma de comprovação de segurança, antes de ser distribuída à população. Essa proposta já ganhou muita força em grupos nas redes sociais e ganha mais corpo a cada dia, nas ruas e nos ambientes de trabalho.

Em contrapartida, surgiu uma proposta séria para que todos os ex-presidentes deem o exemplo, recebendo a vacina, em transmissão ao vivo, para que a população possa assistir e seguir os mesmos passos. Isso deveria ser suficiente para calar aqueles que querem que os políticos sejam os primeiros, mas não será.

Nossa aposta é que, se os ex-presidentes tomarem a vacina, os teóricos conspiracionistas passarão a duvidar do conteúdo das ampolas. Novas teorias conspiratórias surgirão, alegando que foi aplicado um placebo, ou que o efeito maléfico da vacina surgirá no longo prazo, ou que tudo não passou de uma encenação.

Não fique surpreso se surgirem boatos de que algum dos ex-presidentes que recebeu o imunizante era na verdade um sósia e que o verdadeiro estaria escondido em um sítio em Atibaia, ou em Cuba.

A coisa pode ficar ainda bem pior se um deles tiver algum problema de saúde nos meses seguintes, mesmo que não tenha relação alguma com a vacina, ou com a COVID-19. Vamos lembrar que são pessoas idosas, que estão sujeitas a vários problemas de saúde. Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, completa 90 anos de idade em 2021. Caso ele seja vacinado em janeiro e sofra um problema de unha encravada em maio, as redes de desinformação começarão a ferver: “Tá vendo? Nós avisamos!”

Assim funciona a mente de quem foi tragado por uma teoria conspiratória. Não importa a quantidade e nem a qualidade das evidências apresentadas contra suas convicções, o conspiracionista convicto adaptará os fatos a fim de demonstrar que tudo o que foi apresentado apenas ratifica aquilo em que ele já acreditava. É como se um jogador de futebol tivesse a missão de acertar o gol num campo onde as traves têm rodinhas, e são sempre levadas até onde a bola está. Não tem erro. É sempre um gol de placa.

Roger Bonsaver é divulgador científico e membro da Rede Brasileira de Jornalistas e Divulgadores de Ciência

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