Tirando ciência da balbúrdia

Artigo
7 mai 2019
Cértebro humano preservado em formaldeído
Cérebro humano preservado/Maksym Kozlenko - CC-BY-SA 4.0

 

No início dos anos oitenta apareceu um grupo inesperado de pacientes no norte da Califórnia. Todos eram jovens (entre vinte e quarenta anos), e todos tinham desenvolvido, rapidamente, características bastante graves e avançadas de doença de Parkinson: uma limitação severa de seus movimentos. De fato, melhoravam com o medicamento mais usado para corrigir as dificuldades motoras da doença, o que sugeria que realmente tinham Parkinson. O problema é que doença de Parkinson costuma afeta idosos, e seus sintomas se instalam devagar, evoluindo ao longo de anos. Esse grupo de pacientes era muito diferente disso, e o fato de todos se encontrarem na mesma região sugeria que havia um fator ambiental envolvido. 

Tentando entender o que estava acontecendo, as equipes que os atenderam pesquisaram extensivamente quais poderiam ser os fatores comuns, e não acharam quase nada, exceto que todos tinham experimentado uma droga nova que havia aparecido no mercado negro californiano, chamada de “heroína sintética” (eram os anos 80, afinal...). Os médicos conseguiram então amostras da tal “heroína sintética” tanto a partir de apreensões policiais como com “traficantes amigáveis”. Testaram a sua composição química e viram que a droga continha uma mistura de duas substâncias, 1-metil-4-fenil-4-propionoxi-piperidina (que apelidaremos de MPPP) e 1-metil-4-fenil-1,2,5,6-tetrahidropiridina (que apelidaremos de MPTP). 

MPPP era uma droga de abuso já conhecida, e informalmente chamada de “heroína sintética”. Foi desenvolvida nos anos 70 por um jovem químico chamado Barry Kidston, que usava seu conhecimento técnico para, nas horas vagas, em casa (não na universidade pública...), criar novas moléculas com efeitos semelhantes aos de opioides conhecidos. A estratégia desse jovem era criar moléculas novas parecidas com as já conhecidas e proibidas por autoridades, com a estranha lógica de que as novas moléculas poderiam ser usadas legalmente, porque ainda não estavam na lista de substâncias proibidas (eram os anos 70, afinal...).

De fato, Kidston usou seu próprio preparado caseiro por vários meses sem notar nenhum efeito indesejado (pelo menos, não indesejado por ele). Porém, começou a ficar desleixado e a usar atalhos para sintetizar sua molécula de abuso particular. Um dia, após usar um “preparado descuidado” de MPPP, desenvolveu sintomas de Parkinson severos e rápidos. Alguns meses depois, quando faleceu em decorrência de abuso de drogas, uma autópsia revelou que seu cérebro tinha alterações típicas da doença. Apesar de notar isso e publicar seus achados, os médicos que examinaram o caso, na época, não puderam relacionar os danos cerebrais a nenhuma molécula específica, dentre as várias que o morto havia “estudado”, nada cientificamente, usando a si mesmo como animal de teste.

Quando apareceram os novos casos na Califórnia, cientistas puderam estabelecer uma ligação entre a molécula específica contaminante da “heroína sintética” mal preparada (drogas de abuso obviamente não têm sua pureza testada), o MPTP, e o aparecimento de doença de Parkinson.

Até aí, a maioria das pessoas diria que aprendemos que drogas podem causar lesões no cérebro, e nada mais. Mas cientistas são criativos, e sabem usar a desgraça para criar coisas novas. Com o conhecimento de que MPTP promovia Parkinson em humanos, propuseram testar o efeito dessa molécula em animais de laboratório, com o objetivo de criar um modelo da doença nesses animais, facilitando seu estudo. De fato, preparações de MPTP, que eram vendidas para fins de pesquisa por uma empresa química, sumiram rapidamente dos seus estoques, apenas um dia após a publicação do trabalho descrevendo os efeitos da molécula em seres humanos. Pesquisadores do mundo todo queriam usar MPTP para entender a doença de Parkinson, e compraram tudo que havia em estoque. 

E funcionou! Animais de laboratório tratados com MPTP desenvolvem Parkinson, e esse modelo é usado até hoje para compreender por que essa doença acontece. Células em cultura tratadas com MPTP também têm muitas das características presentes na doença. 

Também descobrimos outras moléculas, como a rotenona, que é tóxica para peixes,  com efeitos parecidos. Isso nos ajuda a evitar os raros casos de Parkinson com causas ambientais, como os que aconteceram com os pacientes californianos. Graças a essa descoberta e ao desenvolvimento desses modelos experimentais, pudemos entender como que células de uma região específica do cérebro, a substantia nigra, morrem na doença de Parkinson, e desenvolvemos maneiras cada vez melhores de evitar, tratar e controlar a doença. 

Cientista é assim mesmo: usa qualquer observação nova, até mesmo danos cerebrais em pacientes usuários de drogas, para ganhar conhecimento e tentar fazer alguma coisa útil! 

Alicia Kowaltowski é professora de Bioquímica do Instituto de Química da Universidade de São Paulo

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