O químico, o príncipe e a pseudociência

Artigo
12 out 2019
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o príncipe de Gales

Um químico inglês, Prof. Mark Lorck, encaminhou uma respeitosa carta a Sua Alteza, príncipe Charles, questionando a sugestão do tratamento do gado com a homeopatia, o que, na opinião do herdeiro do trono britânico, evitaria o uso excessivo de antibióticos.  Isso aconteceu em 2016. Consideramos muito improvável que o príncipe fizesse uma proposta equivalente nos dias de hoje, pois desde 2018 a Inglaterra aboliu a homeopatia do seu sistema público de saúde, depois de acentuado declínio no uso: de 1996 a 2016, o número de prescrições de produtos homeopáticos caiu, de pouco mais de 170 mil, a menos de 10 mil. 

 É evidente que a carta do Prof. Lorck é apenas uma das várias manifestações de cientistas e profissionais sobre a homeopatia, mas ilustra, de forma bem-humorada, a importância do questionamento frente a declarações, por vezes ingênuas, de pessoas que participam da formação da opinião pública.

 Na carta, o Prof. Lorck diz que, uma vez que o príncipe Charles sugeriu o uso de homeopatia numa reunião com vários cientistas e funcionários do governo, ele, o príncipe, se via como pessoa qualificada para discorrer sobre o tema. Portanto, o químico se sentiu à vontade para trocar algumas ideias com Sua Alteza sobre esse tema bastante controverso.

 Aplicando as premissas da homeopatia, propôs o uso da cafeína para o tratamento da insônia, de tal forma que fossem feitas inúmeras diluições e, no final do processo, a cafeína contida em uma xícara de café estaria diluída em um volume de água similar ao do sistema solar. Pela homeopatia, essa água seria capaz de armazenar informações relativas à cafeína. Sendo assim, ele pergunta ao príncipe: como a água se lembra da substância inicial, mas não das impurezas?  

O padrão-ouro para a pureza da água, utilizado por químicos analíticos, é de 10 partes de impureza para 1.000.000.000 de partes de água. Usando as diluições preconizadas pela homeopatia, a quantidade de impurezas superaria a quantidade de cafeína. Então, como as soluções homeopáticas saberiam de quais moléculas a informação deveria ser armazenada? Das impurezas ou da cafeína?

 Uma vez que a homeopatia foi criada muito tempo antes da descoberta de antibióticos, o químico perguntou por que a homeopatia foi ineficaz no tratamento de infecções na era pré-antibiótico? Como ele conciliaria o sucesso da Química moderna com a homeopatia? Se a água retivesse uma lembrança do que estava anteriormente armazenado nela, os resultados das reações químicas comuns não seriam completamente imprevisíveis e, portanto, não reprodutíveis?

 Para finalizar, o químico pergunta como a informação presumivelmente estocada na água é transferida para a pílula de açúcar usada na homeopatia, após a evaporação do solvente?  Por que o príncipe insiste em apoiar a homeopatia, apesar de todas as evidências de que ela não funciona? O Prof. Lorck termina sua carta, provavelmente de maneira irônica, manifestando genuíno interesse nas respostas que o príncipe poderia fornecer.

Atualmente, em todo o mundo a homeopatia é confrontada com manifestações de autoridades sanitárias, conselhos e órgãos governamentais, academias científicas e profissionais da área de saúde, alertando para a ausência de comprovação de que a prática tenha qualquer efeito além do placebo. 

Também se tornam frequentes os alertas de que a homeopatia pode levar a comprometimento da saúde do paciente, quando utilizada em substituição à medicina clássica, ou quando leva ao atraso da aplicação de condutas terapêuticas cientificamente definidas. 

 

Ana Campa é professora titular da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP

Mauro Bertotti é professor titular do Instituto de Química da USP

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