Mídia exagera repercussão de estudos isolados

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21 nov 2019
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Arte sobre ilustração da ESA

A recente descoberta de água no planeta K2-18b, a 110 anos-luz da Terra, assanhou a mídia e produziu várias reportagens, a minha incluída, classificando o achado como a primeira descoberta de água em um planeta “potencialmente habitável” fora do sistema solar.

A reação negativa da comunidade astronômica não demorou. Uma enxurrada de críticas foi postada no Twitter afirmando que, embora o K2-18b orbite sua estrela a uma distância que a coloca dentro do que os astrônomos chamam de zona habitável, o planeta tem temperatura e pressão altas demais para que possa abrigar vida.

Os sentimentos expressos pela astrônoma de Harvard Linda Kreidberg, em um ensaio publicado na Scientific American, refletem a opinião de boa parte da comunidade. Ela insinua que a imprensa deu um alarme falso, e que cientistas, assessores de imprensa e a mídia contribuíram para distorcer história.

No entanto, ao descrever o K2-18b como planeta potencialmente habitável, os jornalistas estavam apenas relatando, com precisão, a opinião dos cientistas que fizeram um dos estudos. Esses pesquisadores afirmaram várias vezes aos repórteres que o planeta era “potencialmente habitável” — e reafirmaram essa posição, mesmo depois das críticas dos pares. 

O episódio reflete um tema antigo: como nós, jornalistas de ciência, deveríamos cobrir avanços incrementais de pesquisa, quando a ciência que os embasa ainda não está estabelecida?

A história recente traz numerosos exemplos de como essas histórias sobre estudos únicos podem acabar mal. A mais famosa, claro, é a cobertura de um paper da Lancet, de 1998, em que Andrew Wakefield e colaboradores associaram a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) ao autismo e doença de Crohn. Outro caso famoso envolve papers publicados pela Science, entre 2004 e 2005, em que o grupo liderado pelo sul-coreano Hwang Woo-Suk alegava ter clonado células-tronco embrionárias humanas pela primeira vez.

Ambas as pesquisas foram desacreditadas posteriormente. No caso de Wakefield, houve viés na escolha dos participantes do estudo, houve vários conflitos de interesse que não foram mencionados na época, e as afirmações do grupo não se sustentavam à luz da ciência. O paper foi retirado em 2010. Os estudos de Woo-Suk eram pura fraude.

Eu poderia dizer que esses dois casos são aberrações, já que tanto a mídia quanto as revistas especializadas foram enganadas por pesquisadores que tinham interesses escusos ou foram simplesmente desonestos quanto aos resultados de suas pesquisas. Mas as coisas podem dar errado mesmo quando cientistas agem de boa fé. É perfeitamente legítimo pedir aos que estão no topo de sua profissão que interpretem o próprio trabalho, mesmo que esta interpretação seja especulativa e contrarie a opinião de seus rivais e pares. Mas há algumas condições.

Em primeiro lugar, um jornalista precisa sempre expor as vozes discordantes. Infelizmente, a maior parte da cobertura – para não dizer toda cobertura – da história do K2-18b falhou nesse quesito, como costuma acontecer com ouros casos de estudos únicos. (A minha reportagem sobre o K2-18b foi criticada por não ter incluído vozes discordantes suficientes.) Muitos jornalistas acreditam que basta uma pesquisa ser publicada numa revista com peer-review para ter credibilidade, e cometem o erro de escrever suas reportagens de forma acrítica. 

Como escrevi num artigo para a BBC News, é nossa obrigação, como jornalistas de ciência, contestar o que nos é dito. Isso é particularmente importante agora, quando escrevemos sobre temas polêmicos como transgênicos, clonagem e mudanças climáticas, que têm dimensões políticas complexas, além das científicas. 

Mas, mesmo no caso das descobertas da ciência básica — seja no terreno da antropologia ou da energia escura — frequentemente há muito debate. A narrativa padrão “as pessoas pensavam x, mas agora, com esta descoberta, elas acham y” não é como a ciência funciona, mas, francamente, uma versão bem enfadonha de como ela realmente opera.

Outra condição é que nem todas as vozes têm o mesmo peso, já que a opinião das pessoas não qualificadas numa área específica do conhecimento tem menos peso do que a dos especialistas. Como várias plataformas sérias de jornalismo, a BBC News, onde trabalho, tem uma política rigorosa de equilíbrio e imparcialidade. Nos anos 1990 e 2000, essa política fez com que muitos de nossos programas “equilibrassem” vozes alertando para o perigo das mudanças climáticas, ou garantindo a segurança das vacinas com pessoas que defendiam o oposto. 

Essas visões discordantes geralmente vinham de grupos de pressão como negacionistas das mudanças climáticas e antivacinas ou de cientistas que faziam comentários sobre essas áreas sem serem especialistas. Os jornalistas de ciência e saúde da BBC argumentaram fortemente contra essa política, que era um pilar do jornalismo da BBC. Em 2010, isso levou a uma mudança na orientação editorial, que passou a dar o devido peso para o consenso científico, diante de visões contrárias. 

A terceira e última condição é estar sempre atento ao mais antigo inimigo do jornalismo científico, o hype, a exposição exagerada de uma ideia, produto ou pessoa. Jornalistas devem estar atentos ao entusiasmo natural dos pesquisadores e de seus esforços, às vezes deliberados, de obter publicidade e garantir recursos para seus estudos. Na academia, curas do câncer, uma nova visão da física e fontes inesgotáveis de energia limpa parecem sempre precisar de mais uns cinco ou 10 anos de pesquisa. 

O exemplo mais recente de nova tecnologia apresentada como solução para os todos os nossos problemas é a edição de genoma. Em agosto de 2017, Soukhrat Mitalipov e equipe publicaram na Nature que tinha conseguido reparar com sucesso um gene associado a uma rara condição cardíaca em um embrião humano. Desde então, o estudo tem sido contestado, mas, ao noticiar o trabalho, o mais vendido jornal britânico, o Sun, publicou que “o estudo revolucionário pode pôr fim a 10 mil doenças hereditárias, inclusive câncer” e que “cientistas afirmam que pode ser o fim das doenças hereditárias”.

Dezessete anos antes, os tabloides britânicos diziam a mesma coisa sobre terapia gênica. Uma reportagem do  Daily Express Sunday Review, de julho de 2000, questionava: “Será que estamos às vésperas do maior avanço da medicina de todos os tempos, maior ainda que o fim da varíola e da cólera –, a vitória sobre o próprio tempo?” Previsões róseas também foram feitas, em 2007, sobre micróbios que produziriam quantidades infinitas de biocombustíveis. 

Ironicamente, essas reportagens crédulas e exageradas podem estar ficando cada vez mais comuns, justamente por causa do esforço das instituições de pesquisa para se tornar mais simpáticas para os jornalistas de ciência. 

Organizações como o U.K.’s Science Media Center surgiram para coordenar a divulgação de press releases e outras fontes para jornalistas, com a intenção declarada de impedir a disseminação de informações falsas. Nós, jornalistas de ciência, recebemos ideias, nossos editores ficam felizes, publicamos histórias inspiradores e o público fica satisfeito e otimista.

Mas uma linha de montagem de informação, que parte dos cientistas para as assessorias de imprensa, e delas para a mídia, nos coloca diante de outro tipo de distorção da informação. Uma grande reportagem de ciência não serve para nada, se dá aos leitores uma impressão falsa ou se retrata a ciência de forma unidimensional. Essas histórias constituem um ramo diferente de fake news. Ao escrevê-las, não fazemos nada de bom para os cientistas, para suas assessorias de imprensa e nem para nossos leitores.

Quando comecei como jornalista de ciência, nos aos 1980, estudos únicos eram a norma. Nosso trabalho era traduzir a informação científica complexa e, engenhosamente, explicar seu significado para o público leigo.

Mas muitos de nós víamos a responsabilidade de fazer mais, de contestar, pesar e avaliar os textos sagrados que recebíamos de pesquisadores oniscientes, e colocá-los dentro de um contexto social. Em outras palavras, nos tornamos jornalistas, usando nossas próprias habilidades e experiência para adicionar valor às matérias e prestar um importante serviço público.

Na minha opinião, porém, por causa dos cortes de pessoal e orçamento nas redações, o tempo e esforço extra necessários para isso passaram a ser vistos pelos editores como um luxo, e as matérias sobre estudos únicos voltaram à mídia com força.

Talvez, dentro de 20 anos, cientistas confirmem que o K2-18b é realmente habitável. Até lá, vamos torcer para jornalistas de ciência tenham tempo e autoconfiança para ouvir uma grande variedade de opiniões e divulgar suas próprias opiniões. 

Pallab Ghosh é um premiado correspondente de ciência da BBC News, atuando na TV, rádio e plataformas digitais. Artigo publicado originalmente em Undark.

 

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