“Mas você garante...”

Apocalipse Now
22 nov 2020
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garantias

Este artigo está sendo publicado em 22 de novembro de 2020, exatamente dois anos após a inauguração oficial do Instituto Questão de Ciência, num grande evento na capital paulista que contou com falas fantásticas dos médicos e cientistas Edzard Ernst, provavelmente o maior estudioso de Medicina Alternativa do mundo (e que até hoje não encontrou nenhuma que realmente funcione), e Paulo Saldiva, da Universidade de São Paulo. Eu, cabendo já com dificuldade num terno que hoje não me serve mais, fui mestre de cerimônias do evento.

Confesso que não me lembro de muito mais coisas, exceto que os salgadinhos do coquetel da recepção acabaram antes que eu conseguisse sair do auditório e que, quando o evento se encerrou, o restaurante do hotel já tinha fechado, só o bar ainda estava funcionando. Terminei a noite com um Bulleit duplo sem gelo e um sanduíche de peito de peru com queijo na baguete.

No dia seguinte, pegando um táxi pra voltar pra casa (eu ainda morava em Jundiaí, na época) notei que o motorista estava indo para a Avenida dos Bandeirantes em vez de para a Rodovia dos Bandeirantes. Para quem não está familiarizado com a geografia paulistana, é como tentar chegar ao Polo Norte rumando para a Antártica.

 

Sem garantias

Em defesa do motorista, pode-se dizer que naquela mesma época uma ponte importante para a circulação de automóveis em São Paulo tinha acabado de cair, e a busca por rotas alternativas e escapatórias para evitar a zona do desastre era tão confusa quanto frenética. Lembro-me do taxista, assim que apontei o erro, pedir desculpas e dizer que “garantia” que chegaríamos ao endereço certo.

A reminiscência é relevante porque o verbo “garantir” é um sério concorrente à posição de mais usado nas contestações que recebemos ao material rotineiramente publicado aqui na Revista Questão de Ciência — e ao trabalho do Instituto em geral, nos últimos dois anos: “mas vocês garantem que a homeopatia não funciona?”; “Qual a garantia de que as vacinas são seguras?”; “Não dá para garantir que a cloroquina não vai beneficiar ninguém!”; “Quem me garante que o aquecimento global é real?”. E assim por diante.

A retórica da garantia presta quatro serviços preciosos ao propagador de falácias.

O primeiro é jogar a conversa no campo das expectativas impossíveis: por exemplo, meu amigo taxista não tinha como, ao pé da letra, garantir que chegaríamos à minha casa: ele poderia sofrer um pneu furado e encontrar o estepe murcho; o motor poderia pifar; a gasolina, acabar; no limite, um meteorito poderia nos atingir e explodir o carro. Com a gente a bordo. A única resposta honesta para 99,9% das perguntas feitas no formato “você garante que…” é “não”.

O segundo serviço é, exatamente, forçar o argumentador do outro lado a explicar isso — que certezas são raras, que toda medida tem uma margem de erro, que toda hipótese, teoria ou alegação pode, em tese, estar errada. O risco de a gente acabar se enrolado em “mas”, “poréns” e “todavias” e perder o fio da meada não é desprezível.

 

Loteria

A terceira vantagem que quem traz o espantalho da garantia à tona espera obter é a do aparente nivelamento de riscos — como se, na ausência de certezas absolutas, a única coisa a distinguir uma atitude de outra (tomar ou não vacinas, por exemplo) seriam questões de gosto pessoal. Se ninguém me garante que vacinas são 100% seguras, então só o que resta é uma escolha subjetiva entre diferentes riscos.

O que se perde, neste raciocínio, é a noção de que os riscos são diferentes não só em termos de desfecho (as coisas que podem acontecer) mas também de magnitude (a chance — 1% das vezes, 0,1% das vezes, etc. — de uma coisa ou outra acontecer). No caso das vacinas, a magnitude do risco trazido pela doença que a vacina evita é dezenas, se não milhares, de vezes maior do que o risco de um efeito adverso de seriedade comparável.

Por fim, o quarto serviço prestado pela frase-chave “mas você garante…” é o de abrir espaço. No caso, espaço psicológico e emocional para que atitudes irracionais sejam apresentadas como razoáveis. Se ninguém garante que o aquecimento global é causado pela atividade humana — se a probabilidade de a causa ser alguma variação natural nunca antes vista for diferente de zero, não importa o quanto essa diferença seja minúscula — então sugere-se que seja razoável evitar os custos envolvidos na mudança da matriz energética, do petróleo para fontes renováveis. O que, em termos lógicos, equivale a dizer que é razoável parar de trabalhar (afinal, quem garante que a empresa vai honrar os salários?) e ficar só jogando na loteria (afinal, quem garante que você nunca vai ganhar?).

 

Responsabilidade

Para funcionar e obter suas quatro vantagens, no entanto, a falácia da garantia precisa passar por cima de três conceitos fundamentais: dúvida razoável, informação boa o suficiente e ação responsável. Vamos a eles.

Embora toda dúvida seja possível, nem toda dúvida é razoável, frente às evidências disponíveis. Por exemplo, você pode duvidar que esteja lendo este artigo — talvez isto tudo seja um sonho especialmente tedioso — mas, qual o motivo, a evidência, para acreditar nisso? Que razões há para achar que ganhar na loteria (onde a chance é de 1 em 50 milhões) é mais provável do que ser pago pelo empregador?

Quanto à informação boa o suficiente: os dados que temos podem não corresponder a como as coisas realmente são, mas ainda assim talvez sejam bons o bastante para guiar certos tipos de decisão. Um mapa rabiscado num guardanapo pode estar fora de escala, mas nem por isso é inútil.

Já ação responsável é, ora bolas, ação responsável. Não é porque existe a possibilidade lógica de o mundo acabar amanhã que vou deixar de comprar papel higiênico. Se verdades provisórias são tudo o que temos, é com base nelas que somos obrigados a agir no mundo.

Algumas verdades provisórias admitem menos dúvida razoável, fornecem mais informação boa o suficiente e, no fim, guiam ações mais responsáveis, do que outras. Fingir que a distinção não existe é um grave erro ou má-fé.

 

Garantido

Quando eu digo “garanto que estarei aí amanhã”, ou quando o taxista me disse que “garantia” que ia me deixar em casa, o que se está realmente afirmando é: “salvo algum evento imprevisto e, pelo melhor do meu conhecimento, altamente improvável, isso aí que eu falei vai acontecer”. 

Esse é o sentido geral, coloquial, de garantir alguma coisa — principalmente no tempo futuro —, e todos nós estamos acostumados a ele, mesmo quem jamais parou para pensar no assunto. Só quando entramos no reino das argumentações falaciosas é que o verbo se reveste da conotação de “certeza absoluta, sem margem para dúvida”.

Estes primeiros dois anos da Revista Questão de Ciência foram dois anos de muita gente pedindo, de boa ou má-fé, “garantias” a respeito de assuntos tão graves e delicados quanto a segurança das vacinas ou a ineficácia de remédios milagrosos para combater a COVID-19. E nem vou falar na psicanálise ou na ozonioterapia.

Não temos garantias. O que buscamos oferecer é o melhor conhecimento disponível para embasar as decisões mais responsáveis e racionais possíveis, a cada momento. Sou suspeito para dizer, mas creio que temos conseguido.

E, dois anos atrás, o taxista conseguiu mesmo me deixar em casa. Cheguei, confesso, cansado, com fome e uma leve ressaca — e com uma ideia apenas vaga de todo o trabalho garantido que viria pela frente.

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência e coautor do livro "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto)

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