O que é bom para dor de dente? ciência!

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13 set 2019
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cartum de dentista do século 19

Imagination is more important than knowledge. For knowledge is limited to all we now know and understand, while imagination embraces the entire world, and all there ever will be to know and understand.” (Albert Einstein)

Imagine uma dor forte. Física. Comum. Vamos supor a dor de dente. Durante milênios, esse foi um grande problema da humanidade. Você, com todos os seus problemas e o noticiário de “crise”, homicídios e celebridades, provavelmente já perdeu a noção do que é ter, mesmo, um problema. Mas por quê? Porque esse tipo de problema mais básico, substancial, fundamental, foi resolvido através de observações sistemáticas e testes controlados. Um método relativamente simples de guiar o raciocínio humano, mas que gerou consequências mais profundas que qualquer outro já experimentado: a ciência.

É interessante perceber que a dor de dente não deixou de existir. Os problemas não entram em extinção. Eles simplesmente recebem um “tratamento”. Na verdade, um dos aspectos mais curiosos é que, sob o Sol, os problemas se acumulam. À medida que o espírito lógico-objetivo os resolve, um a um, eles são represados, contidos em suas consequências nefastas. O que se anula, e isso apenas temporariamente, são as implicações dos problemas, das quais as pessoas se veem livres. E dessa muralha enorme de contenção metodológica surgem novos desafios, tanto de manutenção do status quo de superação, quanto da gestão de novos dilemas. 

Um cenário bem aos moldes do que se passa na construção de uma grande barragem, com seus impactos negativos e positivos sobre os meios biótico, físico e social, mas que, apesar da nova problemática, garante água tal como se precisa e sem maiores preocupações... por algum tempo.

A anulação da dor física é um dos processos mais impressionantes do progresso do método científico. A ciência possui clara orientação voltada ao mundo positivo, isto é, o mundo compartilhado, físico, objetificado, enfim, positivado na experiência de duas ou mais pessoas. A dor, por seu turno, é de todos e de ninguém ao mesmo tempo. A menos que a Netflix esteja preparando uma grande revelação, de que existem seres “Sense 8” entre nós, somos incapazes de compartilhar dor. 

“A dor é um ato que precisa ser interpretado primeiro por quem sente”, assinalou a jornalista científica Germana Barata para o portal da SBPC. Para tornar mais clara a (complexa) compreensão do problema da dor, sabe-se que ela pode variar de intensidade dependendo de outra coisinha bem “fácil” de ser captada pela observação: o ignoto estado emocional.

A intenção aqui é deixar claro o tamanho do obstáculo que o real coloca ao enfrentamento dos problemas da condição humana, e como essa consciência requer dedicação, calma e, ao mesmo tempo, rigor na conduta da busca do conhecimento. 

A solução para um problema como esse, com traços subjetivos e objetivos ao mesmo tempo, vemos logo de partida, deverá ser parcial. O conhecimento científico é sempre parcial. Presta-se, todavia, a resolver o resto que atenda a seus requisitos de objetividade. A visão ampla que o observador possa ter de determinado fenômeno não inviabiliza a aplicação do método.

É um erro de compreensão achar que o método não serve porque um problema carrega importantes componentes não mensuráveis, não quantificáveis, incontroláveis. O controle parcial da dor é prova disso. 

Inicialmente, o conhecimento tradicional percebeu e registrou associações simples entre alimentos (predominantemente, plantas) e mudanças no padrão de sensações do corpo. Os egípcios, sabe-se, usavam plantas para entretenimento alucinógeno e, com isso, rapidamente perceberam sua capacidade de diminuir dores do corpo. Foi o caso da mandrágora, que de tão disseminada no Oriente Médio, por sua capacidade de alteração de estados de consciência, é citada mais de uma vez, não por acaso, no Antigo Testamento, no Gênesis e no Cântico dos Cânticos.

A evolução do conhecimento, das soluções parciais, mas úteis, para problemas evidentes se confunde com a história da ciência. É o tipo de organização do pensamento que caracteriza o método. O desenvolvimento da “imaginação científica” vem da elementar associação e eterno aperfeiçoamento do registro de soluções de problemas bem definidos ou, dito de outra forma, de soluções parciais de problemas holísticos. 

Veja a tradição de meditação dos hindus baseada na respiração, os “pranayamas”. Eles perceberam que ritmos respiratórios específicos podiam alterar estados de consciência, a frequência cardíaca e até a sensibilidade física. Com essa observação, desenvolveram muitas das técnicas hoje reunidas sob o nome de ioga. O princípio é o mesmo dos alucinógenos do Nilo. Há uma relação entre um fator independente, e outro de resposta. 

O resultado tecnológico é que o ser humano pode manipular indiretamente e, em certa medida, controlar razoavelmente, resolver parcialmente uma variável intangível, fazendo que a solução esperada apareça na realidade como um produto de fatores.

A coisa ficou mais séria quando, resolvido o problema urgente da dor física, o observador perguntou: “por quê?” Por que essa planta e não aquela? Por que a folha de coca também alivia a dor, mas precisa ser usada de forma diferente (era mastigada e cuspida nos ferimentos do enfermo)?” A estruturação do pensamento estava orientada para resolução de problemas. Havíamos aprendido que a precisão na formulação do problema e o cuidado na observação de associações eficazes para superá-lo (de forma experimentalmente razoável) seria um caminho para aumentar o bem-estar. 

Todavia, como solucionar um problema que exige a superação de si mesmo, enquanto fenômeno desconhecido? Esse é, finalmente, o grande avanço da humanidade, que ficaria conhecido como “revolução científica”.


As relações percebidas são harmonizadas e justificadas por meio de “teorias”. Teórico é o observador que consegue “enxergar através” dos fenômenos imediatos à percepção humana, e sobre os quais ele mesmo faz as relações tão úteis que acabamos de descrever. 

A formulação de teorias é uma esforço da mente humana de organizar tudo que está relacionado ao fenômeno central (no nosso caso em tela, a dor) e propor uma explicação que atenda aos seguintes requisitos: só deve conter assertivas passíveis de serem observadas experimentalmente por outras pessoas, não deve envolver quaisquer aspectos de transcendência religiosa ou viés ideológico, e deve rabiscar um ou mais modelos de quantidades ou mensurações com os quais deve-se obter o controle, ao menos parcial, do fenômeno central da teoria.

Um grandiosíssimo empreendimento do pensamento humano, não? Dessa forma, “revolução científica” ganha ares de uma “ética” ou “modo de ser” do pensamento sobre “fenômenos”, o que surge, parcialmente, aos olhos como realidade. A ciência é uma forma de pensar comedida, humilde em sua limitação diante do que pode ser conhecido perante seus critérios de teoria, e que exige que seja convalidada por terceiros, jamais a verdade de um homem só. 

Talvez o segredo do enorme sucesso do empreendimento científico tenha sido a quebra do monopólio do conhecimento. Se nos ativermos apenas à parte objetiva do que pode ser conhecido; e se exigirmos que as primeiras tentativas de resposta às mais diversas questões tenham, como característica, serem replicáveis por terceiros, estamos a propor uma ampla e profunda democratização da construção do conhecimento, além de garantir um desenvolvimento permanente de respostas alternativas, numa concorrência sadia pela prosperidade humana.

Alguém pode contra-argumentar que a ciência não deveria ser tão prestigiada assim, uma vez que existem diversas outras formas de organizar o pensamento para viver com bem-estar no mundo, e que, por exemplo, existiriam povos em que não há registros de “dores da alma” tão lancinantes como o epidêmico transtorno de depressão. Contudo, acerca de um ponto temos que concordar. A ciência não afirma que você deve ser queimado na fogueira se preferir guiar sua vida com saberes tradicionais. Além disso, mantendo-nos num estado pré-científico, poderíamos até não ter criado este mundo moderno repleto de intenso sofrimento advindo do apego e do tédio, problemas para os quais a ciência, admitimos humildemente, ainda está aquém de uma boa contribuição. 

Ou, mesmo, talvez não tivéssemos tantos sintomas de ansiedade crônica, especialmente quando vem chegando o fim do mês… mas teríamos, talvez, uma vida inteira marcada pela dor de dente.

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Romero Maia é analista de Estatística do IBGE, e MSc. em Psicologia Cognitiva

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