Livro-reportagem denuncia fraude "esotérica"

Resenha
25 out 2019
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deal with the devil cover

Quando comecei a trabalhar com ceticismo e promoção do pensamento crítico na internet, na segunda metade da década de 90, encontrei alguns sites que ofereciam mapas astrais e previsões astrológicas de graça – só era preciso preencher um formulário com nome, data e hora de nascimento e endereço de correio eletrônico. O que fiz.

Depois de algum tempo, meu e-mail começou a se afogar em mensagens muito peculiares, assinadas, supostamente, por um vidente-astrólogo. Não tenho mais os e-mails – eles ficaram numa caixa postal corporativa de três empregos e vinte anos atrás – mas o estilo especial de redação nunca me saiu da cabeça: havia uma forma perversa de arte envolvida. Os trechos citados abaixo são reconstituições aproximadas, feitas de memória.

Usando um tom quase íntimo (“Carlos, sonhei com você na noite passada e não pude deixar de lhe escrever...”), as mensagens produziam uma aura emocional de suspense que mesclava esperança (“saiba, Carlos, que existem alguns números especiais para você...”) a ameaça (“por favor, responda nos próximos dias, porque meus sonhos também contêm informações perturbadoras!”) para, é claro, solicitar dinheiro (“este amuleto de Rá, que posso lhe enviar por um custo mínimo...”).

No livro-reportagem A Deal with the Devil, publicado no ano passado, as jornalistas americanas Blake Ellis e Melaine Hicken, da rede CNN, rastreiam a origem de um esquema de fraude postal – baseado em cartas físicas, não e-mails – que, valendo-se de textos como os que enchiam meu correio eletrônico em 1998, extraíram milhões, ou talvez até bilhões, de dólares de vítimas, em geral pessoas solitárias, idosas ou com problemas mentais, entre a década de 80 e até, pelo menos, 2014. 

De fato, Ellis e Hicken não descartam a possibilidade de o esquema ainda estar em operação em alguma parte do mundo, como a Rússia ou a Europa Oriental. E o gabarito usado – tom pessoal, intimidade forçada, jogo de suspense com esperança-ameaça – hoje é de domínio público, e encontra-se ao alcance de vigaristas de todas as partes do globo.

A investigação da dupla da CNN tem como foco a figura de Maria Duval, nome que aparece na assinatura da versão mais disseminada (ao menos, nos Estados Unidos) da carta-gabarito. Boa parte de A Deal with the Devil cobre os esforços das jornalistas para determinar se “Maria Duval” seria uma pessoa de carne e osso ou apenas uma personagem. 

O livro segue um estilo de diário de reportagem. A sensação da leitura não é muito diferente da de assistir a um daqueles documentários em que a câmera está sempre por cima do ombro do repórter, enquanto ele bate em portas, escuta alguém desligar o telefone quando as perguntas começam a ficar inconvenientes, etc. 

É meio engraçado ler as duas jovens americanas tentando se virar no sul da França sem falar a língua e sem nenhuma intimidade com o sistema métrico (o carro que alugaram “só” tinha velocímetro em km/h) mas, talvez por ser eu mesmo um jornalista, esse tipo de narrativa me impressiona muito pouco; prefiro chegar logo aos frutos da investigação. A eles, então.

De acordo com o melhor que Ellis e Hicken conseguiram levantar (a história é convoluta), em algum momento nos anos 80 um empresário suíço especializado em vender tranqueiras pseudocientíficas pelo correio (pulseirinhas “de saúde”, lâmpadas especiais para “acelerar o envelhecimento do vinho”, poções de guaraná para potência sexual, etc.) e um psicoterapeuta francês se uniram para criar um novo negócio: cartas cientificamente construídas para impressionar idosos solitários, oferecer uma ilusão de intimidade e contato humano – e, assim, vender amuletos, números da sorte, horóscopos, etc.

As vítimas seriam selecionadas a partir de sucker lists  (“listas de trouxas”), adquiridas de empresas de mala-direta. Essas listas contêm pessoas que costumam responder a cartas de mala-direta enviadas por estranhos, e/ou que fazem doações frequentes e vultosas para caridade. 

Como explicam as repórteres da CNN, para os vigaristas essas doações não são sinal de generosidade ou amor ao próximo, mas indicadores de memória fraca (talvez a pessoa não se lembre de que já colaborou com determinada causa, e por isso o faça de novo e de novo) ou descontrole financeiro (a pessoa não tem muita noção de quanto está doando).

Os criadores do processo compraram então os direitos de nome e imagem de Maria Duval, uma médium e astróloga francesa que teve certa popularidade nos anos 70, e a recrutam para ser a face pública do esquema. O clímax do livro é um encontro das jornalistas com Duval, hoje uma idosa e, como muitas das vítimas do golpe, sofrendo de Alzheimer.

Um aspecto especialmente perverso e bem documentado do esquema é seu caráter reiterado: uma vez que a vítima, selecionada dentro de uma sucker list, responde à carta original, novas cartas se seguem, com novas promessas, novas ameaças, mais amuletos, mais pedidos de dinheiro. A espiral pode se manter indefinidamente, extraindo dezenas ou centenas de dólares de cada vítima individual, a cada rodada.

Para além desse núcleo duro de fatos e conjecturas um pouco mais sólidas, no entanto, a saga das cartas de “Maria Duval” é repleta de incertezas e interrogações sem resposta. 

Nos Estados Unidos e no Canadá (e, provavelmente, em outras partes do globo também) empresas de fachada encarregavam-se de despachar as cartas, com caixas postais, alugadas em nome de laranjas, no endereço do remetente. 

As respostas, muitas vezes contendo – além de dinheiro – depoimentos pessoais, pedidos de ajuda, de conselhos, histórias de vida, cachos de cabelo, fotos, eram coletadas por funcionários dos laranjas, abertas e, removidas as notas de dólar e os cheques, jogadas fora sem que ninguém se desse ao trabalho de lê-las. Um dos trechos mais impactantes de A Deal with the Devil descreve uma caçamba de lixo, nos fundos de uma dessas terceirizadas, cheia de cartas escritas por gente idosa e solitária que realmente acreditava que Maria Duval era uma amiga sincera.

Diversas questões ficam sem resposta no livro, e vão desde qual o verdadeiro papel de Maria Duval no esquema – sua família insiste que ela assinou o contrato de venda do nome e da imagem de boa-fé, e ignorava a amplitude e a crueldade do que era feito  – e, talvez o mais intrigante, qual o legado dessa criação peculiar, dessa tecnologia estabelecida para “vender” Maria Duval. 

Não só o esquema original parece ter escapado ao controle de seu idealizador suíço, que se declara aposentado (o livro insinua um possível envolvimento mais atual da máfia russa),  como o estilo das cartas, o foco em vítimas vulneráveis, tudo isso vem sendo replicado, plagiado, ampliado e “aperfeiçoado” por vigaristas de todo o mundo. O golpe se presta a uma estrutura de franquia, afinal. E qual a consequência desse legado no ambiente online, onde aplicativos como o Facebook oferecem sucker lists altamente sofisticadas, produzidas algoritmicamente, sob demanda?

Uma pergunta que não fica é aquela que todo autor, pesquisador ou ativista que se dá ao trabalho de combater crendices como astrologia, paranormalidade, mediunidade ou terapias alternativas encontra várias vezes ao dia: “e daí?” E daí que tem gente que paga por horóscopo? E daí que tem gente que consulta cartomante? Que mal que tem? Tudo mundo gasta dinheiro com bobagem! Por que não deixar o povo se divertir em paz?

As narrativas das vítimas de “Maria Duval” – idosos sofrendo ruína financeira, ou em crises agudas de ansiedade porque não tinham mais o dinheiro “necessário” para escapar das “maldições” que a vidente revelava – são eloquentes nesse sentido. 

O argumento de que se trata de casos raros e excepcionais perde força diante da amplitude do esquema, do número de vítimas, do esforço concentrado de autoridades de diversos países em combatê-lo. Parafraseando o comentarista britânico John Oliver, cada vez que a astrologia ou a clarividência são validadas ou apresentadas de forma simpática na mídia, dez charlatões – incluindo predadores sofisticados como os apresentados em A Deal with the Devil – sorriem, graciosamente empoderados.

 

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência

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