Pesquisa mostra medo e desalento entre profissionais no SUS

Artigo
11 nov 2020
covid brasil

 

Não é de hoje que Gabriela Lotta, formada em administração pública, pesquisa o trabalho dos agentes comunitários de saúde (ACS) e agentes de controle de endemias (ACE), aquele pessoal que vai de casa em casa checando a saúde dos moradores ou orientado na eliminação, por exemplo, de criadouros de Aedes aegypti. O interesse nesses trabalhadores começou já no mestrado e se estendeu pelo doutorado em Ciência Política. A pandemia, porém, ofereceu a Gabriela e sua equipe de pesquisa na Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo a oportunidade de ampliar seu olhar para os profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) na linha de frente do combate à COVID-19, incluindo médicos e enfermeiros, suas condições de trabalho, treinamento, seus medos e expectativas.

Na terça-feira, 10, foram divulgados os dados da terceira, e talvez última, fase da pesquisa "A Pandemia da COVID-19 e os(as) Profissionais de Saúde Pública do Brasil", que colheu dados entre 15 de setembro e 15 de outubro, realizada online com 1.520 entrevistados. Desse total, 36,6% são das áreas de psicoterapia, fisioterapia, odontologia, nutrição, gerência de serviços. E 27,8% vêm da enfermagem, 18% são médicos e 17,6% são ACSs e ACEs. Mulheres compõem 63,8% dos pesquisados.

“O que a gente percebe ao longo das três fases da pesquisa é que algumas coisas melhoraram um pouco, principalmente no que se refere a acesso de equipamentos de proteção e treinamento, mas depois de tantos meses, a gente esperava que a situação estivesse bem melhor. Há um descaso governamental que se reflete em profissionais amedrontados, despreparados, que não são testados periodicamente e não recebem equipamento de proteção permanentemente. Além disso, o medo e os efeitos negativos sobre a saúde mental dos entrevistados se mantêm em níveis muito elevados”, conta a pesquisadora, que ainda não sabe se haverá verba para prosseguimento do estudo.

O futuro também preocupa os profissionais da área, que, com a pandemia, se veem num dia a dia em que ficam cada vez mais evidentes a desestruturação e as fragilidades do SUS.

No geral, 79% têm medo da COVID-19 (84% dos ACSs e ACES; 78,7% do pessoal de enfermagem; 78,8% dos médicos e 79,5%, outros) e não é para menos: 94,5% dos entrevistados conhecem um colega de trabalho que teve diagnóstico de COVID-19, ou tem suspeita da doença. “Todo mundo se lembra das cenas da população de Nova York em lockdown, mas que todo fim de tarde aplaudia os profissionais da linha de frente, ou dos europeus que aplaudiam ou cantavam para o pessoal da saúde. Por aqui, isso durou menos de uma semana e, na prática, o pessoal da saúde foi hostilizado, enfermeiras foram agredidas”, ressalta Gabriela. Esse medo envolve também a possibilidade de levar a doença para casa e infectar parentes e amigos.

Não à toa, 79% dos entrevistados sentem que a pandemia os afetou negativamente em termos emocionais, mas apenas 28,4% receberam suporte para lidar com problemas emocionais.

 

Geografia emocional 

Os profissionais que se dizem emocionalmente afetados pela pandemia são 73,3% na região Norte, 72,15% no Nordeste, 82,19% no Centro-Oeste, 80,6% no Sudeste e 85,04% no Sul do País. Essa percepção é um pouco maior entre pessoal de enfermagem e menor entre ACSs e ACEs.

As principais queixas são: estresse/ansiedade (77%), medo (65%) e  cansaço (64%). De acordo com a pesquisadora, esses sentimentos são desencadeados por vários fatores, entre eles a disseminação exponencial do vírus (60%), a possibilidade de infecção própria (60%) e de parentes ne colegas (69%), bem como exaustão física e psicológica (57%). Profissionais de saúde são treinados para salvar vidas e a perda de pacientes em grande número tem um peso emocional enorme. Sobrecarga de trabalho (47%), incerteza sobre o futuro (56%) e ver colegas infectados pelo novo coronavírus (43%) também afetam o emocional.

Dos 28,4% que buscaram apoio, 39% receberam atendimento psicológico ou psiquiátrico oferecido pelo trabalho, 14% recorreram a profissionais dos Centros de Atendimento Psicossocial (CAPs) e Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF), teleatendimento (11%), webinars e palestras (14%), e orientação e apoio dos gestores (23%).

Dois aspectos melhoraram consideravelmente desde o início da pandemia, embora estejam longe do ideal: treinamento e acesso a equipamentos de segurança, como EPIs. Nesta etapa da pesquisa, 63,9% declararam ter recebido equipamento continuamente durante a crise, 30,7% uma ou poucas vezes e 5,4% nenhuma vez. “Isso é bem diferente da situação crítica que vimos o início da crise de saúde pública no país. Na primeira vez que perguntamos sobre treinamento, apenas 14% tinham recebido algum – ou seja, 86% estavam lidando com a pandemia sem treinamento – e hoje 47,8% foram treinados. Além disso, na primeira pesquisa, os entrevistados afirmaram que não recebiam orientação nenhuma das respectivas chefias, que também não sabiam muito bem o que fazer”, explica Gabriela.

 

Conhecimento

Esse quadro mudou com o passar do tempo e maior conhecimento da doença, além do estabelecimento de protocolos para tratamento. Dentre os vários grupos, o dos ACSs e ACEs é o que menos recebeu treinamento, 65,7%. “É preciso entender que esses agentes não são exatamente profissionais. A maioria é composta por mulheres negras, que receberam treinamento para fazer acompanhamento domiciliar, algo que acabou por causa do isolamento social imposto pela pandemia. O Ministério da Saúde simplesmente ignorou a situação precarizada dos agentes de saúde, tanto que eles só foram reconhecidos como trabalhadores essenciais da saúde em meados de julho. E como o governo federal não lhes deu uma nova função, estados e municípios se encarregaram de colocá-los em diferentes funções”, explica Lotta.  

Os profissionais da saúde pública se sentem protegidos pelos governos municipais e estaduais (55,4% e 51,9% respectivamente), mas a taxa cai para 34,3% no que se refere ao governo federal, que teve três diferentes ministros da Saúde durante a pandemia, sendo que o atual, o general de divisão Eduardo Pazuello, admitiu que sequer conhecia o SUS antes de assumir o cargo.

Segundo a pesquisadora, os profissionais da área se ressentem da falta de orientação do Ministério da Saúde e do negacionismo do governo federal, que comprometeu tanto o processo educativo nas unidades de saúde quanto a possibilidade de uniformizar protocolos clínicos em acordo com a produção científica internacional. Não foram poucos os médicos e enfermeiros agredidos verbal e fisicamente por se negarem a prescrever cloroquina e hidroxicloroquina, ou simplesmente por colocar a COVID-19 como causa da morte em atestados.

Mais de 90% dos entrevistados desaprovam, total ou parcialmente, que o presidente Jair Bolsonaro prescreva medicamentos para a população, como insiste em fazer com a cloroquina e hidroxicloroquina, e mais de 97% concordam total ou parcialmente com as recomendações de isolamento social, uso de máscaras e adoção de medidas de higiene. São 94% os que reconhecem a importância da ciência na determinação dos cuidados com a saúde. Para 68% dos entrevistados, só o profissional de saúde deve escolher o tratamento mais adequado para o paciente, e 66,2% afirmam que apenas drogas com comprovação de eficácia devem ser utilizadas.

“É muito clara a percepção de que o governo federal, em vez de ajudar, atrapalha o combate à pandemia e o controle da disseminação da doença”, avalia Gabriela.

A pesquisadora pretende lançar um novo estudo, desta vez qualitativo, em que, dentre outros temas, vai mostrar como esses profissionais imaginam o futuro próximo, mas adianta que ele se mostram desesperançosos. “Eles anteveem um SUS com menos recursos, desestruturado, tendo de enfrentar a demanda de atendimentos reprimidos durante a pandemia, os pacientes com sequelas da COVID-19 e a busca intensa por vacinas contra a doença”, diz Lotta.

Ruth Helena Bellinghini é jornalista, especializada em ciências e saúde e editora-assistente da Revista Questão de Ciência. Foi bolsista do Marine Biological Lab (Mass., EUA) na área de Embriologia e Knight Fellow (2002-2003) do Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde seguiu programas nas áreas de Genética, Bioquímica e Câncer, entre outros

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