
Recentemente, a Globo News entrevistou o ator Juliano Cazarré, que foi duramente criticado pelos seus colegas de profissão ao promover um congresso conservador sobre masculinidade. Segundo os críticos, eventos como esse ajudariam a fomentar uma “epidemia de feminicídio”. O melhor, segundo os críticos, seria diluir essa masculinidade tradicional em “masculinidades” em diálogo com as principais prejudicadas pelos homens: as mulheres. No mesmo debate, o ator alega querer promover apenas “bom senso”, e defende que os homens estão perdidos e sem referência sobre o papel que devem exercer na sociedade.
Independentemente do lado de quem você estiver, o fato é que a forma como falamos sobre sexo e gênero mudou de forma drástica nas últimas décadas. O feminismo saiu dos departamentos universitários e dos movimentos sociais e entrou nas redes, cultura pop, campanhas publicitárias, redações, escolas e políticas institucionais. Ao mesmo tempo, as mulheres passaram a superar os homens em vários indicadores educacionais. O aumento do número de acadêmicas pode ter mudado, inclusive, o funcionamento das universidades e a própria lógica de produção de conhecimento – a chamada feminilização das universidades. A mídia e as universidades discutem temas que para a maior parte da população podem soar triviais – como a recente discussão sobre “o que é uma mulher”.
Nada disso transforma as mulheres em vilãs e os homens em vítimas. A questão é constatar que vivemos uma época de disputas e moralização para todos os lados. Entre denúncias legítimas de violência masculina, cursos sobre novas masculinidades e discursos que parecem tratar a própria masculinidade com suspeita, uma parcela dos homens encontrou na internet uma explicação pronta para seu mal-estar. A machosfera nasce aqui: na fresta entre mudanças sociais reais, dores legítimas, interpretações profundamente ruins em alguns casos e reações emocionais extremamente descalibradas em outros.
O sintoma de uma época
A machosfera — tradução de manosphere — é um ecossistema digital de comunidades masculinistas e misóginas que inclui incels, MGTOWs, ativistas dos direitos dos homens, “especialistas” em sedução, redpillers, manfluencers e grupos adjacentes. Trata-se de uma rede fluida, porosa, unida contra o feminismo — que também disputa atenção no mainstream —, pela vitimização masculina e pela crença de que a sociedade moderna se tornou “ginocêntrica”, isto é, organizada para favorecer mulheres e punir homens.
O ponto delicado é que a machosfera prospera sequestrando problemas reais. Solidão masculina, fracasso escolar relativo, insegurança econômica, rejeição amorosa e discursos públicos simplórios sobre “homens” viram matéria-prima para uma cosmologia do ressentimento. As mudanças gerais na sociedade e nos papéis de gênero saem do reino da ambivalência social e, nos setores mais radicais da machosfera (bem como em certos setores feministas também), entram em um terreno de guerra metafísica entre os sexos.
A pílula vermelha
Toda ideologia precisa nomear uma dor, apontar um culpado e oferecer uma identidade. A machosfera faz isso com eficiência: valida o deslocamento masculino, atribui-o a uma guerra contra os homens e oferece uma comunidade de iniciados que “acordaram” para a verdade.
A Red Pill é a mitologia central desse universo. “Tomar a pílula vermelha” significa abandonar a suposta ingenuidade romântica e aceitar que mulheres buscam homens de maior status, que relacionamentos são mercados sexuais cruéis e que a masculinidade tradicional seria a única defesa contra um mundo feminizado.
A força dessa narrativa está em misturar observações parcialmente verdadeiras com generalizações um tanto paranoicas. Homens e mulheres enfrentam pressões diferentes no mercado sexual; status pesa na atratividade masculina, assim como juventude e beleza pesam na feminina. O salto ideológico está em transformar esses fragmentos numa teoria geral da dominação feminina.
Por isso, a Red Pill funciona menos como teoria científica e mais como uma religião secular do ressentimento. Ela oferece vocabulário, inimigos, rituais de iniciação e promessa de salvação. Termos como “alfa”, “beta”, “Chad”, “Stacy”, “hipergamia” e “valor sexual de mercado” parecem analíticos, mas operam como elementos de uma mitologia que reduz a vida afetiva a rankings. A rejeição vira fatalismo biológico, e mulheres deixam de ser indivíduos para se tornarem representantes de uma categoria impessoal. É assim que a insegurança masculina pode ser recrutada para uma guerra imaginária — e, por isso mesmo, interminável.
As tribos da machosfera
A machosfera não é uma organização uniforme. Trata-se de um ecossistema formado por grupos como incels, MGTOWs, MRAs e PUAs. Eles divergem em objetivos e estilo, mas compartilham a crença de que os homens vivem numa ordem cada vez mais ginocêntrica e hostil.
Os incels, ou celibatários involuntários, interpretam a exclusão sexual como destino biológico. Aparência, altura, genética e status definiriam uma hierarquia quase imutável entre homens desejáveis e invisíveis. É a lógica da black pill: enquanto a pílula vermelha promete despertar, a preta oferece um desespero supostamente lúcido. Os MGTOWs — Men Going Their Own Way — afirmam não querer vencer no mercado sexual, mas abandoná-lo. Veem relacionamentos, casamento, divórcio e paternidade como riscos emocionais, jurídicos e financeiros constantes. Os MRAs, ou Men’s Rights Activists, concentram-se em guarda dos filhos, pensão, falsas acusações, suicídio masculino e fracasso escolar de meninos. São temas reais, mas que, nesses espaços, frequentemente aparecem como provas de uma conspiração feminista. Já os PUAs, Pick-Up Artists, vendem técnicas de sedução e tratam a intimidade como uma espécie de engenharia social. O sexo feminino e os relacionamentos viram um sistema a ser hackeado.
As fronteiras entre essas tribos são porosas. Um homem pode passar de vídeos de sedução a fóruns Red Pill, tornar-se MGTOW após um divórcio e consumir conteúdo incel em momentos de rejeição. A machosfera funciona como uma rede de túneis: entra-se à procura de relacionamentos e pode-se sair em territórios bem mais radicais.
O império dos manfluencers
Durante algum tempo, a machosfera parecia confinada a porões digitais: Reddit, chans, blogs obscuros, comunidades fechadas e longos posts ressentidos. Era preciso algum esforço para encontrá-la. Havia ali uma estética de seita iniciática.
A nova machosfera é mais limpa, musculosa e vendável. Ela aparece no TikTok, no YouTube Shorts, no Instagram e nos podcasts, misturada a discursos sobre dinheiro, disciplina, saúde, testosterona e propósito. A misoginia explícita não desapareceu, mas muitas vezes vem embalada como autoaperfeiçoamento e alta performance.
É importante, porém, não confundir todo debate sobre masculinidade com a machosfera. Há uma demanda legítima por espaços que discutam o papel dos homens, considerando que antigos modelos de virilidade foram desmontados sem que outros fossem colocados no lugar. Cursos, grupos e projetos voltados à paternidade, à saúde mental, à responsabilidade afetiva ou à construção de novas formas de masculinidade podem responder a um problema real sem transformar mulheres em inimigas – e sem transformar a discussão sobre o que é ser homem em uma discussão sobre o que é ser mulher.
O manfluencer misógino opera de outro modo. Ele intensifica a insegurança do público, dizendo ao jovem que foi domesticado, feminizado e tornado sexualmente irrelevante; em seguida, vende a cura na forma de curso, mentoria, suplemento, método financeiro e desprezo pelo mundo feminino. A diferença não está em oferecer orientação aos homens, mas na estrutura do diagnóstico: uma coisa é ajudá-los a construir identidade e responsabilidade; outra é convencê-los de que sua crise foi causada por mulheres, feminismo ou uma conspiração contra a masculinidade.
Um trabalho sério amplia a autonomia do homem e sua capacidade de vínculo. A machosfera converte desorientação em ressentimento, ressentimento em identidade e identidade em produto.
Da misoginia ao extremismo
A maioria dos homens que consome conteúdo da machosfera não se tornará violento, por isso é importante evitar o pânico moral. A maior parte da hostilidade da machosfera provavelmente não passará de ressentimento verbal, da piada agressiva, memes, da hostilidade difusa contra feministas, mulheres “modernas” ou homens “fracos”.
Mas seria ingênuo tratar esse ambiente como mera opinião ruim circulando na internet. A literatura recente tem mostrado que a misoginia online pode funcionar como porta de entrada para ecossistemas extremistas mais amplos, especialmente quando se mistura a teorias conspiratórias, racismo, nacionalismo, ressentimento econômico e fantasias de restauração da ordem.
Mesmo não havendo indícios sistemáticos que apoiem pânico moral, é interessante ficar atento. O perigo começa quando a narrativa vira combustível para uma cruzada.
A crise de conexão
A resposta a esse fenômeno não pode ser apenas mandar homens fazer terapia. Também não basta repetir slogans sobre “masculinidade tóxica”, expressão saturada que explica menos do que promete. Talvez a chave seja falar de uma crise de conexão, não de masculinidade. Muitos homens estão isolados, emocionalmente analfabetos, economicamente inseguros e famintos por pertencimento.
A recriminação dos ambientes e modos de ser tipicamente masculinos pela elite cultural tem intensificado a sensação de perseguição, o que só alimenta a radicalização da machosfera – que oferece pertencimento no lugar de hostilidade e crítica. Mas o preço cobrado pelo pertencimento é o ressentimento; e o preço cobrado por pertencer a uma comunidade é eleger inimigos. É necessária maturidade cultural suficiente para perceber que estamos inseridos num jogo cuja radicalização está sendo retroalimentada por todos os lados.
Felipe Novaes é psicólogo e professor da PUC-Rio. Divulga o melhor da psicologia científica no Garagem Psi. Atua no cruzamento entre ciência, filosofia e cultura, onde dados e mitos se estranham com frequência. Interessa-se por psicologia evolucionista, história das ideias e pela tensão entre razão e pertencimento em tempos de algoritmo
