Como não investigar um fenômeno: os "agroglifos"

Artigo
6 mar 2019
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Agroglifo inglês, fotografado por Lucy Pringle
O "agroglifo" de Prudentópolis. Reprodução 

Em 2016, foi noticiado o aparecimento de um “agroglifo” em uma lavoura de trigo no município paranaense de Prudentópolis. Em agosto de 2018, o site da revista UFO – tradicional publicação brasileira voltada para supostos fenômenos “extraterrestres” – publicou matéria de destaque mencionando o agroglifo: "Saiu o relatório do possível agroglifo de Prudentópolis, feito pela revista UFO". A edição impressa de número 261 (setembro/outubro de 2018) elaborou ainda mais a questão, como veremos.

Agroglifos são, basicamente, figuras de grandes dimensões feitas em plantações por meio  do achatamento das plantas. Ufólogos e cerealogistas (os "especialistas" em agroglifos) acreditam que essas figuras são tentativas de comunicação extraterrestre. Trata-se, de fato, de um tipo de negacionismo irracional, comparável ao que alega que a Terra é plana. Por que digo isto? Acompanhe.

Parte da história relatada a seguir foi retirada do livro de Carl Sagan O Mundo Assombrado pelos Demônios (publicado no Brasil pela Companhia das Letras). Na década de 1970, apareceram pela primeira vez uns círculos estranhos em plantações. Esses círculos apareceram na Grã-Bretanha e depois se espalharam para outros lugares do mundo. A maioria dos desenhos possui grandes dimensões, de maneira que só é possível vislumbrar a figura completa a algumas dezenas de metros do chão. Os desenhos começaram como simples circunferências e hoje podem chegar a desenhos com níveis consideráveis de complexidade.

Quando esses desenhos apareceram não havia uma explicação simples sobre eles: como foram feitos, qual o motivo de estarem nas plantações, qual o significado deles, etc. Não é preciso muita imaginação para inferir qual foi a crença popular mais difundida a respeito disso: UFOS.

Sim, alienígenas, com uma tecnologia e sabedoria incríveis, chegavam ao nosso planeta para se comunicar através de desenhos geométricos. Videntes e sensitivos atestavam esse fato e até detectaram uma “energia orgástica” no interior dos círculos, seja lá o que isso quer dizer. Em 1991, Doug Bower e Dave Chorley, de Southampton, anunciaram que vinham fazendo a “pegadinha” dos desenhos há quinze anos. Eles disseram que planejaram a brincadeira tomando cerveja em um pub. Caso encerrado, portanto. Infelizmente, não.

Apesar de Bower e Chorley demonstrarem como fazer até os desenhos mais elaborados, os chamados cerealogistas reclamaram, pois Bower e Chorley estavam “roubando de muitos o prazer de imaginar acontecimentos extraordinários”. A conclusão que podemos extrair da afirmação entre aspas é que não importa o quanto as coisas afrontem a nossa razão. Seja astrologia, numerologia, medicina quântica, homeopatia ou, neste caso, os agroglifos: as pessoas simplesmente querem acreditar. A máxima “I want to believe” do seriado dos anos 1990 Arquivo X encaixa-se perfeitamente aqui.

Os textos publicados pela UFO, nas versões online e impressa, são um festivais de platitudes com trechos que, se analisados logicamente, são autocontraditórios, por exemplo: "Não foram encontrados indícios de ação humana na produção da figura" (como se a própria existência da figura não fosse indício).

Ao lado do agroglifo, surgiu depois o número 43, referência a uma candidatura política. Apesar de não existir nada que comprove que qualquer um dos desenhos seja proveniente de uma intervenção alienígena, o texto publicado na edição impressa do periódico ufológico dedica gráficos e parágrafos para estabelecer algumas correlações estatísticas entre as plantas achatadas dentro do agroglifo e do número 43.

São medidas, por exemplo, as distâncias do ponto da dobra do caule até o solo e os ângulos de desvio do quinto nó do caule. A partir dessas medidas, são feitas algumas análises estatísticas para sugerir que as figuras teriam causas diferentes.

Não seria difícil, porém, encontrar diversas outras variáveis para estabelecer alguma correlação qualquer. Ademais, se correlação não estabelece necessariamente uma relação de causa e efeito, tampouco demonstra que as diferenças encontradas apontam para  um alienígena zombeteiro. Se as diferenças estatísticas entre as figuras mostram alguma coisa, é que se tratam de figuras diferentes – e que possivelmente foram produzidas por métodos ou pessoas (não formas de vida de planetas) diferentes.

A verdade é que a análise estatística está colocada aí somente para dar a impressão de que esse relatório possui algo de científico. O material publicado termina não concluindo nada, mas mantém a toada da revista, de sugerir que a possibilidade da figura ter origem extraterrestre “não está descartada”.

Menos é mais

Pluralitas non est ponenda sine neccesitate (a pluralidade não deve ser posta sem necessidade). Essa frase em latim é o cerne do princípio da “Navalha de Ockham”. William de Ockham foi um filósofo inglês do século 14 e utilizou o princípio da simplicidade para eliminar hipóteses desnecessárias. Em outras palavras, se você possui duas teorias capazes de explicar um certo fenômeno, a teoria mais simples possui a maior probabilidade de ser a correta. No caso específico dos agroglifos, apesar de os criadores das peças até já terem demonstrado como fazê-las, ainda assim existem pessoas que acham mais verossímil a hipótese extraterrestre.

Embora o filósofo Ockham tenha vivido no século 14, o termo “Navalha de Ockham” foi utilizado pela primeira vez no século 19 pelo matemático William Rowan Hamilton. Esse princípio, apesar de não ortodoxo, é comumente utilizado em ciência e associado a um reducionismo metodológico, em que as teorias científicas são elaboradas da maneira mais enxuta possível. A negação desse princípio, por exemplo, seria elaborar uma teoria onde o éter luminífero (o meio onde se propagariam as ondas eletromagnéticas) continuasse a existir, mesmo com experimentos atestando sua inexistência e a teoria em si não necessitar desse ingrediente adicional.

A característica da natureza de "eliminar" aquilo que é desnecessário foi mencionada pelo físico Murray Gell-Mann em uma palestra que pode ser encontrada no YouTube. De acordo com Gell-Mann a "beleza" de uma teoria está associada à capacidade de a expressarmos concisamente utilizando a matemática. Murray Gell-Mann recebeu o Nobel de física em 1969.

Marcelo Yamashita é doutor em Física, professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro do Conselho Editorial da Revista Questão de Ciência

Este artigo foi escrito com base em um texto que o autor publicou na revista UNESP Ciência em março de 2018.

 

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