Colar de âmbar para bebês: perigoso e inútil

Artigo
12 dez 2018
Mosquito preso em peça de âmbar
Mosquito preso em peça de âmbar. Didier Desouens - CC BY-SA 4.0

A origem da moda é incerta, mas em 2012 já era possível encontrar na internet de língua inglesa gente perguntando se colares de âmbar realmente ajudam a reduzir o incômodo dos bebês durante o período da dentição, quando os primeiros dentes de leite começam a eclodir. Em 2014, a revista Glamour, do Grupo Globo, houve por bem alardear que o bebê de Gisele Bündchen estava adornado com a peça que “promete diminuir o desconforto do nascimento dos dentes”.

Atualmente, uma busca no Google em português traz mais de 600 mil resultados e ofertas de venda do produto, que pode ser encontrado para compra, online, a um preço médio de R$ 110. Correndo o risco de dar “spoiler”: esses colares são não só inúteis como perigosos, e comprá-los é um modo eficiente não de acalmar seu bebê, mas de incinerar seu dinheiro.

Não que a mídia esteja ajudando as pessoas a perceber isso. Neste ano, a revista Pais e Filhos publicou, em setembro, reportagem sobre os supostos benefícios (imaginários) e riscos (reais) do uso do colar de âmbar em bebês, que supostamente funcionaria como analgésico e anti-inflamatório, principalmente para acalmar os incômodos da dentição.

Em abril, outra revista voltada para pais, a Crescer,  já havia tratado do assunto. Em ambas as reportagens, chama a atenção o espaço dado a relatos de mães e pais satisfeitos, o que chamamos em ciência de “evidência anedótica”, que não serve para provar nada: ficamos, por exemplo, sem saber se existem pais insatisfeitos, quantos são, se seu número supera o de casais felizes...

Além disso, mesmo quando os pais têm certeza de que seu bebê melhorou após o uso do colar – ficou mais calmo, menos irritado, teve menos alergias, etc – essa “certeza” acaba invalidada por causa da presença de inúmeros fatores de confusão. Vamos a eles:

Correlação não é causa: o galo canta todos os dias, antes de o Sol nascer. Isso é uma correlação. Afirmar que o Sol nasce POR CAUSA do canto do galo seria ridículo, certo? O mesmo ocorre no caso do colar. A mãe coloca o colar no bebê  e ele fica mais calmo. Isso é uma correlação. Afirmar, baseado somente nisso, que o bebê ficou mais calmo POR CAUSA do colar é tão absurdo quanto dizer que o Sol nasce por causa do galo.

Regressão à média: muitas doenças e dores são cíclicas, e nos bebês isso não é diferente. Cólicas, por exemplo, surgem e somem sozinhas, e fazem parte da rotina de muitos bebês pequenos. Se o bebê chora com cólicas, a mãe põe o colar nele  e o bebê, após meia hora, se acalma, o crédito fica para o colar. Mas o crédito pode ser do tempo, do carinho, do aconchego...

Progressão natural da doença: muitas doenças e condições simplesmente passam sozinhas com o tempo. Dentição certamente é uma delas, e nem todos os bebês sentem dor nesse processo, nem todos sentem dor todas as vezes que um dente nasce. Sintomas como febre e diarreia foram relacionados a este processo, mas a ligação entre uma coisa e outra nunca foi comprovada.

Para averiguar se determinado medicamento ou tratamento é eficaz, é necessário conduzir estudos controlados, randomizados, duplo-cegos e com grupo placebo. Não há um único estudo deste tipo sobre colares de âmbar, e nenhum estudo pré-clínico – em animais, por exemplo – que tenha testado seu suposto mecanismo de ação. E por falar nisso...

Mecanismo de ação? Que mecanismo?

Como se não bastasse a evidência ser unicamente anedótica, os mecanismos de ação sugeridos pelos fabricantes vão do absurdo ao ridículo, passando por um único item que poderia ter respaldo científico, e que vamos avaliar aqui. Uma breve lista inclui:

Calmante natural;

Analgésico e antisséptico natural;

Anti-inflamatório natural;

Ativa os chakras, agindo especificamente no plexo solar;

A ionização protege o corpo humano de efeitos de campos magnéticos;

O âmbar libera ácido succínico na pele do bebê, com efeito analgésico.

Alegações de que o âmbar traz benefícios por ser “natural” carecem de base: o fato de uma substância ser produzida na natureza não a torna automaticamente benéfica. Alguns dos mais cruéis venenos conhecidos, como a nicotina, são moléculas perfeitamente “naturais”.

A menção a “ionização” talvez seja uma referência ao uso tradicional do âmbar na produção de eletricidade estática: se você esfregar um pedaço de âmbar numa peça de lã, é possível realizar truques curiosos como fazer arrepiar os pelos do braço ou “entortar” um filete de água escorrendo de uma torneira. Mas isso não tem nada a ver com as dores da dentição.

Já “chakras” são uma proposição religiosa: apelar para eles é como apelar para uma medalhinha de santo.

O que resta, então, em termos de mecanismo com um mínimo de plausibilidade, é a suposta liberação do ácido succínico na pele do bebê. Para verificar se dá para ir do plausível ao eficaz, temos que responder a algumas perguntas:

Âmbar realmente contém esse ácido em sua composição?

O ácido é liberado no contato com a pele?

O ácido tem propriedades analgésicas?

Supondo que a resposta para todas as anteriores seja sim, o ácido consegue penetrar na pele?

Ainda supondo uma resposta positiva, se o ácido consegue penetrar na pele e cair na corrente sanguínea, a quantidade de ácido liberada pelas pedras é suficiente para causar um efeito analgésico?

Imagino não ser surpresa alguma que a resposta para todas as perguntas acima, com exceção da primeira, seja não. O fato de a primeira ser positiva também não causa surpresa, já que as pseudociências têm, como característica, o uso de termos científicos “complicados” (como o nome técnico de uma molécula) para confundir o consumidor. 

Para ser clara: não há evidências de que o ácido succínico seja liberado pelas pedras ou absorvido pela pele, não há evidências de que o ácido tenha propriedades analgésicas, e finalmente, ele é classificado pela FDA, a Anvisa dos Estados Unidos, como um irritante cutâneo. Sua degradação pode liberar ácido acético (vinagre) e ácido fórmico (principal componente do veneno da picada das formigas comuns), produtos que certamente ninguém quer na pele de um bebê.

Irresponsabilidade

Apesar de ser relativamente fácil confirmar se há ou não base científica para esses produtos milagrosos, a mídia parece se desdobrar em  cuidados para não dizer o que precisa ser dito com clareza: o produto não funciona! Esse prurido só serve para movimentar um mercado perverso, que se aproveita, neste caso específico, de uma fase da vida naturalmente conturbada e cheia de dúvidas, como é a primeira infância.

Dentre as ressalvas feitas ao uso do produto por ambas as revistas voltadas ao público paterno/materno citadas lá no início, há o alerta, dado por especialistas, de que crianças pequenas não devem usar cordões ou colares no pescoço, pois esses adornos podem sufocar ou estrangular o bebê. É bom que ambas as revistas ressaltam os RISCOS graves de um bebê usar um colar no pescoço, ainda mais um feito de pedrinhas pequenas, que podem ser engolidas. Mas por que as revistas deliberadamente se esquivam de dizer que o produto é uma bobagem?

E as duas ainda sugerem “alternativas” para minimizar os riscos, como usar o âmbar numa pulseira ou tornozeleira! Estas revistas estão literalmente dizendo aos pais: “Comprem o colar, mesmo que a ciência diga que não funciona, mas não coloquem no pescoço do bebê!”. Sociedades da classe médica, ouvidas nas reportagens, também não ficam atrás: chamam atenção para o risco de asfixia, mas não para a clara inutilidade do adereço.

Não seria mais simples e honesto dizer para não comprarem o colar, e ao mesmo tempo convidar um dentista pediátrico para explicar exatamente o que acontece na fase de dentição?

Natalia Pasternak é pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, coordenadora nacional do festival de divulgação científica Pint of Science para o Brasil e presidente do Instituto Questão de Ciência

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