
Num mundo em que qualquer declaração simpática pode ser interpretada como endosso incondicional, é preciso cuidado ao fazer elogios. Mas, por mais que até me doa um pouco dizer isso, o biólogo e ateu militante Richard Dawkins é um dos mais importantes pensadores e divulgadores científicos do século 20. Do ponto de vista pessoal, Dawkins foi uma das principais influências, junto com o Pirulla, que me fizeram enveredar pela biologia, especialmente biologia evolutiva. Sim, por incrível que pareça, Stephen Jay Gould veio depois na minha vida, quando eu já estava na graduação.
Ainda me lembro do fascínio de ler, pela primeira vez, O Relojoeiro Cego, uma das mais pungentes defesas do darwinismo e do poder da seleção natural. O livro O Maior Espetáculo da Terra: As Evidências da Evolução também é um tesouro da divulgação da biologia evolutiva, que ainda recomendo a todos os interessados. E o que dizer de Desvendando o Arco-Íris? Poesia e ciência, lindo. A Escalada do Monte Improvável, O Río que Saía do Éden, O Capelão do Diabo, todos são livros que ainda valem a pena.
Mas Dawkins é mais conhecido, pelo menos quando o assunto é biologia evolutiva, pelo seu primeiríssimo livro, O Gene Egoísta, publicado em 1976. Cinquenta anos depois, a tese central do livro ainda faz barulho e provoca debates acalorados. Por muitos, é considerado um dos mais influentes e/ou inspiradores livros científicos de todos os tempos.
Influenciado pelo livro Adaptation and Natural Selection (1966), de G. C. Williams, Dawkins advoga que “a melhor forma de olhar para a evolução é em termos de seleção ocorrendo no nível mais inferior de todos”. O livro é um longo argumento em favor da noção de que a unidade fundamental sobre a qual a seleção natural age não é o grupo, a espécie, nem mesmo o organismo, mas o gene.
Os organismos, tão maravilhosos e complexos, com seus comportamentos incríveis, nada mais são do que “máquinas de sobrevivência”, corpos construídos pelos replicadores para garantir que, nas próximas gerações, mais cópias deles (os replicadores) se encontrem presentes. Nas palavras de Dawkins, “há muitas formas diferentes de viver no mundo, e os replicadores têm construído uma ampla gama de máquinas para explorá-las”. O que é um macaco? Apenas uma máquina de sobrevivência que preserva genes em cima das árvores. Um peixe? Outra máquina, que preserva genes na água. Seguindo essa lógica, como você descreveria a espécie Homo sapiens? Estou interessado em saber.
Bom, mas o que é exatamente “o gene” do título do livro? Não espere uma correspondência direta com o que aprendemos nos livros didáticos. A noção de gene aqui é, ao mesmo tempo, mais específica e menos precisa.
Menos precisa porque Dawkins não está falando necessariamente de um trecho bem delimitado de DNA com começo, meio e fim claramente definidos. O que importa para ele não é tanto a definição molecular exata, mas a ideia de uma unidade hereditária capaz de persistir ao longo das gerações. Em vários momentos, ele até admite que, em organismos reais, é extremamente difícil separar completamente o efeito de um gene do efeito de outros. Os genes atuam em redes complexas, influenciando e sendo influenciados por inúmeros outros genes. Um organismo não é construído por genes isolados, mas por um sistema de interações.
Ao mesmo tempo, a noção é mais específica, porque Dawkins está interessado numa propriedade muito particular: a capacidade de sobreviver à passagem do tempo evolutivo. A reprodução sexual e outros processos moleculares embaralham continuamente os genes, de modo que cada organismo individual é apenas uma combinação temporária. Corpos vêm e vão; combinações gênicas surgem e desaparecem. Mas certas sequências gênicas podem atravessar inúmeras gerações, “viajando” de corpo em corpo. É nesse sentido que o gene aparece como a verdadeira unidade duradoura da evolução.
Assim, Dawkins pega emprestado de G. C. Williams a sua definição de gene: “Um gene é definido como qualquer porção de material cromossômico que potencialmente dure por gerações suficientes para servir como uma unidade de seleção natural”. Os genes são, portanto, estáveis, muito mais estáveis que os efêmeros organismos individuais. E por isso, Dawkins argumenta, merecem um papel especial no jogo da seleção natural. Numa passagem bastante poética, que vale ser citada por completo, Dawkins explica:
“Indivíduos não são coisas estáveis; são passageiros. Cromossomos também são embaralhados até desaparecerem, como mãos de cartas logo após serem distribuídas. Mas as próprias cartas sobrevivem ao embaralhamento. As cartas são os genes. Os genes não são destruídos pelo crossing-over; eles apenas trocam de parceiros e seguem em frente. É claro que seguem em frente — esse é o seu papel. São os replicadores, e nós, suas máquinas de sobrevivência. Quando cumprimos nosso propósito, somos descartados. Mas os genes são habitantes do tempo geológico: genes são para sempre.”
O “egoísta” do título é mais fácil de entender. Os genes são chamados de egoístas porque “agirão” de maneira a atender aos seus próprios “interesses”: obter o maior número de cópias possível nas máquinas de sobrevivência das próximas gerações. Claro, a agência aqui atribuída aos genes é apenas metafórica.
Nesse ponto, Dawkins tem que lidar com uma dificuldade, que ele vê como um aparente paradoxo, mas apenas aparente. Afinal, se para construir um organismo é preciso que vários genes atuem em conjunto com outros genes e com o ambiente, então como podemos falar em “gene egoísta”, algo particulado, entidades egoístas que pulam de corpo em corpo ao longo do tempo geológico? Sempre brilhante nas analogias, é claro que Dawkins tem uma na manga para resolver o paradoxo.
Na analogia dos remadores apresentada por Dawkins, devemos imaginar uma série de competições entre barcos de remo. Cada barco é composto por vários remadores, e o desempenho do barco depende da habilidade coletiva de sua equipe. Alguns remadores são excelentes, outros medianos, outros ruins. Os barcos competem repetidamente, e os vencedores seguem adiante para novas formações de equipes e novas corridas.
Aqui, os remadores representam os genes, enquanto os barcos representam os organismos. O ponto principal de Dawkins é que um remador muito bom pode acabar em um barco ruim e perder uma corrida específica. Da mesma forma, um remador mediano pode vencer, caso esteja cercado por uma equipe excepcional. O sucesso imediato, portanto, não revela necessariamente a qualidade individual de cada remador.
Contudo, ao longo de muitas corridas, os melhores remadores tenderiam a aparecer mais frequentemente nos barcos vencedores. Mesmo que ocasionalmente sejam prejudicados por más combinações, sua habilidade acabaria se manifestando estatisticamente ao longo do tempo. Dawkins usa isso para argumentar que algo semelhante acontece com os genes na evolução: genes que contribuem para organismos mais eficientes tenderiam a permanecer na população.
Dawkins entende que essa analogia justifica a visão “genecêntrica” da evolução. Tenho minhas dúvidas.
Um remador excelente não vence sozinho. Seu desempenho só adquire significado dentro de uma equipe funcional. A velocidade do barco emerge da coordenação coletiva, não da virtude intrínseca de um indivíduo isolado. Da mesma forma, um gene não “faz” um organismo sozinho, como o próprio Dawkins reconhece. O efeito de qualquer gene depende da interação com milhares de outros genes, além do ambiente, do desenvolvimento embrionário, da fisiologia e até do comportamento do organismo. Em termos biológicos reais, quase nunca existe um “gene para X”; existem redes complexas de interação produzindo fenótipos.
Isso enfraquece a ideia de que os genes seriam agentes autônomos ou “egoístas” no sentido forte. Afinal, aquilo que é diretamente exposto à seleção natural é o organismo inteiro. Predadores não caçam genes; o ambiente não elimina alelos diretamente. O que sobrevive ou morre é o corpo completo, integrado, funcionando como uma unidade. O barco afunda ou vence como um todo.
A própria analogia de Dawkins pode ser levada nessa direção. Imagine um técnico tentando descobrir quais remadores são realmente bons apenas observando resultados coletivos. Em pouco tempo, perceberia que não basta avaliar indivíduos, porque certas combinações de atletas funcionam melhor do que outras. Um remador pode ser excelente dentro de uma equipe e péssimo em outra. Há alguns casos em que a sincronia dos membros é mais importante do que a habilidade individual máxima. O desempenho emerge das relações entre os componentes.
Biologicamente, isso lembra fenômenos como epistasia, integração do desenvolvimento e propriedades emergentes. Um gene vantajoso em um contexto pode ser desvantajoso em outro. A seleção não age apenas sobre “partes”, mas sobre sistemas organizados. O organismo deixa de ser um simples “veículo” temporário dos genes e passa a ser uma entidade causal real na evolução.
Isso não nega a importância dos genes. Sem dúvida, são herdados e constituem a base material da evolução. Mas reconhecer isso não obriga a aceitar que sejam o único nível biologicamente relevante. A analogia dos remadores talvez funcione melhor como argumento contra qualquer reducionismo extremo. Mostra que a aptidão não é uma propriedade isolada de genes individuais, mas algo que emerge da cooperação entre múltiplos componentes integrados em organismos.
Em The Structure of Evolutionary Theory, Stephen J. Gould caracterizou a visão defendida por Dawkins (e muitos outros) como sendo um “frutífero erro de lógica”. Gould gastou algumas dezenas de páginas para explicar esse erro de lógica, algo que não posso fazer aqui. Os parágrafos anteriores são apenas uma contextualização, muito breve, de como poderia ser uma contestação da tese central de Dawkins. Voltarei a discutir o tema em colunas futuras.
Sou da opinião de que nenhuma descrição científica do processo de seleção natural é satisfatória sem que a causalidade esteja envolvida. As adaptações, por mais que sejam construídas pelos genes, se manifestam no nível do organismo. O que a seleção faz é triar essas adaptações. Explicar o mecanismo causal da mudança ao longo das gerações em termos de seleção natural requer, portanto, passar pelo nível em que as adaptações se manifestam. Os replicadores são importantes, mas os organismos (os “interatores”) não são meros veículos de genes egoístas.
A melhor forma de olhar para evolução é reconhecer que processos importantes ocorrem em diferentes níveis da organização biológica. O Gene Egoísta falha quando sua mensagem é definir um único nível como preferencial. O nível do gene é uma forma de olhar para a biologia evolutiva, não a forma. É uma distinção importante, ainda que você defenda que seja a melhor forma.
O debate em torno das unidades de seleção é antigo e extenso, além de complexo. A popularidade d’O Gene Egoísta parece ter achatado um tema que é muito mais tridimensional. É um clássico debate em que os envolvidos estão, por vezes, discutindo perguntas diferentes, mas agindo como se estivessem tentando responder à mesma questão. Não surpreende, portanto, que o debate perdure.
Seja como for, o fato é que o livro é um “replicador” muito bem-sucedido. Passaram-se 50 anos e ele ainda é relevante. Nem Dawkins, que cunhou o termo "meme" nesse mesmo livro, poderia imaginar tamanho sucesso.
João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade
